"Mutação" de Renato e democracia de Carille mudam patamar de times líderes

Dassler Marques e Jeremias Wernek

Do UOL, em São Paulo e Porto Alegre

  • Montagem sobre fotos de Daniel Augusto Jr/Ag Corinthians e Lucas Uebel/Grêmio

    Corinthians de Carille visita o Grêmio de Renato neste domingo

    Corinthians de Carille visita o Grêmio de Renato neste domingo

As campanhas são praticamente perfeitas após nove rodadas e podem ser explicadas a partir dos treinadores. Se Grêmio e Corinthians saíram de coadjuvantes a protagonistas do Campeonato Brasileiro neste início de competição, a ponto de gerarem elevada expectativa para um jogo válido pela décima rodada, isso se deve a Renato Gaúcho e Fábio Carille. 

Cada um a seu estilo, com diferenças e semelhanças, os treinadores e suas comissões técnicas deixaram favoritos para trás para, ao menos neste início de competição, ditarem o ritmo da tabela a partir de trabalhos elogiáveis.

No caso de Renato, essa ascensão está muito ligada a uma mudança de postura pessoal significativa na abordagem geral. Já com Carille, é a recuperação do DNA do clube que se perdeu no semestre passado, o que vai desde a parte tática ao estilo de comando. Grêmio e Corinthians se encontram no domingo, às 16h (de Brasília). 

A mutação do novo Renato Portaluppi

Lucas Uebel/Grêmio FBPA
Luan é o jogador mais importante no Grêmio de Renato

A terceira passagem de Renato pelo Grêmio já teve sinais de que seria diferente desde o começo. Sem tantas frases de efeito e com postura mais sóbria nas coletivas, o treinador também surpreendeu internamente pela maneira de interagir com funcionários e jogadores.

É atribuída a ele a recuperação de Ramiro, em baixa no período com Roger Machado, e que se tornou vital ao time no meio-campo. Também cai na conta do treinador a evolução de Pedro Rocha, herói na final contra o Atlético-MG e titular em todo 2017.

Depois do título da Copa do Brasil de 2016, e o 'efeito Renato' avassalador nos jogos decisivos, o treinador preferiu contrato de um ano em vez do vínculo de 24 meses proposto pelos dirigentes. E na arrancada da pré-temporada, passou a dar abertura para as categorias de base do clube. O uso de jovens se tornou rotina, ao contrário de 2010/2011 e 2013, quando também sentou no banco de reservas gremista. 

O expoente dessa medida é Arthur, 20 anos, que foi promovido em janeiro e desde maio virou titular do meio-campo, barrando até mesmo o retorno de Maicon, capitão e líder do grupo, após lesões. Além dele, outros nomes também ganharam espaço – Conrado, Nicolas Careca, Pepê, Jadson e Machado foram relacionados recentemente.

O treinador ainda manteve a base do trabalho de Roger logo que chegou e somente depois da virada do ano passou a migrar para um jogo mais vertical. O resultado: com cinco meses de competição o time superou marcas construídas em 2016 inteiro.

Renato Portaluppi mantém diálogo aberto com os atletas e a gestão do grupo é exaltada por todos. A conduta do treinador envolve reunião com jogadores para definir funções, acatando sugestões deles, e proteção extrema de críticas ou situações atípicas perante à imprensa. A injeção de confiança e liberdade para tomada de decisão no campo também é citada.

A montagem do time passa diretamente por Renato e pelo auxiliar Alexandre Mendes, fiel escudeiro há anos. Os dois coordenam a comissão técnica que não tem mais assistente do clube – James Freitas fechou com o Cruzeiro no início do ano. Mas, ao contrário de relato das outras passagens, desta vez o treinador já demonstrou abertura para opiniões diferentes.

O estilo de comando que ajudou Carille a virar unanimidade 

Daniel Augusto Jr. / Ag. Corinthians
Jô se tornou referência do Corinthians de Carille

Diferentemente de Renato, que já largou no comando gremista com a idolatria assegurada por sua história no clube, Fábio Carille começou 2017 com a necessidade de se provar para os torcedores. Internamente, porém, já tinha respeito e confiança de jogadores, funcionários e parte da diretoria. 

No ano anterior, quando Cristóvão Borges falhou na missão de substituir Tite, um grupo de atletas chegou a solicitar à cúpula que Carille fosse efetivado. Essa posição foi reafirmada ao elenco dias depois, até que o presidente Roberto de Andrade, pressionado por conselheiros, optou por contratar Oswaldo de Oliveira e colocar experiência no comando. Por isso, após oito anos como auxiliar, Fábio virou treinador com a sensação interna de que se fazia justiça.

Enquanto ganhava força com resultados positivos e se aprimorava na nova função, Carille também estimulou um estilo de comando pouco comum em tempos de treinadores badalados e muitas vezes centralizadores. Um comandante que não somente tem a capacidade de falar, mas principalmente de ouvir. Fábio aprofundou um perfil de trabalho que Tite já exercitava e passou a envolver o grupo em suas decisões. Uma liderança horizontal, democrática, e sincronizada com os anseios e demandas da direção do clube. 

Se Renato tem, no Grêmio, os jogadores de confiança com quem comparte ideias e se aconselha, como Edílson, Geromel, Gröhe, Maicon e Douglas, não é diferente no Corinthians. Os capitães de Carille são Cássio, Balbuena, Fagner, Jô e Jadson, que eventualmente auxiliam o treinador a se comunicar com o grupo, a fortalecer ideias e tomar decisões. Rodriguinho é outro jogador importante nesse sentido e alguém com quem Fábio costuma discutir taticamente.

Cercado por três assistentes técnicos, um número elevado para os padrões do Brasil, Carille encontrou profissionais com os quais suas ideias de futebol se identificam. Leandro Silva, o Cuca, em especial, e Osmar Loss, de currículo vitorioso na base, auxiliaram a formar uma equipe com desempenho defensivo impressionante, que não sofreu gols em 21 dos 38 jogos da temporada. A ideia, desde a disputa do Paulistão, foi aprimorar o estilo, algo que se prova no Brasileirão. 

Com um índice de posse de bola superior ao do Estadual, o Corinthians de Carille também passou a fazer gols e a envolver mais os adversários no campo de ataque. O treinador soltou amarras sem perder a consistência, e o maior entrosamento e confiança tornaram, após nove rodadas, o ataque corintiano o segundo melhor da competição - 17 gols em 9 jogos -, atrás somente do Grêmio de Renato. O que faltava para, definitivamente, fazer a equipe de Fábio Carille uma das melhores do país.  

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