Mancini celebra boa fase da Chape e rechaça comparação com Leicester

Daniel Fasolin

Colaboração para o UOL, em Chapecó (SC)

  • Sirli Freitas/Chapecoense

A Chapecoense começou a rodada na liderança do Campeonato Brasileiro, viu o Corinthians ultrapassá-la, mas pode retomar a posição nesta noite de quinta-feira, caso derrote o Grêmio por três gols de diferença.

Mesmo com o bom início, o técnico Vagner Mancini evitou o otimismo e rechaçou qualquer comparação com o Leicester, que surpreendeu ao ganhar a edição 2015/2016 do Campeonato Inglês. "Acho essa relação um pouco extremista", afirmou o treinador em entrevista exclusiva ao UOL Esporte.

Mancini ainda explicou que o trabalho no time catarinense é um momento especial em sua carreira, ainda mais por ter substituído o amigo Caio Júnior, um dos 71 mortos no trágico acidente sofrido pela delegação da Chapecoense em novembro do ano passado.

Veja abaixo trechos da entrevista com o treinador.

Momento pessoal

Não é meu melhor momento, até porque já tive outros momentos bons, no Paulista em 2005, no Vitória em 2008 e no Atlético-PR em 2013. São momentos diferentes e eles retratam aquilo que você esta vivendo. Não podemos de maneira alguma comparar um trabalho feito hoje com o passado e também o futuro. A Chapecoense te possibilita fazer um trabalho homogêneo, pois aqui não temos ninguém que ganha mais do que ninguém. Dificilmente você perde a mão. Aqui não tem ninguém maior do que ninguém. Se me fizessem a pergunta se esse é o maior desafio, certamente eu responderia que sim. Está sendo especial e não podemos negar.

Campanha no Brasileirão

Ninguém esperava essa fase e essa liderança. Todos sem exceção esperavam e esperam que a Chapecoense fosse brigar na parte de baixo da tabela. Após esse bom inicio muitas pessoas começaram a perceber a Chapecoense, mas muitos ainda não mudaram suas opiniões. A Chape fez quatro jogos muito bons em um ritmo muito bom e é por isso que temos que seguir com o nosso trabalho e nossa intensidade de jogo e treinamento que nos faz diferente das outras equipes. Depende muito de nós e não de fatores externos a gente chegar onde a gente acha que pode.

O efeito Leicester

Isso é um exagero quando você aponta após quatro rodadas um time que, em teoria todos acham que vai brigar para não cair, como o favorito para conquistar o título. Eu acho essa relação um pouco extremista. O futebol pode apresentar alguns outros "Leicester" pois o clube inglês fez uma campanha memorável e ninguém acreditava. A Chape pode fazer? Pode, porém é muito cedo para avaliar uma equipe que foi bem no inicio do ano, mas é uma equipe nova. Tudo é muito novo, temos que aproveitar esse momento, mas temos que ter cuidado também, para que isso não se transforme em excesso de confiança. Esse é meu papel, pontuar algumas coisas para que isso não fuja do controle. Não podemos deixar que o externo atrapalhe nosso jogo.

Objetivos

Nosso objetivo é o mesmo, ficar na Série A. Ela possibilita um ganho muito bom financeiro, ou seja, nos dá uns milhões a mais do que se cairmos para Série B. Mas lógico, que dentro do campeonato, após os jogos irem se desenvolvendo e as equipes vão sendo conhecidas, nós começamos a acreditar mais. Mas não podemos sair do nosso ideal, que é marcar forte, sermos intensos e sem perder o controle. Espero que isso não aconteça, pois é muito difícil voltar a ter controle novamente.

União do grupo

Chegamos aqui zerados, muitos sem se conhecer e estamos conseguindo essa união com muita conversa, ninguém era titular ou reserva. Muitos atletas já jogaram e saíram e assim fica fácil mostrar para eles que o que eles fazem dentro de campo vai determinar se serão titulares ou não. Pois o que fizeram na temporada passada não vale, pois aqui não teria como existir isso. Eles entenderam o que eu quero, na parte tática e no comprometimento com o o clube também. Nós aprendemos muito esse ano em derrotas pontuais, que nos fizeram crescer muito.

"Dança" do treinadores

Sou vice-presidente da Federação de Treinadores, mas eu não estou aqui para julgar ninguém. Mas confesso que fico incomodado quando vejo alguns treinadores mudarem de clubes. Respeitamos a decisão de cada um, mas para dar certo aqui, os dois lados tem que seguir em harmonia. Se você não tem isso, há o desequilibro no mercado. Espero que a Lei Caio Júnior seja aprovada, pois a lei de 1993 precisa de adequações. Há necessidade de uma melhora na lei. Os treinadores precisam estar em igualdade de condições com os clubes, atletas e árbitros. Mas nós, técnicos, precisamos fazer do nosso lado o que deve ser feito. Isso não é só por parte do dirigente, a torcida e imprensa também tem sua parcela e esse peso vai para o dirigente e ele acaba sob pressão demitindo o treinador. Mas existe também aquele dirigente que não se preparou para o cargo e, quando confrontado, demite o treinador, pois é muito fácil. Precisamos melhorar as condições de trabalho para os treinadores.

Tempo de trabalho

Todo mundo é culpado por este pequena média de trabalho dos treinadores nos clubes brasileiros (no Brasil média de 4,5 meses), mas não podemos jogar a responsabilidade no técnico ou no clube. É uma somatória de várias coisas que faz com que nosso futebol seja assim. Quando o clube tiver que indenizar o contrato do treinador ele vai pensar duas vezes antes de mandar embora. Assim funcionaria se o clube só pudesse contratar outro treinador após quitar os débitos com o último treinador. Aí ele pensará novamente. Não é vantagem ficar mandando embora os treinadores e pensamos que o clube também não seja lesado. Isso precisa ser muito discutido no Brasil e eu vejo pouca gente preocupada com o futebol brasileiro. Na Europa, acontece isso muito e aqui temos muito pouco. Precisamos melhorar o futebol como produto.

Treinadores

Aqui no Brasil a gente tem muitas classes de treinadores. Tem aqueles que escolhem os clubes, os que só pegam uma parcela de clubes para treinar, aqueles que "apagam incêndios" e aqueles que lutam muito para poder trabalhar. Precisamos de uma classe mais homogênea que faça com que todos possam passar por todas as divisões. Não podemos ter treinadores que treinem cinco times de Série A em uma temporada. Isso não dá oportunidade para jovens talentos, que querem mostrar o seu trabalho, possam trabalhar em grandes clubes.

 

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