Presidente do Paraná acusa ex-aliado de pressão nos bastidores após ruptura

Napoleão de Almeida

Colaboração para o UOL

  • Geraldo Bubniak/AI Paraná Clube

    Carlos Werner era aliado do presidente Leonardo Oliveira: rompimento e pressão de bastidores

    Carlos Werner era aliado do presidente Leonardo Oliveira: rompimento e pressão de bastidores

O Paraná Clube caminha sobre ovos no Brasileirão 2018. Dentro da zona de rebaixamento após seis rodadas, o Tricolor tem dificuldades em campo e, principalmente, fora dele. A ruptura do grupo que assumiu o clube em 2015 e colocou o time na Série A após 10 anos agora deixa o ambiente tenso na Vila Capanema. Em entrevista exclusiva ao UOL Esporte, o presidente Leonardo Oliveira relatou como tudo se deu e acusou o empresário Carlos Werner, investidor do clube, de minar o trabalho da atual diretoria em ano eleitoral.

"Ele, completamente rachado em relação ao clube, entrou em rota de colisão com os antigos gestores também. Eu nunca quis atacá-lo por que, apesar de tudo, ele foi um cara que ajudou o clube, botou 20 milhões, apesar das cagadas, permitiu que o clube continuasse", desabafou Oliveira, em meio a protestos da torcida organizada por conta da má fase em campo. O presidente relatou que a ruptura se deu após o gerente de futebol Rodrigo Pastana – indicado por Werner – vetar a ideia de o Paraná disputar o Estadual 2017 com o time Sub-17, que na época tinha gerenciamento do próprio empresário.

"Tem uma geração sub-17 que é campeã paranaense e o Carlos quis usar essa geração para ser a base do clube em 2017. Nesse momento, o Carlos bancava sozinho o clube, que não tinha receita. Ele contratou o Pastana e no final de 2016 a gente conseguiu uma sinalização pelo acordo trabalhista, mas não no modelo que a gente queria. Viramos o ano com isso, o Pastana assumiu, começamos a conversar. Foi montada uma estrutura, começaram a trabalhar, e dentro dessas duas semanas o Carlos diz, "o negócio é o seguinte, desse jeito não vai dar, tem que mandar ele embora", relatou Oliveira, sobre o momento da ruptura, já há mais de um ano.

"Não está querendo aceitar as diretrizes, não vai usar a base, não quero", teria dito Werner a Oliveira, segundo relato do presidente, que prosseguiu: "Chamo para conversar ele e o Tcheco (hoje no Coritiba) e digo que o Carlos pediu para mandar embora. O Tcheco chegou a dizer que ia sair. Foram cobrar o Carlos e o Carlos disse que ia dar um orçamento mínimo de 200 mil por mês para eles. Eles ficaram e começaram a montar o grupo". Era dezembro de 2016 e o site Globoesporte.com estampava a saída de Tcheco do clube: "Ideia de gestão não bate com a minha". Depois, Tcheco voltou atrás.

Sucesso do time fez investidor apertar pressão financeira

Apesar dos panos quentes, Werner teria voltado atrás na recomposição e avisado a diretoria que estava de saída. "Em janeiro o Carlos disse que não ia pagar, 'ele não honrou o compromisso que tinha comigo, falou que ia botar os meninos e não está botando', e o Pastana, 'ele quer que eu ponha uma geração Sub-17 no profissional, eu não vou queimar o meu nome, nós vamos cair'", relatou o presidente. Procurado pela reportagem, Pastana confirmou a história.

Oliveira então tentou novamente compor um acordo. "Sentei com o Carlos e perguntei: o que vamos fazer? (Invista) 250 mil no Paranaense e 400 no Brasileiro e gente toca. Conseguimos R$ 200 e 300 mil. E ali começou o racha, ele parou de colocar dinheiro e nós começamos a correr atrás de dinheiro. Fui negociar a TV do Paranaense, pegamos um valor ridículo para poder pagar o primeiro pagamento (400 mil pelo Campeonato). Negociei penhora, pegamos mais 600 mil, garantimos mais 3 meses", descreveu o presidente. Àquela altura, a Série B já começara.

"As coisas começaram a encaixar e o Carlos puto, porque imaginou que ia dar errado e íamos mandar o Pastana embora e chamar ele. Chegou em setembro, dia 7, tinha um jogo com o Goiás em Goiânia, e nós tínhamos umas quatro possibilidades de ganhar dinheiro. Tinha um dinheiro do Thiago Neves, mas um documento veio errado, travou no banco; entrou um bloqueio em outra, não fizemos... as quatro que tinham, não viraram", relatou o desespero.

"E jogávamos e ali tinha que pagar, segunda tinha que pagar, não tinha atrasado nada. Ali enforcou. Antes do jogo contra o Goiás eu liguei pro Aquilino (Romani, ex-presidente) e pedi 300 ml emprestados. Não conseguimos. Liguei pro Carlos de novo, não deu. Saio desesperado, próximo das quatro e pouco da tarde o financeiro liga: "tenho duas notícias, uma boa e uma ruim. Thiago Neves vai ficar pra 30 dias, porque o clube (Al Ittihad) lá está em férias", relembrou.

Mas a sorte de Oliveira iria mudar. "A boa é que a gerente do Bradesco disse que entrou um depósito de 300 mil dólares na nossa conta, pela transferência do Lima (atacante, ex-Santos) para o Al Hilal", ouviu o presidente, que comentou: "o Paraná nem tinha entrado na Justiça, estava no prazo, ninguém estava cobrando. Simplesmente foram honestos, foram lá e depositaram. Ali dava dois meses de folha, comemoramos muito. Ali chegaríamos a Outubro, pagava a folha, em novembro acabava o campeonato e aí ou estava brigando ou ferrado e não tinha muito o que fazer, ou entrava uma renda ou nada. E aí ganhamos a primeira fora de casa", vitória por 1 a 0 em Goiânia.

Então Werner reapareceu, de acordo com Oliveira. "Voltei pra casa, peguei minha família e fui passar dois dias num resort, de férias. Voltei e o Carlos me liga, me chama para uma reunião. Fui comer com ele no Kharina (uma lanchonete em Curitiba), ali do lado da Vila Capanema. Ele falou: "Manda o Pastana embora. Eu vou trazer meu pessoal, agora embalou, eu vou por dinheiro e nós vamos subir". E ali a gente rachou de vez, quase saímos na porrada. "Você traiu minha confiança", ele me disse, eu disse "não, os interesses do Paraná nunca vão ficar atrás dos seus." Como eu vou mandar o Pastana embora? Ali a gente rachou, de nem falar mais."

Werner reaparece e leva Paraná para a Arena da Baixada

Com dinheiro a receber do clube, Werner trocou o crédito pelo direito de levar o jogo entre Paraná e Internacional para o estádio do Atlético-PR. "O Carlos comprou esse jogo no início do ano, por volta de março, ele tinha uns mútuos com o clube e transformou essa dívida na compra desse jogo. Era uma ideia de diversificar e fazer alguma coisa. Nós tínhamos feito essa operação com o Atlético-MG com o Naor Malaquias e deu certo. Aí o Carlos procurou o clube e quis o jogo contra o Inter. (Ele pagou) 200 mil mais um restante de um mútuo, 400 mil".

Toda a negociação foi entre Carlos Werner e o presidente do conselho deliberativo do Atlético-PR, Mario Celso Petraglia. "O esquema do Petraglia era com o Carlos. Nós tentamos fazer o jogo com o Corinthians (na segunda rodada da Série A 2018) lá e ele colocou um milhão de empecilhos. O negócio era com o Carlos. O contrato dele com o Atlético não passou pela gente." No balanço do Atlético de 2017, não há nenhuma referência ao aluguel da Arena para esse jogo.

Oliveira disse que no Paraná circulava o seguinte acordo: "Aluguel em 100 mil, citado em borderô. Atlético tinha receita de bares, ficaram com um grande percentual, estacionamento, a receita toda do Atlético. R$ 250, 300 mil com o evento. Na operação enxertaram custos deles, na nossa estimativa tinham feito um bom dinheiro", o que fez com que o Paraná idealizasse jogar contra o Timão na Arena. Ainda sem fechar com um estádio maior, o clube acabou investindo cerca de R$ 200 mil em um campanha publicitária para aumentar o público da partida. Sem acordo com o Atlético e com uma recusa do Coritiba em alugar o Couto Pereira, Paraná e Corinthians jogaram mesmo na Vila Capanema aos olhos de 15.714 pagantes, que viram o Timão fazer 4 a 0 no Tricolor.

Amizade começou no futsal e incluiu negócios para Leonardo presidir o Paraná

Hoje com 37 anos, Leonardo Oliveira era corretor de seguros de saúde antes de presidir o Paraná. O salário, modesto, não se comparava aos seus hoje pares de cartolagem, habitualmente empresários já bem sucedidos em suas áreas. Oliveira conheceu Werner em 2011, quando acompanhavam os filhos nos treinos de futsal do Paraná. Werner, um empresário que trabalha principalmente com antenas repetidoras de sinal para operadoras de telefonia celular, logo viveria mais de perto a política do Paraná – e levaria Oliveira consigo. Era o embrião do grupo "Paranistas do Bem", que incluiu outros nomes.

"O futsal do clube tinha acabado, isso atrapalhava o desenvolvimento da base. Ele (Werner) tinha vínculo com a Vale Fértil (ex-patrocinadora) e se interessou, "precisamos conversar sobre o Paraná", me disse. Oliveira havia saído da Unimed e passou a prestar consultoria em seguros de saúde. Werner então contratou os serviços do hoje presidente do Paraná. "Ele fez uma proposta para que eu passasse a prestar serviços para empresa dele e eu passei a trabalhar para ele, se tornou meu maior cliente e passei a me dedicar só a esse contrato em 2014."

No mesmo período, o Paraná vivia uma grave crise financeira. "O clube vai fechar as portas", disse Oliveira, sobre o que mais se ouvia na Vila Capanema, "Quando entra 2015 a gente começa a fazer as reuniões. O João Kitéria (ex-diretor da torcida organizada Fúria) conheceu o Carlos e começa então o movimento. O Carlos nessa época começou a se inteirar bastante sobre o clube. E aí surge a ideia: vamos propor para o Rubens Bohlen (ex-presidente) para colocar os 4 milhões de reais e ele sair do clube. O Rubens não concordou, queria participar. Mas era uma questão de que não participassem as pessoas que colocaram dinheiro".

Com dívidas com os investidores, o Paraná se viu nas mãos do grupo. "O clube negou a renovação dos mútuos e teriam que executar o clube. Gerou um stress bem grande. Já que vamos romper e colocar no conselho para que esse grupo assuma e eles renunciem, buscou-se alguém para assumir o clube. E ninguém tinha coragem de fazer, por que era uma trolha gigantesca. Aí eu disse, "Tenho condições de assumir, mas não de abandonar minha vida e vir pra cá. E houve um acerto entre eu e o Carlos, por três anos de serviço pra mim, e assim foi feito. Fechamos o acordo e comecei a buscar pessoas para montar a chapa."

Geraldo Bubniak/AI Paraná Clube
Werner apresenta Fernando Diniz, hoje no Atlético-PR

Leonardo Oliveira assumiu a vice presidência financeira para administrar o dinheiro do grupo, enquanto Luiz Carlos Casagrande, o Casinha, se tornaria o presidente em um mandato-tampão. Casinha era funcionário de carreira do Paraná e foi nome de consenso à época. "E aí o grupo começa a ruir, porque na hora de colocar dinheiro muitos não colocaram. E o Carlos assumiu esse compromisso. Nesse momento, como a gente já estava muito próximo, eu acabo assumindo as decisões do clube. Era ele quem pagava tudo e eu assumia a gerência. O Vavá (Durval Lara Ribeiro, ex-diretor de futebol) vem pro futebol e no final de 2016 sai todo mundo. Foi bem traumático, a gente quase caiu", relembrou Oliveira.

Empresário dava as cartas até ruptura; presidente denuncia "mensalinho"

Reprodução
Oliveira (E) e Pastana: guerra política com Werner

Outra razão da ruptura foi o "Ato Trabalhista", conforme revelou o UOL Esporte na semana passada. "Um dia o Carlos ia parar de pôr dinheiro e o clube ia quebrar. Trabalhamos em caixa aberto com a justiça do trabalho. E começou a haver cobranças do próprio Carlos. Aí o Carlos resolve desistir do acordo para ficar com o Ninho da Gralha, feito em conselho, e pedem uma reavaliação e vai com ao advogado dele, Augusto Mafuz, para revogar o ato. E nisso o Juiz notifica que não ia fazer um acordo, pela falta de credibilidade do Paraná. Mas nos diz que ia fazer uma intervenção e, pela boa fé desta gestão, iam me colocar como interventor. Hoje é uma intervenção", contou, para detalhar:

"É uma penhora do CNPJ do clube. A justiça do trabalho passa a administrar o clube dentro dos termos. E nisso, como ele tinha desistido do acordo do Ninho da Gralha, o CT estava no nome do Paraná. E ele perdeu essa possibilidade. Aí ele despirocou de vez, as coisas ficaram terríveis entre eu e ele. Começou a me atacar, a atacar o Pastana, que é uma forma que ele encontrou de desestabilizar". Questionado pela reportagem sobre como isso se dá, Oliveira relatou que Werner tem trânsito livre entre setores da imprensa paranaense e da torcida organizada, mas não quis citar nomes.

"Hoje estão descobrindo quem é o Carlos, numa situação bem difícil para ele e para a sequência do clube. Quando eu trabalhava com ele, já pagava formadores de opinião em rádios, um outro que mexe com redes sociais do Paraná, uma quadrilhazinha que fica tentando conduzir a opinião pública. Isso tudo ele está usando contra mim e contra o Pastana", disparou.

Oliveira atribui todas as articulações a Werner, que tinha gerência sobre o próprio presidente até o rompimento entre ambos. "Ele mandava no clube. Eu fazia a gestão financeira e trabalhava para conseguir o Ato. No futebol eu pouco participava. O Hélcio (Alisk, ex-jogador) já era sócio do Carlos nos negócios que eles têm de futebol. A gente dividiu tarefas e eu fiquei fora do futebol. No final da última rodada de 16 eu estou na Kennedy, fazendo um churrasco, e aparece o Carlos com um cara, vão conhecer o clube. Entra, me vê e se assusta. Me apresenta por Pastana e me diz 'estamos conversando sobre a possibilidade de trazê-lo'. Ele já tinha conhecido toda a estrutura do clube", relatou Oliveira. Werner não esperava que Pastana não aceitasse suas diretrizes.

Procurado pela reportagem para comentar os fatos, Werner não quis dar entrevista para comentar as acusações do presidente do Paraná.

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