No Atlético-PR, técnicos são os últimos a decidirem escalação da equipe

Napoleão de Almeida

Colaboração para o UOL

  • Marco Oliveira/Divulgação

    Fabiano Soares substituiu Eduardo Baptista, que bateu de frente com gestores do clube

    Fabiano Soares substituiu Eduardo Baptista, que bateu de frente com gestores do clube

Nas entrelinhas, o recado do técnico Fabiano Soares sobre a crise no Atlético Paranaense, em entrevista coletiva após a eliminação na Copa do Brasil para o Grêmio, usando um time quase todo reserva: "A equipe que entrou, foi a equipe que estava 100%. Os que não jogaram tinham problemas burocráticos ou físicos". O time ainda não havia vencido com ele, contratado para, na avaliação dos dirigentes do clube, dirigir o time como o clube quer.

A burocracia citada por Soares era referente à negociação de Otávio com o Bordeaux, da França. Sobre a parte física, entra o gerenciamento do futebol do clube a partir de duas premissas incontestáveis dentro do CT do Caju: as estatísticas técnicas e físicas geridas pelo DIF (Departamento de Inteligência do Futebol) e pela EXOS, empresa americana que cuida da preparação física do clube.

Não há técnico ou quaisquer jogadores que possam contestar essas premissas: se o DIF ou a EXOS determinam uma ação, o profissional do clube deve segui-la à risca, sob pena de ser desligado. Com nove jogos sem vitórias entre Brasileirão, Libertadores e Copa do Brasil – da qual foi eliminado pelo Grêmio – o time se aproximou perigosamente da zona de rebaixamento e só quebrou o jejum no Rio, contra o Vasco. Fabiano Soares, às vésperas do jogo com o Avaí, comentou: "Eu preciso de um informe da fisiologia para confirmar quem pode jogar amanhã".

O UOL Esporte conversou com três personagens que estão ligados ao futebol do clube na temporada. Com medo de represálias, dois deles pediram para não serem identificados ao abrirem a caixa preta do clube.

Os índices da EXOS e a obrigação de poupar jogadores

HEULER ANDREY/AFP
Grafite comentou sobre a influência da EXOS na escalação do Atlético

"A todo momento eles querem poupar jogadores", contou um dos entrevistados pela reportagem. Dentro do padrão de trabalho da EXOS, se um atleta apresenta índices fisiológicos, tem que estar fora do jogo. Dificilmente um jogador faz mais que dois ou três partidas seguidas, exceção ao goleiro.

A empresa manda na parte física. Não há nenhum tipo de diálogo com o treinador: a ordem é para que determinado atleta seja poupado – e precisa ser cumprida. "A EXOS tira jogador do treino na véspera de jogo importante", relatou um dos entrevistados pela reportagem. O resultado mais imediato é que o time não tem o mesmo ritmo dos concorrentes no Brasileirão e acaba perdendo em entrosamento.

"Alguns jogadores começaram a sentir que não estavam conseguindo acompanhar outros clubes na evolução física. Quando começou a fase grupos da Libertadores, tinham jogadores com 8, 9 jogos na temporada, e o Flamengo tinha com 17, 20 jogos na temporada. Isso às vezes para ter ritmo de jogo é complicado, esse revezamento", contou o atacante Grafite, que teve alguns problemas físicos antes de deixar o clube. "Para mim, para o Paulo André, para os mais experientes, foi bom. Mas para o começo do Brasileiro a gente não estava no mesmo ritmo de jogo das outras equipes."

Dos 20 pontos conquistados pelo Furacão no Brasileiro, 15 foram conquistados com Eduardo Baptista no comando técnico. Ele foi demitido por "não entender o projeto do clube", nas palavras dos dirigentes. Um dos entrevistados relatou que Baptista bateu de frente com a EXOS para levar jogadores para as viagens para Minas Gerais e Goiás, nos jogos contra os Atléticos locais, que deram ao Furacão as duas primeiras vitórias no Brasileirão. Ali houve o primeiro rompimento com o ex-treinador. "Feriu as pessoas que fazem o planejamento. O treinador não tem autonomia. Ele dá o treino e pronto", contou um dos ouvidos pela reportagem.

A força do DIF na escalação

Ivan Alvarado/Reuters
Jonathan, Eduardo da Silva e Coutinho: Atlético tem diretrizes de sistema de jogo

Comandado por William Thomas, o Departamento de Informações no Futebol (DIF, que foi chamado de Departamento de Inteligência) tem gerência total nas contratações do clube. O futebol é pensado a partir do DIF. Thomas, homem de confiança do presidente licenciado do Conselho Deliberativo Mario Petraglia, é formado em gestão de performance esportiva na Inglaterra e passou pelo Arsenal como estagiário. Trabalhou no Corinthians Alagoano e no Guarani paraguaio até chegar ao Atlético. Desde 2013 idealiza o modelo de jogo do clube.

"Os caras ficam numa sala, não vão a campo em nenhum momento, não conversam com o pessoal da comissão técnica. Ficam com 5 câmeras de TV vendo o jogo. Quando falam de um atleta, parece que é o Pelé", contou um entrevistado que pediu sigilo com medo de ser multado ou demitido. O elenco é montado a partir da ideia desse esquema e modelo de jogo. Perde-se ou ganha-se com o que está no CT. Falar em reforços, como Baptista fez na saída de Grafite, ou mesmo Soares na chegada de Ribamar, é considerado um crime.

"O sistema de jogo que a equipe joga é um pouco complicado, eles não jogam em função de um centroavante. É o estilo que a equipe joga, foi a melhor defesa no ano passado, mas desde o ano passado não marcava muitos gols", conta Grafite, que foi só elogios ao clube: "Estrutura maravilhosa, mas dentro do futebol acontece isso." A saída do atacante praticamente coincidiu com a do ex-técnico Baptista, que teve como terceiro e derradeiro erro (na visão dos gestores do clube), mudar o esquema tático do 4-2-3-1 para o 4-1-4-1, protegendo mais a defesa.

"O Eduardo ficou pouco tempo, dois meses, tentou mudar algumas coisas, um time compacto por que o time tomava muitos gols. A saída foi um susto. Ele vinha compactando a equipe para readquirir a confiança, tanto no meio quanto ofensivamente", comentou Grafite.

Com Baptista, o Atlético conseguiu as primeiras 4 vitórias no Brasileirão e sofreu 7 gols em 10 jogos no 4-1-4-1. Depois de uma discussão ríspida com um dos gestores, o técnico atuou contra o Grêmio no 4-2-3-1, e foi goleado por 4 a 0, ficando virtualmente eliminado da Copa do Brasil. Perdeu para o Santos na Libertadores na Vila Capanema por conta da Liga Mundial de Vôlei, o que caiu mal no elenco, e foi a Chapecó, refazendo o esquema de sua preferência pessoal. Ali, encerrou sua passagem no clube abrindo caminho para Fabiano Soares, o técnico escolhido para conduzir o futebol na sintonia do clube. Com ele o time só venceu uma partida.

"Não tem peças, querem vanguarda, mas não olham a realidade. Aí agora o Fabiano (Soares, técnico) tem que dar a cara lá", comentou um dos entrevistados. Dentro do clube há um consenso de que o elenco deste ano é melhor que o de 2016 e que ainda pode reagir. "São arrogantes, vivem num mundo à parte", comentou a mesma fonte, que ainda relatou problemas de indisciplina com Carlos Alberto, Felipe Gedoz e até o jovem João Pedro, hoje emprestado ao Paraná Clube.

Mesmo assim, questionado sobre dois pontos chave em crises de clubes de futebol, garantiu: "Quem ficou no grupo é bom, não há panelinhas. E os salários estão rigorosamente em dia." Depois de vencer o Vasco fora de casa, a missão agora é voltar a fazer da Arena da Baixada um Caldeirão: foram 2 vitórias, 2 empates e 4 derrotas no terreno em que em 2016 foi praticamente imbatível.

ATLÉTICO PARANAENSE X AVAÍ

Data: 03 de agosto de 2017, quinta-feira
Horário: 19h30 (de Brasília)
Motivo: 17ª rodada do Campeonato Brasileiro
Local: Arena da Baixada, em Curitiba (PR)

Árbitro: Leandro Bizzio Marinho (CBF/SP)
Assistentes: Miguel Cataneo Ribeiro da Costa e Gustavo Rodrigues de Oliveira (SP)

ATLÉTICO-PR:

Weverton; Cascardo (Jonathan), Paulo André, Wanderson (Thiago Heleno) e Sidcley; Esteban Pavez, Rossetto e Lucho González; Nikão, Pablo e Ribamar.
Técnico: Fabiano Soares.

AVAÍ:

Douglas; Leandro Silva, Alemão, Betão e Capa; Judson, Luan, Simião e Pedro Castro; Junior Dutra e Joel.
Técnico: Claudinei Oliveira.
 

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