Exclusivo: Pedrinho diz como quase deixou futebol após não de SP e Vitória

Dassler Marques e Diego Salgado

Do UOL, em São Paulo

  • Daniel Vorley/AGIF

    Pedrinho marcou o primeiro gol como profissional na última quarta-feira

    Pedrinho marcou o primeiro gol como profissional na última quarta-feira

Quem vê Pedrinho feliz com o primeiro gol marcado pelo Corinthians não imagina como foi difícil passar por uma fase complicada antes de chegar ao clube. As adversidades daquela ocasião, com direito a uma lesão séria e recusas de São Paulo e Vitória, quase fizeram o menino de 15 anos desistir de seguir carreira no futebol. 

"Liguei para o meu pai e falei que não queria mais. Falei que era o pior ano da minha vida, que queria ir embora, que não dava mais", relembra Pedrinho, hoje aos 19 anos, em entrevista exclusiva ao UOL Esporte, concedida na véspera da partida contra o Patriotas-COL, pela Copa Sul-Americana.

O meia-atacante relembrou ainda como cinco minutos em um teste no Corinthians, dias depois da ligação para o pai, ajudaram a salvar a trajetória dele no esporte. Com uma chance rara, Pedrinho entrou de vez para o clube depois de dois golaços. 

A promessa corintiana também falou sobre o atual momento que vive no clube alvinegro, fez elogios a Fábio Carille e contou como faz para conseguir viver longe da família, que mora em Maceió, capital de Alagoas - os encontros, raros, ocorrem de quatro em quatro meses.

Lembro que eu não tinha chuteira e meu pai gastou R$ 250 em uma. Foi um dos melhores presentes que poderia ganhar"

Confira a entrevista com Pedrinho:

QUASE DESISTIU DO FUTEBOL
Fui dispensado pelo Vitória em fevereiro [de 2013], abri a virilha em março e fiquei dois meses sem jogar. Em maio fui para o São Paulo, fiquei uma semana lá. Treinei bem e no final me falaram que eu estava no mesmo nível dos caras de lá. E eles disseram que iriam preferir ficar com os de lá. Eu saí chorando muito, liguei para o meu pai e falei que não queria mais. Falei que era o pior ano da minha vida, que queria ir embora, que não dava mais. Ele pediu para eu ficar tranquilo, que ia dar certo. Pediu para eu ficar aqui por mim e por eles. Falei com a minha mãe também. Eu esperava que eles falassem para eu voltar, mas não. Eles foram mais fortes que eu. Me disseram que precisavam de mim também, para eu correr atrás dos meus sonhos. A partir dali botei isso na cabeça. Eu precisava ajudar eles de alguma forma também. Fui para casa do meu empresário chateado, ele me ajudou também. No outro dia vim para o Corinthians.

Daniel Augusto Jr. / Ag. Corinthians
Meia-atacante de 19 anos aplica chapéu duplo na vitória por 1 a 0 sobre o Botafogo

Desde pequeno tive vontade de ter uma bola. Meu pai comprou para mim. Foi o primeiro presente que ele me deu"

SALVO POR 5 MINUTOS
Eu treinei dois dias. Numa quarta-feira teve um amistoso contra o Vitória. Tinham 11 moleques para o teste. O treinador colocou dez em campo e me deixou de fora. Só eu, sozinho. Quando o jogo estava rolando, prometi que ia embora depois que acabasse. Porque só eu estava fora, não aceitava. Faltando cinco minutos ele me colocou. No primeiro lance eu chutei e mandei na gaveta. Comecei a me animar e ele deu mais cinco minutos. Fiz outro gol e ele falou que eu estava aprovado. Foi na semana do aniversário do meu pai. Liguei e contei para ele, que é corintiano fanático. Cinco minutos mudaram minha vida. A coisa estava complicada [risos].

"CARILLE É UM PAIZÃO"
Se fosse outro técnico, sinceramente, seria diferente. Não posso reclamar de nada e só agradeço. Estou com cinco meses que subi. Se fosse outro técnico, não teria essa oportunidade. Ficaria só treinando, como aconteceu com muitos moleques, no primeiro ano ficar só aqui treinando para ganhar experiência. Com ele, não. Ele falou que ia me colocar para jogar. É importantíssimo para o grupo. Ele faz o grupo correr por ele. É um cara fundamental, não tem xingamento. Ele sabe conversar, está errado, ele conversa. É um paizão mesmo. Ajuda a todos. O mesmo sentimento que ele tem por nós temos por ele. De agradecimento, pela confiança que tem com a gente.

PRIMEIRA LEMBRANÇA NO FUTEBOL
Desde pequeno tive vontade de ter uma bola. Meu pai comprou para mim. Foi o primeiro presente que ele me deu. Eu ficava chutando em casa, batendo. Lembro que minha mãe falava que eu ia quebrar as coisas lá. Mas meu pai falava que no futuro eu ia dar tudo de volta. Aos seis anos entrei mesmo no futebol pelo CSA. Comecei no campo, fui até os 12 e depois dividi entre salão e campo. Com uns 13 só fiquei no campo mesmo. O salão me ajudou a progredir muito, com dribles curtos e jogadas próximas.

SE INSPIROU EM RONALDINHO
Foi com o passar do tempo. Meu pai nunca jogou muita bola, mas sempre ficava fazendo embaixadinha com a cabeça. Fui pegando aos poucos. Olhava vídeos também e tentava copiar, me desafiar e desafiar o vídeo. Via vídeos do Ronaldinho fazendo, Robinho. Tentava fazer o 'zerinho'. Cada vez mais ia improvisando algumas coisas. Fui evoluindo rapidamente e quando vi já sabia fazer várias coisas. Meus amigos brincavam que dava para eu ficar no sinal ganhando dinheiro. Até hoje vejo vídeos de freestyle para tentar aprender alguma coisa nova.

Fui para o Vitória aos 13 anos. Meu pai foi passar dez dias comigo. Na hora de ir embora, ele pediu para eu ficar dormindo"

Acervo
Pedrinho ao lado dos pais e da irmã

TEMPO LIVRE É FUTEBOL
Na base, quando tinha folga no domingo e não tinha o que fazer, eu pegava a bola e jogava embaixo da arquibancada. Fazia embaixadinha, jogava futevôlei.

INFÂNCIA EM MACEIÓ
No começo era bem difícil porque meu pai [Pedro] e minha mãe [Luciana] trabalhavam. Mas nunca passei fome. Eles tinham dinheiro para me sustentar. Eles tiravam dele para dar para nós [Pedrinho tem uma irmã de 16 anos chamada Luana]. Lembro que eu não tinha chuteira e meu pai gastou R$ 250 em uma. Usei o ano inteiro. Ele me disse que era um presente que ele podia dar. Foi um dos melhores presentes que poderia ganhar. Tenho guardado até hoje. Me ajudou a evoluir.

TREINO DE AMBULÂNCIA
Às vezes eu ia trabalhar de ambulância com meu pai. Ele trabalhava num posto e pegava carona. Eu ficava lá atrás. Era no tempo do Corinthians Alagoano. Era meio longe e tinha de pegar dois ônibus para chegar. Chegava tarde do colégio e às vezes rolava essa carona.

N.R: o pai de Pedrinho ainda é maqueiro num hospital de Maceió. Em junho, o UOL Esporte contou a história da família do jogador.

PAI É O MAIOR INCENTIVADOR
Ele é um cara fantástico. Para mim ele daria tudo. Ele sente muito a minha falta. Se falam de mim, ele começa a chorar. É um cara que quer vivenciar mais tudo isso. Ele pensa em vir para cá, mas está trabalhando. Não quer deixar o trabalho. Minha irmã está estudando também. Mas num futuro próximo quero trazer todos para cá.

Tenho responsabilidades desde os 13 anos. Sempre tive de arrumar minhas coisas sozinho"

ESTUDOS E FUTEBOL
No começo era complicado e ficava de recuperação às vezes. Tinha férias e precisava ficar aqui para fazer prova. É complicado, mas com a ajuda da assistente social do clube fica mais fácil. Eu sempre pensei em fazer faculdade de educação física para aprimorar. E lá na frente ter algo para mim. Mas hoje é complicado, é muita correria. Jogo atrás de jogo.

SAIU DE CASA AOS 13 ANOS
Fui para o Vitória aos 13 anos. Complicado. Meu pai foi passar dez dias comigo. Na hora de ir embora, ele pediu para eu ficar dormindo. Assim não precisava se despedir. Meu pai e minha mãe ficavam chorando. Às vezes sinto falta da comida, do dia a dia, das coisas mais fáceis. Bate muita saudade. Agora está mais fácil de ser ver. Nos vemos a cada quatro meses. Antes eram duas vezes por ano só. Pouquíssimo. Hoje consigo trazer eles mais vezes. Falo com meu pai três vezes por dia, com a minha irmã e minha mãe também. No final do ano vou conversar com eles para saber qual o melhor momento de mudar para cá.

COMO SE VIRA SEM OS PAIS?
Tem uma churrascaria que vou direto com meu amigo. Quando não vai lá, a gente compra um quilo de carne e assa na churrasqueira elétrica.

Daniel Augusto Jr/Agência Corinthians
Pedrinho é fissurado pelas embaixadinhas

ROTINA FORA DO CLUBE
Ainda venho de carona para o CT. Com o [volante] Warian ou o [zagueiro] Léo Santos. Estou tirando minha carta ainda. Quando não dá, venho de Uber. Às vezes o motorista me reconhece e pede uma foto. Comecei a tirar a carta, mas não tenho tanto tempo. Fico uma semana sem ir, depois eu vou.

NOTÍCIA DE QUE IRIA PARA O TIME PROFISSIONAL
Depois da Copinha fiquei uma semana aqui em São Paulo com meus pais para passear. Estava indo para o aeroporto, no carro, e recebi a notícia. Eu tive de cancelar a viagem para Maceió. Estava indo para o aeroporto. Não sabia se comemorava ou lamentava. Passagem estava comprada. Me deram um dia de folga depois. Fiquei aqui, fui apresentado na Arena. Foi uma emoção muito grande. Ainda estava com meu pai quando recebi essa notícia. Depois ganhei dez dias de folga e fui para Maceió.

N.R: Pedrinho marcou cinco gols na campanha vitoriosa do Corinthians na Copa São Paulo. Dias depois, recebeu a notícia de que treinaria entre os profissionais do Corinthians.

EVOLUÇÃO NA EQUIPE
Sei que esse ano vou entrar aos poucos. Não é de primeira isso. Tenho cinco meses no profissional. Precisa ser uma adaptação natural, aos poucos. No ano que vem me vejo com um jogador que pode mostrar mais. Entrar mais no time e decidir jogos. Ser protagonista do time. Primeiro vou trabalhar com os pés no chão, humildade, para poder evoluir assim.

N.R: Pedrinho estreou pelo Corinthians no dia 19 de março, contra a Ferroviária. No total, já disputou 14 jogos, sendo três deles como titular.

OLHEIROS DA EUROPA EM JOGOS DO CORINTHIANS
Tento me sentir o mais tranquilo possível. Não deixo as coisas de fora entrar em campo. Isso pode atrapalhar também. Empolgação sempre pode atrapalhar. Tento deixar isso fora das quatro linhas e me concentrar ao máximo. Lógico que fico feliz que estou sendo visto, observado por clubes grandes. Mas minha cabeça está aqui.

Quando eu entro, o Jô fala para não inventar e querer fazer a mais. Sempre me dá conselhos e fala que a minha hora vai chegar."

Daniel Augusto Jr. / Ag. Corinthians
Pedrinho ressaltou a importância de Jô no processo de adaptação ao time profissional

AJUDA DOS AMIGOS
O Eldder me ajuda muito. Converso muito com ele, sobre tudo. Ele me tranquiliza e fala que tudo tem a hora certa. Eu ajudo ele da mesma forma. A gente fica ansioso e tenta passar por isso. O Jô é um cara experiente no futebol. Quando eu entro, ele fala para eu fazer o simples. Fala para não inventar e querer fazer a mais. Sempre me dá conselhos e fala que a minha hora vai chegar. Tento escutar ao máximo. Ele sabe como acontece.

N.R: Pedrinho mora com dois colegas em um apartamento do bairro do Tatuapé: São eles: o atacante Zé Gabriel (também campeão da Copinha deste ano) e Eldder (lateral direito que subiu para o sub-20 e fez um dos gols na final da Copa do Brasil Sub-17 do ano passado).

JOVEM COM RESPONSABILIDADE
Tenho responsabilidades desde os 13 anos. Eu morava sozinho e isso me ajudou a ficar tranquilo hoje. Sempre tive de arrumar minhas coisas sozinho. Hoje, aos 19 anos, num time como o Corinthians, ela é maior ainda. Entrar e ajudar o time de alguma forma é algo muito grande. Eu tento lidar com isso de forma natural.

BOTAFOGO FOI DIVISOR DE ÁGUAS
Independentemente do tempo que temos em campo, tem de aproveitar. Pode ser cinco, 15 ou 20. Tem de estar preparado. Saber que eu posso ajudar de alguma forma. Depois daquilo aumentou a confiança.

N.R: Pedrinho construiu toda a jogada do gol marcado por Jô contra o Botafogo no último dia 2. O jovem jogador entrou em campo e deu um chapéu duplo, invadiu a área e cruzou para o atacante.

IMPORTÂNCIA DE OSMAR LOSS
O Osmar é um grande técnico. Desde a base ele me mostrou o caminho certo junto com o Coelho. São dois caras fantásticos. O Osmar foi o maior fator para eu te me acostumado rápido. Ele conversa com a gente, fala com a molecada. O pessoal brinca que ele é o pai da molecada. Ele mostra os erros para a gente aprender.

Daniel Augusto Jr. / Ag. Corinthians
O meia-atacante foi alvo de um trote logo que começou a treinar entre os profissionais

 

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