Oscar, tensão racial e Kardashians: caso OJ Simpson continua vivo nos EUA

Bruno Freitas

Do UOL, em São Paulo

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    Após 23 anos, crime que envolveu astro do esporte segue no imaginário americano

    Após 23 anos, crime que envolveu astro do esporte segue no imaginário americano

A cerimônia do Oscar no próximo domingo volta a expor para o mundo uma verdadeira obsessão americana: o caso OJ Simpson. O chocante crime que destruiu a reputação do astro do futebol americano já data 23 anos, mas ainda captura o imaginário dos Estados Unidos, com um pacote de elementos que seguem atuais no cotidiano do país. A história da morte da ex-mulher do atleta e de um amigo traz embutidos debates sobre questão racial, mundo das celebridades e ética policial.

Mais do que isso, é comum tratar o crime da família Simpson e todo o controverso julgamento de 1994-95 como o último grande acontecimento americano antes da era da internet, prévio aos tempos em que o mundo usa as mídias sociais para debater qualquer polêmica. Indicado ao Oscar na categoria de melhor documentário longa-metragem, "O.J.: Made in America" procura ir além dos clichês sobre o episódio. O filme leva ao público uma épica narrativa, conduzida pelo diretor Ezra Edelman, que apresenta o conto de um negro pobre que faz a América se apaixonar através do esporte, mas depois cai em desgraça pública com a morte violenta da ex-esposa.

Esta é uma história cheia de reviravoltas e que visita pontos relevantes do caráter americano. Do cinema à televisão, da família-celebridade Kardashian ao movimento negro "Black Lives Matter", a América atual não consegue deixar para trás as memórias do caso OJ Simpson.    

Filme indicado ao Oscar
Divulgação

"O.J.: Made in America" é um documentário americano, dividido em cinco partes, produzido para a cultuada série 30 por 30, da ESPN. O filme narra a história de OJ Simpson, do estrelato no esporte e no mundo do entretenimento até a tragédia familiar – o ex-jogador de futebol americano foi acusado de assassinar Nicole Brown Simpson e Ronald Goldman.

O documentário indicado ao Oscar vai além do relato do crime e suas consequências. O diretor enquadra a narrativa dentro de um cenário sócio-político americano, desde a luta pelos direitos civis dos negros por meio de atletas até à onda de violentos protestos em Los Angeles, em 1992, após a agressão ao taxista (negro) Rodney King em uma operação de policiais brancos.

No começo, uma lenda no esporte
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A história de Orenthal James Simpson é comum a muitos negros de comunidades pobres americanas, que apontam na direção do esporte como alternativa de ascensão social  às vezes a única alternativa. O jovem nascido em 1947 em San Francisco virou uma estrela de forma precoce, ao vencer o título nacional universitário pela Southern California. Durante aquela campanha, OJ espantou o esporte local ao anotar um touchdown correndo 64 jardas.

Conhecido como "The Juice" ("O Suco" – em referência à abreviatura de Orange Juice, Suco de Laranja), Simpson depois teve uma carreira brilhante como profissional, atuando como "running back". Na NFL, defendeu Buffalo Bills e San Francisco 49ers. Com várias marcas pessoais, OJ foi incluído no rol da fama do futebol americano após sua aposentadoria.

Ator e celebridade carismática
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Após abandonar o futebol americano, OJ Simpson ampliou seu status de celebridade nacional ao atuar como garoto-propaganda na televisão e também como comentarista esportivo. Nesta época, o atleta aposentado levava uma vida de festas e luxo num bairro rico de Los Angeles, em meio a um círculo social que continha diversas personalidades.

Em seguida OJ emendou uma carreira bastante prolífica nas telas. O ex-jogador teve cerca de 30 participações na televisão e no cinema como ator ou produtor executivo. Seu maior sucesso foi o papel de coadjuvante na sequência "Corra Que A Polícia Vem Aí", estrelada pelo comediante Leslie Nielsen.

Antes de ser preso em 1994, OJ trabalhava no projeto de "Forgmen", uma série em que seria protagonista, para a NBC. No episódio piloto, existia uma cena em que Simpson segura uma faca na garganta de uma mulher. A atração foi cancelada assim que o escândalo foi deflagrado.

Segundo casamento problemático
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OJ se casou pela primeira vez aos 19 anos, com Marguerite L. Whitley, com quem teve 3 filhos – um deles morreu afogado na piscina da família com apenas um ano. Ainda comprometido, o astro conheceu Nicole Brown em 1977, quando a bela jovem era garçonete de um clube noturno (ele com 29 anos, ela com 18).

Simpson e Nicole formalizam o casamento em 1985 e logo celebraram a chegada de duas crianças. Foram sete anos de união, com direito a uma acusação de violência doméstica, que o ex-jogador não contestou. O divórcio foi oficializado em 1992.

O crime
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Nicole Brown foi morta a facadas em sua casa, junto com o amigo Ronald Goldman, em 12 de junho de 1994, num bairro chique de Los Angeles, região quase "imune" a crimes. A polícia descobriu os corpos somente porque o cão da vítima parecia estressado. O animal tinha sangue em suas patas e chamou a atenção de alguns vizinhos.

País inteiro testemunhou prisão pela TV
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Os Estados Unidos pararam para ver a cena insólita de OJ Simpson fugindo da polícia em 17 de junho de 1994. Acusado de ser o responsável pelas mortes de Nicole e Ronald, o ex-jogador disparou em seu Ford Bronco branco por estradas de Los Angeles, seguido por um pesado contingente policial. Ao mesmo tempo, foi conversando por telefone com o chefe da polícia local, negociando a rendição, mas ameaçando se matar.

Na oportunidade, OJ afirmava que fugiu porque pretendia se suicidar no sítio onde Nicole Brown estava enterrada. A cobertura da perseguição policial foi gigantesca – cerca de 20 helicópteros filmaram a escapada e todos os principais canais de televisão transmitiram ao vivo.

Neste dia, a cobertura esportiva dos Estados Unidos já estava inchada pela transmissão da abertura da Copa do Mundo da Fifa, além de um jogo final da NBA. A programação foi interrompida a ponto de que a partida entre Houston Rockets e New York Knicks aparecesse veiculada pela NBC apenas dentro de um pequeno quadro no canto da tela, enquanto a fuga de OJ ocupava a parte principal.

Julgamento parou os EUA
MYUNG J. CHUN/AFP

Durante um ano não se falou em outra coisa nos EUA. Mais de 20 milhões de pessoas acompanharam o julgamento de OJ na frente da televisão, depoimento após depoimento. O acontecimento assim superou os recordes nacionais de audiência, à frente do funeral do presidente John Kennedy, da chegada do homem à lua e do show de Elvis Presley transmitido ao vivo do Havaí.

Foram mais de 370 dias de julgamento, com 133 testemunhas ouvidas. Os autos alcançaram mais de 50 mil páginas, em que a palavra mais citada (sangue) foi pronunciada cerca de 15 mil vezes.

O dia do veredito, em 3 de outubro de 1995, foi seguido por cerca de 100 milhões de pessoas ao redor do mundo. Junto com uma cara equipe de advogados tratada como "time dos sonhos", OJ Simpson acabou absolvido dos dois crimes, para espanto da nação. No entanto, em 1997, o ex-jogador foi condenado por um júri civil. O ídolo acabou sendo responsabilizado pelas mortes de Nicole e Ronald e condenado a pagar US$ 33,5 milhões aos familiares das vítimas (algo que nunca aconteceu).

Tensão racial: negros contra brancos
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Durante décadas OJ morou num bairro rico de Los Angeles, cercado de amigos brancos, muitos deles famosos. No entanto, assim que assumiu a condição de réu, o ex-jogador de futebol americano teve a figura moldada por sua defesa quase como um mártir da causa negra nos Estados Unidos.

A questão racial pautou o julgamento, inclusive na formação do júri. A defesa usou habilmente o tema em vários momentos e conseguiu mobilizar uma série de fãs negros de OJ, muitos deles presentes na porta do tribunal em manifestações a favor do ex-atleta (uma pequena multidão no dia do veredito).

Uma pesquisa encomendada pela imprensa americana na época do veredito indicava que 72% dos brancos do país acreditavam que Simpson era culpado. Por sua vez, 71% dos negros americanos entendiam que OJ era inocente.

Na véspera do veredito, o então presidente Bill Clinton foi informado a respeito de medidas especiais de segurança em caso de tumultos nacionais. Temia-se que uma eventual condenação de OJ deflagrasse uma onda de violência semelhante aos atos de 1992 em Los Angeles. De quebra, estima-se que cerca de US$ 480 milhões foram perdidos em produtividade neste dia nos Estados Unidos, com redução de 58% no número de chamadas telefônicas de longa distância.

Caso envolveu a família Kardashian
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Anos antes de o sobrenome Kardashian ficar famoso com suas belas mulheres de "reality show", a família se viu exposta à mídia no caso OJ Simpson. Robert Kardashian era amigo pessoal do ex-jogador e participou da equipe de advogados que defendeu o ídolo nos tribunais. Mais do que isso, o pai de Kim, Kourtney, Khloé e Rob teve participação decisiva quando o astro decidiu fugir da polícia.

Robert ofereceu sua casa para que Simpson evitasse a mídia logo após as primeiras notícias sobre o assassinato. O chefe da família Kardashian ainda leu uma carta do ex-jogador para a imprensa pouco antes da perseguição policial. O advogado também carregou uma pequena mala com pertences de OJ no dia em que o acusado voltava de Chicago, depois do crime. Na época, a acusação especulou que o recipiente pudesse conter a roupa ensanguentada de Simpson ou a arma usada na agressão.

De quebra, antes da famosa perseguição, OJ ameaçou suicidar-se no quarto de Kim Kardashian (hoje uma das celebridades mais famosas dos tempos das mídias sociais). A filha de Robert ficou do lado do pai durante todo o julgamento. Já a mãe, Kris Jenner, era amiga de Nicole e acreditava que Simpson era o culpado pelo crime.

OJ na cadeia há dez anos
AP Photo/Ethan Miller

Após escapar da prisão na década de 90, Simpson sabia que os Estados Unidos estavam de olho em seu comportamento. Mesmo assim, acabou pisando fora da linha anos depois. Em 2007, o ex-jogador foi preso em Las Vegas, após um rocambolesco incidente dentro de um cassino.

No episódio, OJ invadiu um quarto de hotel armado em busca de souvenires de seus tempos como atleta, acompanhado de alguns capangas. Simpson alegava que as relíquias de sua fase na NFL ainda pertenciam a ele, e não aos dois vendedores envolvidos. Um ano depois, foi condenado por roubo à mão armada e sequestro. Aos 69, o antigo ídolo do esporte americano hoje cumpre prisão de 33 anos em uma penitenciária no estado de Nevada.

Caso OJ é revisitado também na TV
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Até pouco tempo, o caso talvez fosse o último grande acontecimento americano que ainda não havia ganhado uma dramatização nas telas. Mas o episódio finalmente virou dramaturgia com o lançamento da primeira temporada de "American Crime Story: O Povo contra OJ Simpson".

A série de televisão é baseada no livro de "The Run Of His Life" ("A corrida de sua vida"), de Jeffrey Toobin, repórter da revista New Yorker. "É a perfeita combinação de tudo que o povo americano é obcecado", costuma dizer o jornalista sobre a história.

Com John Travolta como um dos advogados do réu, a série ainda conta com Cuba Gooding Jr. encarando o tremendo desafio de encarnar OJ Simpson. 



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