Prancheta x tablet? Distantes em 21 anos, Levir e Carille perseguem título

Dassler Marques e Samir Carvalho

Do UOL, em São Paulo e em Santos

  • Arte UOL

    Duelo no domingo: Santos de Levir x Corinthians de Carille. Clássico opõe estilos

    Duelo no domingo: Santos de Levir x Corinthians de Carille. Clássico opõe estilos

Há muitas maneiras de se alcançar êxito no futebol e os treinadores de Santos e Corinthians são provas vivas dessa máxima. De escolas diferentes e separados por 21 anos, o santista Levir Culpi e o corintiano Fábio Carille se encontram na Vila Belmiro para opor estilos, lideranças e conceitos, o que, claro, também está ligado às personalidades.

Próximo de obter a graduação mais alta dos cursos de treinadores da CBF, Carille, 43 anos, não hesita em levar uma linguagem mais técnica para algumas entrevistas e conversas com atletas, ainda que seja um sujeito simples e discreto. Levir com 64 anos, ignora os discursos táticos e, inclusive, se recusa a falar em números, como 4-1-4-1, 4-2-3-1.

Visões opostas sobre futebol e o dia a dia

O período de treinamento é sagrado para Fábio Carille e seus auxiliares. Eles planejam a programação semanal de maneira minuciosa e visam sempre o grupo inteiro de atletas. Uma das máximas é que titulares e reservas merecem a mesma atenção, o que resulta em muitas atividades com jogadores misturados. Outra característica importante é o trabalho com defensores, sempre trabalhado à exaustão para padronizar comportamentos. 

Levir, por sua vez, tem apostado muito na "conversa". O treinador evita tantos trabalhos táticos e prioriza atividades pontuais para corrigir falhas. É adepto de muitos treinamentos coletivos, e gosta de mesclar também técnico e físico em campo reduzido. Nessas atividades, executa muitos cruzamentos, chutes a gol e opõe jogadores de ataque contra defesa. 

Dentro de campo, Levir e Carille jogam no mesmo esquema tático: 4-2-3-1. No entanto, há diferenças nas estratégias de jogo. O treinador corintiano prioriza passes curtos, aproximação e quer ter o time sempre compacto. O comandante santista aposta muito nas bolas longas, a chamada "ligação direta" entre a defesa e o ataque. Uma das marcas de seu time é a velocidade dos atacantes no contragolpe. 

Levir, à moda antiga, evita termos atualmente mais usados no futebol, como "marcação alta", por exemplo. Ele costuma dizer que o futebol tem apenas duas estratégias: atacar e defender. Em relação à marcação, Levir aposta em encaixes individuais [lateral marca ponta e ponta marca lateral, etc]. Os métodos também são bem distintos ao do antecessor Dorival Júnior, adepto da defesa por zona. 

Carille gosta de preservar atletas. Levir já deu suas broncas

Daniel Augusto Jr. / Ag. Corinthians

Com menos de um mês no cargo, Levir realizou a primeira grande reunião interna com os jogadores para ajustar pequenos problemas. Um deles era o comportamento de Lucas Lima, que chiou ao ser substituído por Vecchio no fim da vitória santista contra o Atlético-PR, em 5 de julho, pela Copa Libertadores. Reservadamente, Levir pediu para ele imaginar como seria se o treinador esbravejasse e atirasse o copo d'água ao chão, como Lucas fez. O meia tem feito bons jogos desde então.  

Levir não esconde a relação sincera com jogadores nem mesmo para a imprensa. Depois da vitória por 3 a 0 contra o Bahia, surpreendeu ao falar de Bruno Henrique, autor dos três gols da equipe. "Ele foi decisivo, mas foi um dos piores em campo. É um cara que pode vir a ser um dos melhores atacantes do futebol brasileiro, mas precisa aprender algumas coisas", explicou na ocasião - a repercussão interna foi positiva, e mostrou desejo de evolução. 

Fábio Carille, por outro lado, adota uma postura mais reservada em relação ao vestiário, uma característica comum aos treinadores de gerações recentes. Em nove meses de trabalho, não colecionou episódios de indisciplina e nenhuma reclamação por reserva, por exemplo. A única crítica partiu de Cristian, ainda em 2016, quando era interino. O volante foi afastado pela diretoria neste ano, uma decisão que teve o aval do treinador.  

Curiosamente, alguns dos principais aliados de Carille estão no banco de reservas. O volante Fellipe Bastos, com duas partidas no Brasileirão, é um dos grandes líderes do elenco campeão paulista. O turco Kazim, que não tem ido bem quando acionado, diz compreender a posição em relação ao titular Jô. Nem ele, nem ninguém, costuma de ser alvo de comentários negativos do chefe. Ele admite algumas atuações ruins, eventualmente, mas sempre procura minimizar, ressaltar aspectos positivos e oferecer novas chances. 

Vila conhece a cartilha; Carille lidera de outra forma

Thiago Ribeiro/AGIF

Levir tem um estilo disciplinador. Ele já reclamou, por exemplo, de atletas que voltam dos jogos do Santos em seus carros particulares e proibiu essa postura para os próximos jogos, o que obriga todos a retornar no ônibus da delegação. O treinador ainda externou publicamente a proibição a manifestações religiosas no CT Rei Pelé, lideradas pelo centroavante Ricardo Oliveira, um dos principais nomes do elenco e pastor evangélico.

Além de demonstrar autoridade perante os atletas, Levir limitou o trabalho da Santos TV nos vestiários. O treinador entende que as filmagens fazem parte do marketing do clube e que os torcedores gostam de acompanhar os bastidores. No entanto, pediu moderação e pretende reduzir o material produzido.

Essa não é, definitivamente, uma postura assumida por Carille. O treinador corintiano quase nunca impõe grandes regras no dia a dia e muitas vezes conta com a ajuda de outros membros para manter a ordem e o bom espírito de trabalho. A exemplo de Tite, que tinha no preparador Fábio Mahseredjian seu grande líder, Carille indicou o preparador Walmir Cruz, profissional com grande ascendência sobre os atletas e que auxilia em questões disciplinares do dia a dia. 

Outra característica é a proximidade aos jogadores mais importantes do grupo. Carille tem seu grupo de capitães [Cássio, Fagner, Balbuena, Rodriguinho, Jadson e Jô], que revezam a braçadeira e ajudam a manter os atletas mais novos nos eixos. Dentro do contexto de trabalho do dia a dia no Corinthians, as responsabilidades atribuídas aos treinadores são menores em relação a outros clubes, um conceito de trabalho estimulado por Fábio. 

Levir Culpi, vale frisar, conseguiu restabelecer a união dentro da comissão técnica, fragilizada nos tempos de Dorival. Ele é muito próximo aos auxiliares Serginho Chulapa e Elano, bastante valorizado dentro do clube e seu principal confidente. 

FICHA TÉCNICA

Santos x Corinthians

Data e horário: 10/09/2017, às 16h (de Brasília)
Local: Vila Belmiro, em Santos (SP)
Árbitro: Raphael Claus (SP)
Auxiliares: Alex Ang Ribeiro e Tatiane Sacilotti dos Santos Camargo (ambos SP)

Santos: Vanderlei, Victor Ferraz, Lucas Veríssimo, Gustavo Henrique e Zeca; Alison (Vecchio), Renato e Lucas Lima; Copete, Ricardo Oliveira (Nilmar) e Bruno Henrique. Treinador: Levir Culpi.

Corinthians: Cássio; Fagner, Balbuena, Pablo e Arana (Marciel); Gabriel e Maycon; Jadson, Rodriguinho e Romero; Jô. Treinador: Fábio Carille

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