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Fórmula 1


Lauda "adotou" novato Piquet e usou seguro de vida por obsessão de título

AP Photo/Luca Bruno
Imagem: AP Photo/Luca Bruno

Lito Cavalcanti

Colaboração para o UOL, em São Paulo

2019-05-25T04:00:00

25/05/2019 04h00

Mesmo não muito conhecido pelo grande público, Carlos Cintra Mauro, o Lua, é uma celebridade nos paddocks de todo o mundo. Sempre ligado ao automobilismo, ele começou a frequentar as pistas internacionais nos primeiros anos da década de 70 e se tornou uma das pessoas mais próximas de Nelson Piquet desde que o tricampeão mundial decidiu tentar a carreira na Europa.

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Lua recusa o título de empresário do ídolo brasileiro, "não fui manager nem empresário, apenas um grande amigo do Nelson". Títulos e cargos à parte, ele admite com certo constrangimento que fez parte da história do primeiro brasileiro a se sagrar tricampeão de Fórmula 1. Uma parte inegavelmente importante.

História essa que inclui a convivência de Piquet com Niki Lauda, tricampeão da F1, morto essa semana aos 70 anos. O ano era 1978 e, na última corrida do ano, o GP do Canadá, Nelson foi chamado para fazer sua primeira corrida pela Brabham, que contava com o austríaco e o irlandês John Watson.

"Já naquela corrida, ele foi muito bem recebido pelo Lauda, que identificou nele algumas semelhanças. Entre elas o cuidado com os detalhes no acerto do carro, o humor ácido e o desapego à badalação e aos holofotes típicos da Fórmula 1".

Divulgação
Imagem: Divulgação

"No ano seguinte, o John Watson deixou a Brabham e o Nelson o substituiu. E passou a observar tudo que o austríaco fazia. Os detalhes de cada função do carro, a maneira de se relacionar com os engenheiros e os mecânicos. E o Lauda praticamente o adotou, dando dicas e conselhos. Um dia ele falou para o Nelson que ele precisava ter seu próprio avião para não perder tempo em aeroportos, decolar na hora que lhe fosse mais conveniente. Foi aí que o Nelson se apaixonou pela aviação."

Para Lua, a influência do austríaco foi extremamente importante no crescimento de Piquet como piloto, mas não apenas isso.

"Ele foi muito além. Mesmo sem aparecer tanto quanto outros pilotos, Lauda foi um dos grandes mentores da melhora da segurança nas corridas. No fim de semana do acidente de Nurburgring, ele promoveu um movimento contra aquele circuito. Não que ele tivesse medo de algum trecho, a preocupação era a dificuldade de acesso de socorro médico caso houvesse um acidente mais grave. A pista tinha mais de 22 quilômetros de extensão, até saberem nos boxes que alguma coisa tinha ocorrido já seria tempo demais. E a chegada de uma ambulância ao local também poderia custar a vida de um piloto."

Chegou a ser irônico ter sido ele a vítima do acidente que todos temiam e só ele ousava abordar.

"No choque, o capacete dele se desprendeu, por isso o rosto dele ficou tão queimado. Não só o rosto, a visão dele também foi afetada, acho que isso acabou sendo parte da desistência dele de correr debaixo daquele temporal no GP do Japão. Ele não podia enxergar tão bem como os outros. Foi ele quem começou a cobrar por mais segurança dos capacetes, que de fato evoluíram muito desde aquele ano".

Um fato pouco conhecido da vida de Lauda é o espírito leve com que ele enfrentava as dificuldades.

"Para entrar na F2, ele se empenhou até onde foi possível, certo de que tudo daria certo no final. E investiu muito no início na F1, primeiro com a March e depois com a BRM. Ele tinha de pagar para correr, e as dívidas se avolumavam ano a ano. Até o prêmio do seguro de vida dele estava empenhado como garantia dos empréstimos. Mesmo assim, ele brincava com a situação."

"Todo dia, ao entrar no escritório, ele perguntava ao amigo que, entre várias funções, fazia as vezes de empresário dele. Era um ritual. Ele dizia bom dia, a Ferrari telefonou? A resposta era sempre um ainda não. Um dia, ele entrou e perguntou se a Ferrari tinha ligado, e o amigo respondeu que sim, Luca di Montezemolo, o diretor esportivo, tinha ligado e dito que o comendador Enzo Ferrari queria conversar com o Lauda".

Tony Duffy/Allsport/Getty Images
Imagem: Tony Duffy/Allsport/Getty Images

'Ele teve uma vida muito mais dura do que se imagina", prossegue Lua. "Os rins foram muito afetados no incêndio de Nurburgring e ele recebeu um rim do irmão para fazer o primeiro transplante. Depois de alguns anos, recebeu outra doação da segunda mulher dele, e por fim teve ainda um transplante de pulmões que o fez sofrer muito, nunca se recuperou muito bem. Vivia com dificuldades respiratórias, sob ameaça de pneumonia. Volta e meia estava no hospital. Dessa vez nos deixou. Uma pena, fica a saudade e a gratidão pelo muito que ajudou o automobilismo. Foi um cara muito especial, principalmente para o Nelson."