Em 8 anos de Carille, Corinthians tem melhor defesa do Brasil pela 4ª vez

Dassler Marques

Do UOL, em São Paulo

  • Ale Cabral/AGIF

    Hoje técnico campeão, Carille treinava defensores do Corinthians como auxiliar

    Hoje técnico campeão, Carille treinava defensores do Corinthians como auxiliar

Ano sim, ano não. Em oito edições do Campeonato Brasileiro com o hoje treinador campeão Fábio Carille (quase sempre como auxiliar técnico), o Corinthians teve a melhor defesa do torneio em quatro: 2011, 2013, 2015 e, mais recentemente, 2017. No que se pode chamar de "era Carille", ninguém se defendeu melhor na Série A quanto as equipes corintianas. 

Formado por conceitos que passaram por Mano Menezes, Tite e Carille, esse jeito de se defender que é tão cultural no CT Joaquim Grava talvez seja o principal item do que se acostumou a intitular "DNA corintiano". Algo que treinadores como Adílson Batista, Cristóvão Borges e Oswaldo de Oliveira não mantiveram, mas foi resgatado em janeiro pelo ex-auxiliar efetivado e ajuda a explicar o ano para lá de exitoso da equipe, também campeã paulista. 

Mesmo em anos nos quais não teve exatamente a melhor defesa, o Corinthians também não ficou em situação ruim na lista. Em 2014, ano de Mano Menezes, foi o segundo melhor no ranking. Em 2010, com Mano, Adílson e Tite, ficou em terceiro. Em 2012, temporada de maior concentração e títulos da Copa Libertadores e Mundial, a quinta melhor retaguarda. O pior ano foi 2016, e mesmo assim os corintianos ficaram em sétimo time com menos gols sofridos. 

Com a ajuda do próprio Carille, o UOL Esporte explica abaixo os principais conceitos defensivos do Corinthians nessa construção:

Posicionamento corporal

Reprodução
Fagner e Pablo: atenção ao posicionamento corporal

Muitos dos itens descritos na matéria são trabalhados exaustivamente com a ajuda de vídeos e nos treinamentos, caso do posicionamento corporal. Na imagem acima, por exemplo, Fagner (círculo vermelho) aborda o palmeirense Dudu de lado, de maneira que protege a área e permite uma rápida reação para uma arrancada em direção à linha de fundo. Pablo (azul) se prepara para ficar em "posição de expectativa", como chama Carille. 

"Não adianta só posicionar os atletas corretamente se eles não estiverem em posição de expectativa. É joelho dobrado e pronto para correr para frente ou de lado. São detalhes importantíssimos, principalmente para a linha defensiva", explica o treinador. Quando os adversários se preparam para um contra-ataque, principalmente, é comum ver os quatro defensores corintianos alinhados e na chamada "posição de expectativa", que permite uma reação mais rápida. 

Bola "coberta" e "descoberta", o que fazer?

Com a palavra, o treinador do Corinthians. "Quando o jogador (adversário) está com a bola e ninguém está marcando, ele está 'descoberto'. Está 'sem pressão', então a linha defensiva começa a andar para trás porque o cara tem a possibilidade de (recorrer a uma) bola longa. Quando (o adversário) tem a bola e o marcador está perto, ele só pode jogar dos lados. Então continua de lado, na posição de expectativa e não corre para trás. Se ele driblou, se livrou do jogador, aí sim (corre para trás). Isso é questão de trabalho, de vídeo principalmente. Jogadores de Europa, de outras equipes, erram isso.  

Perde e pressiona

Esse era um lema exaustivamente repetido pela comissão de Tite e que também se manteve com a efetivação de Carille. Significa que, ao perder a bola no momento do ataque, os jogadores são treinados para rapidamente pressionar o adversário e recuperar. Esse movimento segue alguns critérios, como por exemplo o de que há um tempo para essa pressão, em torno de cinco segundos. Se o time não consegue rapidamente ter a bola de volta, se volta à defesa para proteger a meta. 

Compactação

É um elemento crucial para a equipe atacar e defender com os jogadores próximos uns dos outros, sobretudo para a execução do "perde e pressiona" descrito mais acima. Se os corintianos estiverem compactos - ou seja, reunidos perto da bola -, o adversário terá mais dificuldade de escapar desse momento de pressão. Esse movimento da compactação, que demanda de uma sincronia de movimentos de todos os atletas, também é fundamental quando o adversário ronda a área e o Corinthians de Carille tenta oferecer o mínimo de espaço. 

Quatro defensores na área

Arte/UOL

Ainda dentro da ideia de oferecer poucos espaços, já se tornou comum no Corinthians a presença dos jogadores de ataque em execução de tarefas defensivas. Desde Jorge Henrique, titular no primeiro título brasileiro, até Romero, que fez o mesmo papel no time do hepta. Se o adversário ataca pelas pontas, normalmente o lateral daquele lado se alinha mais próximo da área com os zagueiros, para diminuir o risco de infiltrações. Quem vai fechar aquele lado e tentar impedir o cruzamento é justamente o atacante. 

Recomposição rápida e dedicada

Esse termo, já muito difundido no meio do futebol, diz respeito ao período chamado transição defensiva, em que todos os jogadores recompõem para evitar a concessão de espaços ao rival. Esse trabalho começa ainda na contratação de atletas que sejam adequados a essa ideia de futebol, caso por exemplo de Clayson, único reforço do Brasileiro. 

"Eu levo para esses jogadores o comprometimento de todos em baixar para marcar. Se o Arana e o Fagner, principalmente, ajudam a fazer gol, por que Jadson, Romero e Jô, que são os mais ofensivos, não podem vir ajudar? O futebol é coletivo e você tem que implantar isso na cabeça deles", resume Carille. 

As "compensações"

Outro termo internamente muito popular entre jogadores e comissão técnica, a compensação nada mais é do que uma troca de posicionamentos entre dois ou mais atletas em uma situação defensiva - requer muito treinamento e conhecimento por parte de cada jogador.

Por exemplo: se um lateral avança até a linha de fundo e deixa espaços, o atacante que atua daquele mesmo lado volta rapidamente para fechar seu espaço. Ou se um zagueiro sai atrás de um adversário, aquele buraco pode ser preenchido por um dos volantes. Essas inversões permitem ter a defesa posicionada corretamente de forma mais rápida e evitar que os jogadores percorram grandes distâncias atrás de um mesmo rival. 

O calcanhar de Aquiles: a bola parada defensiva

Eficaz em grande parte das ações defensivas, o Corinthians de Carille só chamou a atenção negativamente pelo alto número de gols sofridos em jogadas de bola parada pelo alto. Dos 30 gols que o campeão brasileiro levou em 38 rodadas, nada menos que 11 foram com essa origem, sendo oito no returno do Brasileirão. O rival que melhor se aproveitou desse tipo de lance foi o Botafogo, que marcou com Brenner e Igor Rabello diante dos corintianos e venceu por 2 a 1.  

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