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Fórmula 1


Contra machismo nas arquibancadas, mulheres iniciam movimento em Interlagos

Arquivo pessoal
Danielle Mota, Beatriz Rosenburg e Priscila Uzum em Interlagos Imagem: Arquivo pessoal

Julianne Cerasoli

Do UOL, em São Paulo

2018-11-10T12:00:05

10/11/2018 12h00

Usar roupas largas, ir no banheiro acompanhada, comprar um ingresso mais caro só para ter mais tranquilidade. Essas são estratégias comuns das mulheres fãs de Fórmula 1 que frequentam o GP do Brasil, a fim de evitar serem constrangidas por atitudes machistas nas arquibancadas. Mas um grupo de mulheres decidiu começar um movimento para tentar mudar essa tradição. E tem dado certo.

Elas imprimiram 30 adesivos com os dizeres, em inglês, “sou mulher e amo a F-1. Respeite-me”. A iniciativa tem sido bem recebida em geral, segundo Bia Rosenburg, que idealizou o movimento. “As meninas estão adorando. Já os homens vêm falar comigo, por ver o adesivo, e me falam que gostaram da iniciativa, reconhecendo que alguns homens passam do ponto. Mas é bom ressaltar que não são todos os homens que fazem essas coisas”, reconheceu.

“No meio do treino livre, apareceram dois caras. Eles vieram puxar papo perguntando quem era o Ricciardo, por causa de um cartaz que eu estava segurando. Respondi e eles começaram a importunar a gente, falando que éramos bonitas. Isso é muito chato, queríamos assistir o treino e eles ficaram  atrapalhando, tentando chamar a nossa atenção.”

Esse tipo de incômodo é comum para as mulheres em Interlagos, mas elas relatam que o comportamento varia de acordo com o setor. “É constrangedor para nós. O G é o pior e o A é muito ruim, deixei de ir por conta disso”, revela Priscila Uzum, que frequenta Interlagos desde a década de 1990. “Já passei por muito constrangimento quando comprava o setor A, os caras ficam mexendo, não deixam você em paz. Eu tinha que ir vestida como se fosse homem para não ter problema. Isso foi entre 95 e 98. Depois, comecei a fazer sacrifícios financeiros para poder ficar no B e não passar por isso. Mas sinto que está melhorando nos últimos anos.”

Arquivo pessoal
Ideia é aumentar número de adesivos no ano que vem Imagem: Arquivo pessoal
A avaliação de que os setores mais baratos são os mais problemáticos é a mesma da organização do evento. Tanto, que recentemente o setor G, o mais barato, foi dividido para se tornar mais democrático.

“Uma coisa que a gente já fez foi separar o G e o Q”, lembrou o vice-presidente de marketing do GP Brasil, Gabriel Rohonyi. “O G ficou um espaço de torcidas organizadas e o Q ficou mais família. Já o A, no meu entendimento, como ele é maior e tem mais circulação, ele é menos problemático. O que podemos fazer? Estamos abertos a encontrar uma solução.”

Os preços dos setores variam bastante em Interlagos. A entrada para três dias nos setores G e Q custa 610,00 reais. No A, o ingresso custa R$ 870,00. E no B, citado por Uzum, o custo é de R$ 3.100,00 pelos três dias.

Outra preocupação comum entre as mulheres é se certificarem de que estarão em companhia masculina pois, na avaliação delas, isso diminui o assédio. Quem já foi a Interlagos com certeza ouviu o canto de “sócio” quando um casal se desloca entre as arquibancadas. Outra prática comum entre as mulheres é nunca ir sozinha ao banheiro, por exemplo, para evitarem serem importunadas.

“O pior episódio foi no setor V”, conta Beatriz. “Um cara ficou me cercando depois que minha prima saiu de perto para pegar comida. A minha sorte foi que outro homem comprou minha briga e ficou do meu lado no resto do treino para eu não ser mais importunada.”

A ideia do adesivo partiu depois de Rosenburg, incomodada com esse comportamento, procurar saber se a Liberty Media, que comanda a F-1, tinha alguma campanha de conscientização, o que não existe. “Então comecei a pensar como poderia fazer uma campanha no próprio autódromo. Pensei em um cartaz, mas ficaria muito isolado, seria difícil de espalhar. Foi quando surgiu a ideia do adesivo, que fiz junto com a Juliana Gonçalves, com quem estou começando a montar uma loja com produtos relacionados a automobilismo com modelos femininos, porque é um nicho não explorado aqui no Brasil.”

Como a ideia surgiu muito perto do evento, Rosenburg não teve tempo hábil para fazer muitos adesivos. Por isso a ideia é expandir a campanha no GP do ano que vem. "Como os homens estão recebendo bem, estou pensando em convidá-los a participar também."