Topo

22 anos depois, Ricardo Pinto relembra barbárie em Flu x Atlético-PR de 96

Ricardo Pinto no gol do Atlético em 1996: risco de morte após briga em jogo contra o Flu - Reprodução
Ricardo Pinto no gol do Atlético em 1996: risco de morte após briga em jogo contra o Flu Imagem: Reprodução

Leo Burlá e Napoleão de Almeida

Do UOL, no Rio e em São Paulo

20/05/2018 04h00

Fluminense e Atlético Paranaense já tiveram muito em comum. Foi no Furacão que a dupla Washington e Assis assombrou o Brasil, ficando no caminho por um gol no Flamengo de Zico nas semifinais do Brasileiro 1983. Um ano depois, vestindo a camisa tricolor, o Casal 20 conseguiu o título que escapou por pouco. Os mascotes dos clubes são dois cartolinhas, a fidalguia entre os clubes sempre foi alta – Baixada e Laranjeiras eram casas parecidas em bairros similares. Tudo sem maiores traumas. Até 1996.

Naquele Brasileirão, ameaçado de rebaixamento, o Flu recebeu o Atlético de Paulo Rink e Oséas, que voava no campeonato. No gol atleticano, um ex-tricolor: Ricardo Pinto. O Atlético fez 3 a 2 e encaminhou a queda tricolor. Ricardo comemorou a vitória batendo no peito ao responder as ofensas da torcida da casa. O campo das Laranjeiras foi invadido, Ricardo agredido e ficou entre a vida e a morte. No dia de mais um confronto entre os rivais, neste domingo, às 19h, no Maracanã, o ex-camisa 1 relembrou ao UOL Esporte o dia mais dramático de sua vida.

“Nunca me preocupei em procurar culpados.  Se o cara que veio por trás e me deu a paulada tivesse vindo pela frente, teria sido diferente. Me atingiu covardemente, mas já é passado. Mas não ficou nada de negativo. Ficaram os inúmeros amigos que eu tenho até hoje, temos um grupo de WhatsApp com o Rangel, com o Alexandre Torres, o Dago. Tenho muitos amigos da época de Fluminense", contou Ricardo.

RPinto - Arquivo pessoal Ricardo Pinto - Arquivo pessoal Ricardo Pinto
Ricardo Pinto treinando nas Laranjeiras no final dos anos 80
Imagem: Arquivo pessoal Ricardo Pinto

O ex-goleiro dos dois times não voltou à casa do Flu. Atualmente vivendo no Espírito Santo, Ricardo não esconde uma ponta de mágoa com o clube que o revelou:

“Nunca mais pus os pés nas Laranjeiras. Alguns repórteres me procuraram, me convidaram, mas não é uma coisa que me agrade. Talvez não agrade também aos tricolores. Mas não sinto falta, apesar de ter passado uma grande parte da minha vida lá. Ficaram poucos vínculos com o Fluminense, apesar de ter sido o clube que me projetou, que me deu oportunidade no futebol. Fui campeão da Copa São Paulo em 1986, em 88 teve aquele campeonato que tinha decisão por pênaltis e eu fiquei até 93 jogando”.

Sem laços significativos com o Flu, Ricardo Pinto também não manteve um estreitos com a equipe que o abrigou e pela qual se tornou um dos maiores ídolos:

“Da mesma forma, tenho poucos vínculos com o Atlético. Tenho mais com os torcedores, por incrível que pareça”.

Sonho do título brasileiro interrompido

Ricardo Pinto comandava a terceira melhor defesa daquele turno classificatório, com 20 gols sofridos em 20 jogos – o que, ao lado do segundo melhor ataque, davam números impressionantes ao Atlético. Depois do duelo nas Laranjeiras, com Ivan Izzo no gol, o Furacão levou 8 gols em três jogos e se classificou em quarto lugar. Vieram os jogos de quartas de final contra o Atlético-MG: derrota por 3 a 1 no Mineirão e vitória por 1 a 0 em Curitiba.

“É complicado, não tem como prever o futuro. Mas eu estava muito bem, talvez na melhor fase da vida profissional. Eu lembro que em 91 eu estava muito bem, quase fui pra Seleção. O Nielsen (Elias, ex-preparador de goleiros) e o (ex-supervisor Américo) Faria me ligaram e falaram que se o Taffarel, o Acácio ou Zé Carlos não fossem para a Copa, eu iria. Eu estava muito motivado. E em 96 eu estava muito bem, a equipe toda muito bem. O Evaristo de Macedo era um técnico espetacular. Eu não tenho a pretensão de dizer que seria ou não melhor. Poderia ser diferente. Acho que o maior problema não foi eu ficar de fora, foi o abalo que o grupo teve. O pessoal sentiu bastante e reagiu um pouco tarde”, analisou.

Enquanto isso, o Fluminense amargava a primeira queda para a Série B, o que acabou não se concretizando. Na rodada final, os tricolores precisavam da ajuda de Atlético e Flamengo para escaparem da degola em campo. Em São Januário, o Fla perdeu para o Bahia, 1 a 0. E na velha Baixada (ainda não era a Arena), o Criciúma surpreendeu o Furacão de virada, 2 a 1.

“Eu lembro bem daquele jogo, foi o primeiro que eu fui depois da cirurgia. Eu estava bem debilitado ainda, duas semanas após eu ter saído do hospital. O estádio estava lotado, eu lembro bem a vibração quando aconteceu o episódio (da queda) com o Fluminense. Eu fui nesse jogo e eu, como profissional, meu sentimento foi o de tristeza por não estar jogando. Nada disso precisava ter acontecido. Eu podia estar lá dentro jogando, era isso que tinha que ter acontecido. Eu era um profissional de futebol e não me preocupava com o que acontecia com as outras equipes. Minha preocupação era o Atlético Paranaense naquele momento”, contou Ricardo.

Ao final do campeonato, denúncias de propina ao então diretor de árbitros da CBF, Ivens Mendes, atingiram diversos dirigentes do futebol brasileiro, entre eles Mario Celso Petraglia, do Atlético. A CBF anulou os rebaixamentos de Fluminense e Bragantino e manteve os dois clubes na elite para 1997. Puniu Petraglia, banindo o presidente atleticano do futebol. E aplicou oito de pontuação negativa ao Atlético para o início do Brasileiro de 1997. Já com o campeonato em andamento, nada ficou provado contra o cartola atleticano, que foi absolvido. O Atlético, entretanto, ficou sem os pontos (acabou a edição de 1997 em 12º lugar entre 26 times). E o Fluminense voltou a ser rebaixado em campo.

“Dei pouco valor a esse tipo de coisa naquela época. Lembro que o Fluminense foi até a terceira divisão e que depois subiram na canetada, e que queriam tirar o Atlético da primeira divisão. Mas o meu negócio era dentro de campo. Esse burocracia aí é tapetão. Nem vou falar nada porque posso até ser leviano, talvez possa falar bobagem. Houve tudo isso aí, que não me agradou muito, mas eu não tinha nem poder para mudar alguma coisa”, declarou ele.

Hoje profissional do Flu, Galileu Galilei Percovich – o uruguaio Léo, que estava no gol tricolor naquela trágica tarde nas Laranjeiras – lamenta a situação precária do clube que levou àquela briga.

“Só tínhamos a cara para dar à tapa, mas alguns preferiram esconder a cabeça. Aquela lembrança [da briga] foi a da consequência de uma soma de frustrações, de uma impotência que você materializa ao tentar levar o time adiante na cara e na coragem”, disse, em entrevista recente ao UOLclique para ler.

Campeão brasileiro na comissão técnica

A conquista do Brasileirão só chegou para Ricardo Pinto em 2001, mas já na comissão técnica. Ele deixou o Furacão em 1997 e jogou até 99, quando se aposentou no Joinville. Então, passou a trabalhar no corpo técnico atleticano.

“Eu trabalhei lá como treinador dos juniores em 99 e depois em 2001 fui campeão brasileiro como preparador de goleiros. Fiquei lá até 2003.” Hoje, está afastado do clube, que tem vários ex-jogadores entre seus profissionais. Tem bastante gente lá, inclusive o Cocito, que é um amigo meu. Mas eu acredito que, com essa diretoria seja difícil, mesmo porque não houve contato, não houve aproximação. Mas tudo bem, o Atlético é muito maior que tudo isso. Eu fico feliz em ver o Rogério Corrêa, o Rodriguinho, todos lá”, comentou.

R Pinto CAP - Reprodução/Facebook - Reprodução/Facebook
Ricardo Pinto e Julião "da Caveira": torcida reverencia goleiro em bandeirões
Imagem: Reprodução/Facebook

Ricardo Pinto deixou Curitiba e vive no Espirito Santo, mais próximo da mãe (o pai faleceu recentemente). É técnico de futebol, mas está sem emprego. “Hoje eu trabalho como treinador, tenho dois acessos em divisões inferiores de São Paulo. Tenho estudado bastante. O nosso futebol, ele parou no tempo, em velocidade, fundamento: passe, domínio, cabeceio... esse tipo de trato da bola. A gente parou um pouco e a Europa cresceu. Mas isso pode ser mudado.”

FLUMINENSE X ATLÉTICO-PR
Data e hora: 20/05/2018, domingo, às 19h (horário de Brasília)
Local: Maracanã, no Rio de Janeiro
Árbitro: Igor Junio Benevenuto de Oliveira (MG)  
Auxiliares: Felipe Alan Costa de Oliveira (MG) e Ricardo Junio de Souza (MG)
FLUMINENSE: Júlio César; Renato Chaves (Pablo Dyego), Gum e Luan Peres; Gilberto, Richard (Robinho), Jadson, Sornoza e Ayrton Lucas (Marlon); Marcos Jr. e Pedro.Técnico: Abel Braga

ATLÉTICO-PR: Santos; Zé Ivaldo, Pavez e Thiago Heleno; Matheus Rossetto, Camacho, Lucho González e Carleto; Guilherme, Pablo e Bergson. Técnico: Fernando Diniz.