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Fórmula 1


Como "esperteza" para driblar as regras salvou o time que hoje é a Mercedes

Almeida Rocha/Folha Imagem
Jeson Button no GP do Brasil de 2009 pela Brawn GP Imagem: Almeida Rocha/Folha Imagem

Julianne Cerasoli

Do UOL, em Londres (ING)

18/12/2018 04h00

A Mercedes é atualmente a toda poderosa da Fórmula 1, com cinco títulos mundiais de pilotos e equipes conquistados de 2014 para cá. Mas há dez anos o time que hoje tem Lewis Hamilton e Valtteri Bottas esteve perto de acabar. Em dezembro de 2008 depois de anos de alto investimento e poucos resultados e em meio a um cenário de crise mundial, a Honda decidiu retirar-se da categoria, deixando uma equipe com orçamento de mais de 1 bilhão de reais por ano e 700 funcionários para trás. Na época, parecia impossível o time se reerguer: quem compraria esse gigante que tinha somado apenas 20 pontos em dois anos? Só alguém que sabia muito bem onde estava se metendo.

Um ano antes de sair da F1, a Honda tinha contratado Ross Brawn a peso de ouro. Uma das cabeças que tinha levado a Benetton ao bicampeonato do início dos anos 90 e a Ferrari a sua fase de maior sucesso na história nos anos 2000, ele se tornou chefe da equipe japonesa, ao mesmo tempo em que fazia parte - assim como engenheiros de outras equipes - do chamado Grupo de Trabalho sobre Ultrapassagem, cuja função era mudar a aerodinâmica dos carros para que as corridas ganhassem mais emoção. Foi esse grupo que desenvolveu as regras de 2009, que diminuíram drasticamente a pressão aerodinâmica dos carros, tornando-os, pelo menos em teoria, mais lentos.

Voltando à história da Honda, o time passou meses sem compradores até que o próprio Brawn assumiu a escuderia pouco antes da primeira corrida da temporada, no início de março. Nesse período, os demais times ajudaram a equipe a se manter em operação e a Mercedes ofereceu motores praticamente de graça. Mal sabiam que Brawn tinha seus motivos para arriscar-se na empreitada: afinal, ele tinha, assim como Williams e Toyota, descoberto uma brecha nas regras que permitia o ganho de boa parte da pressão aerodinâmica perdida com o novo regulamento.

Era o que seria chamado de difusor duplo, tecnicamente ilegal, mas que acabou sendo liberado por razões políticas pela FIA, em época de grandes conflitos com as equipes grandes da F-1. Com um assoalho muito mais eficaz que os rivais e o forte motor Mercedes, a Brawn conseguiu uma dobradinha logo de cara na primeira corrida e ganhou o mundial de pilotos, com Jenson Button, e de construtores, mesmo perdendo rendimento na parte final do ano por conta da falta de desenvolvimento do carro.

Sabendo que a vantagem do time estava chegando ao fim, Brawn vendeu a equipe à Mercedes no final de 2009, em um negócio de R$ 550 milhões. E de quebra ficou por quatro temporadas como chefe da nova equipe.

Os alemães assumiram um time relativamente defasado em relação à operação milionária da Honda, e investiram em sua reestruturação nos primeiros anos, ajudados também pela experiência de Michael Schumacher. Em 2013, venceram pela primeira vez, pouco depois de terem atraído Lewis Hamilton e, quando a Fórmula 1 viveu outra grande mudança de regulamento, em 2014, foram a equipe que melhor soube interpretar as regras e passaram a dominar a categoria. Das 99 corridas disputadas desde então, o time que quase desapareceu há 10 anos venceu nada menos que 74.