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Fórmula 1

Título já era? Hamilton luta contra retrospecto após início sem vitórias

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Dá para ser campeão sem vencer as três primeiras corridas do ano? História mostra que sim, mas feito tem se tornado raro Imagem: AP Photo/Andy Wong

Emanuel Colombari

Do UOL, em São Paulo

26/04/2018 11h00

A Mercedes vive uma situação nova na atual temporada da Fórmula 1. Pela primeira vez desde 2014, quando conquistou seu primeiro Mundial de Construtores, a equipe alemã não venceu ao menos uma das três primeiras corridas do ano. E isso pode custar bem caro para Lewis Hamilton e Valtteri Bottas.

Ao longo da história, não são muitos os casos de pilotos que conquistaram o título mundial sem terem vencido as três primeiras corridas do ano. E os registros se tornaram ainda mais escassos nos últimos 30 anos, diante da evolução da categoria que tornou os carros mais duráveis e os abandonos mais raros.

Ainda dá para Hamilton? Dá. Ao todo, 11 temporadas consagraram pilotos que não venceram as três primeiras corridas dos respectivos anos. Em algumas das ocasiões, os campeões foram conhecidos de maneiras bem peculiares - quase sempre combinando regularidade e uma dose de sorte.

Keke Rosberg, campeão com uma vitória

O caso mais excepcional veio na temporada de 1982, no único título conquistado por Keke Rosberg. Naquele ano, o finlandês da Williams teve apenas uma vitória, no Grande Prêmio da Suíça. A corrida, realizada em solo francês, foi a antepenúltima etapa das 16 da temporada.

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Primeira vitória de Keke Rosberg em 1982 veio somente na 14ª corrida da temporada Imagem: Michael King/Getty Images

Rosberg, porém, contou com uma série de reviravoltas para terminar o ano em primeiro lugar. Por exemplo: após o GP da França, 11ª corrida do ano, o francês Didier Pironi liderava a classificação com 39 pontos, à frente do britânico John Watson (30), do francês Alain Prost (25) e do austríaco Niki Lauda (24). O pai de Nico Rosberg era o quinto, com 23.

Mas Pironi sofreu um grave acidente a bordo da Ferrari nos treinos para a prova seguinte, na Alemanha, e nunca mais correu na F-1. Lauda também se acidentou nos treinos, embora sem a mesma gravidade, e foi outro desfalque.

Naquela corrida, Patrick Tambay (Ferrari) venceu, à frente de René Arnoux (Renault) e Keke Rosberg. Alain Prost e John Watson não completaram. Assim, o finlandês chegou a 27 pontos e assumiu o terceiro lugar do Mundial de pilotos, atrás de Pironi (39) e Watson (30).

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Didier Pironi (em foto de 1981) abandonou a F-1 após grave acidente nos treinos para o GP da Alemanha de 1982 Imagem: Allsport UK/Allsport/Getty Images

No GP da Áustria, Elio de Angelis (Lotus) venceu, à frente de Rosberg – Lauda foi quinto, enquanto Prost e Watson não pontuaram. Assim, quando o finlandês venceu o GP da Suíça à frente de Prost e Lauda, já havia assumido o primeiro lugar do Mundial com 42 pontos – Pironi (39), Prost (31) e Watson (30) vinham na sequência.

O bigodudo Rosberg somou apenas mais dois pontos nas duas últimas corridas, graças ao quinto lugar no GP de Caesars Palace que fechou o ano. No entanto, com a reação tardia de John Watson (nove pontos nas duas corridas), com a aposentadoria de Didier Pironi, com os abandonos de Niki Lauda (nas duas provas) e com uma ajudinha de Alain Prost (que também abandonou na Itália), faturou o título: 44 pontos, contra 39 de Pironi, 39 de Watson e 34 de Prost.

Nos primórdios, “virada” no fim era comum

Se a reação buscada pela Mercedes se tornou incomum na Fórmula 1 moderna, podia ser vista com frequência nas primeiras décadas da categoria.

Em 1958, por exemplo, o britânico Mike Hawthorn foi o campeão. Detalhe: das 11 corridas no ano, também venceu apenas um – o GP da França, sexta etapa da temporada. Naquela época, vale destacar, as 500 Milhas de Indianápolis faziam parte do calendário da F1, embora fossem raros os pilotos europeus que topassem disputar a prova.

Foi mais ou menos o que aconteceu em 1960 com Jack Brabham. Nas três primeiras corridas do ano, o australiano teve um abandono (na Argentina) e uma desclassificação (Mônaco), além de não ter corrido em Indianápolis. No entanto, a partir da quarta prova, dominou: conquistou vitórias consecutivas nas corridas de Holanda, Bélgica, França, Inglaterra e Portugal, e mesmo ausente da penúltima prova (Itália), ainda terminou o ano à frente do neozelandês Bruce McLaren.

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Jack Brabham (em foto de 1967) começou devagar a temporada de 1960; depois, venceu cinco provas seguidas Imagem: Getty Images

John Surtees também sofreu um bocado no começo de 1964. Com três abandonos nas quatro primeiras corridas, além de um segundo lugar na Holanda, parecia carta fora do baralho antes do GP da Inglaterra, quinta etapa do ano – Jim Clark (21 pontos) e Graham Hill (20) disputavam a liderança, frente aos seis pontos do compatriota.

Só que Surtees embalou: foi terceiro em Brands Hatch e venceu na Alemanha, sexta corrida (de dez) no ano. No fim, Graham Hill terminou o ano com 41 pontos, contra 40 de Surtees. Mas como o regulamento da época só considerava os seis melhores resultados do ano, o pai de Damon Hill contabilizou somente 39 pontos – o ás das duas rodas manteve seus 40 e conquistou também seu único título sobre as quatro rodas.

A década de 1970 também viu arrancadas vitoriosas – como a de Niki Lauda em 1975. Naquele ano, quatro pilotos diferentes venceram as quatro primeiras corridas do ano: Emerson Fittipaldi na Argentina, José Carlos Pace no Brasil, Jody Scheckter na África do Sul e Jochen Mass na Espanha. Só que Lauda resolveu aparecer a partir da quinta etapa: venceu três provas seguidas (Mônaco, Bélgica e Suécia) e ainda subiu ao topo do pódio mais duas vezes (França e EUA). No fim, venceu o Mundial com 64,5 pontos e deixou Emerson (45 pontos) com o vice.

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Niki Lauda começou arrancada em 1975 ao vencer o GP de Mônaco (foto) Imagem: Tony Duffy/Allsport/Getty Images

Mas Lauda levou a pior no ano seguinte. Depois de vencer as duas primeiras corridas, no Brasil e na África do Sul, viu o britânico James Hunt faturar sua primeira vitória no ano no GP da Espanha, quarta corrida do calendário – o resultado chegou a ser cassado por conta de irregularidades na McLaren de Hunt, mas a equipe apelou e conseguiu reaver o resultado. O austríaco abriu boa vantagem após o GP da Inglaterra, nono do ano (58 a 35), mas seu grave acidente na Alemanha mudou o campeonato: fora de duas provas e sem vitórias nas quatro seguintes, Lauda assistiu Hunt somar três vitórias em seis corridas e ficar com o título por um ponto (69 a 68).

Por fim, em 1979, Jody Scheckter também reagiu a tempo de faturar o título. O sul-africano só foi vencer na sexta corrida do ano, na Bélgica, mas também foi o primeiro a receber bandeira quadriculada em Mônaco (sétima corrida) e na Itália (a 13ª das 15 provas). No fim, fechou o ano com 51 pontos, à frente de Gilles Villeneuve (47), Alan Jones (40) e Jacques Laffite (36). Detalhe: Villeneuve e Laffite venceram as quatro primeiras etapas daquele ano.

Dá para virar (mas ficou mais difícil)

Mas a Fórmula 1 tem se tornado mais eficiente. Com carros que quebram pouco e circuitos com amplas áreas de escape, entre outros motivos, ficou mais difícil correr atrás depois do prejuízo inicial.

Em 1987, Nelson Piquet conseguiu. Naquele ano, com 16 corridas, só foi conseguir sua primeira vitória na oitava delas, na Alemanha. Só que o brasileiro da Williams foi o segundo colocado em cinco das sete primeiras provas e acabou beneficiado por sua regularidade. Assim, faturou seu terceiro título e deixou o britânico Nigel Mansell, seu companheiro na Williams, com o vice.

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Piquet demorou a vencer em 1987, mas se deu bem pela quantidade de pódios no início do ano Imagem: Getty Images

Alain Prost também conseguiu em 1989, e pelo mesmo motivo: embora sua primeira vitória só tenha vindo na quinta corrida do ano, nos EUA, o francês conquistou o segundo lugar nas três primeiras provas do ano. O francês venceu apenas quatro provas no ano, contra seis de Ayrton Senna, mas viu o brasileiro abandonar seis vezes (fora a polêmica desclassificação no Japão) e venceu o Mundial.

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Alain Prost foi campeão em 1989, ano marcado pela polêmica desclassificação de Ayrton Senna no Japão Imagem: Getty Images

Desde então, apenas dois pilotos conseguiram ser campeões após passarem as três primeiras corridas do ano sem vitórias. Só que ambos venceram justamente a quarta etapa de suas respectivas temporadas – justamente o que Lewis Hamilton e Valtteri Bottas tentam neste final de semana em Baku.

O primeiro deles foi Michael Schumacher em 2003. Naquele ano, mais uma vez, três pilotos diferentes venceram as três primeiras corridas: David Coulthard (na Austrália), Kimi Raikkonen (na Malásia) e Giancarlo Fisichella (no Brasil). Mas Schumacher, que somava apenas oito pontos até então, venceu quatro das cinco corridas seguintes e superou Kimi Raikkonen (54 a 51) após o GP do Canadá. Os dois brigaram pelo título até o final do ano, mas o alemão levou a melhor por dois pontos: 93 a 91.

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Michael Schumacher somou apenas oito pontos nas três primeiras corridas de 2003, mas reagiu e foi campeão Imagem: REUTERS

Por fim, tal virada aconteceu em 2012, e em circunstâncias parecidas. Nas quatro primeiras corridas, quatro vencedores diferentes: Jenson Button na Austrália, Fernando Alonso na Malásia, Nico Rosberg na China e Sebastian Vettel no Bahrein. O alemão da Red Bull foi quase um coadjuvante de luxo até o GP da Itália, 13ª etapa das 20 do ano – Alonso liderava (179), à frente de Hamilton (142), Raikkonen (131) e do próprio Vettel (140).

Só que o então bicampeão reagiu e venceu as quatro corridas seguintes (Cingapura, Japão, Coreia do Sul e Índia), assumindo a liderança. No fim, o título só foi decidido no Brasil – melhor para Vettel, que fechou o ano com 281 pontos, contra 278 de Alonso.

O cenário em 2018

Sebastian Vettel deu à Ferrari duas vitórias nas duas primeiras corridas deste ano (Austrália e Bahrein) e já tem 54 pontos. Daniel Ricciardo venceu a terceira (China) com a Red Bull e soma 37 pontos.

Só que a situação da Mercedes ainda inspira confiança, já que cada piloto conquistou dois pódios em cada uma das três etapas do ano. Lewis Hamilton (45 pontos) foi segundo em Melbourne e terceiro em Sakhir, ao passo que Valtteri Bottas (40 pontos) foi segundo em Sakhir e Xangai.

Só que cabe à Mercedes reagir. E a reação precisa começar com uma vitória no GP do Azerbaijão, neste final de semana. Do contrário, os números jogarão (mais ainda) contra a equipe.

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