Odair dá receita de reconstrução do Inter: "olho no olho e verdade"

Marinho Saldanha

Do UOL, em Porto Alegre

  • Ricardo Duarte/Inter

    Odair Hellmann aposta em verdade e conversa olho no olho com os jogadores do Inter

    Odair Hellmann aposta em verdade e conversa olho no olho com os jogadores do Inter

De vice-campeão da Série B ao terceiro lugar na classificação do Brasileiro (antes da 18ª rodada), nos últimos 13 jogos, apenas uma derrota, 10 partidas de invencibilidade. A campanha recente do Internacional impressiona. E os segredos desta construção foram tratados pelo técnico Odair Hellmann, na segunda parte de sua entrevista exclusiva ao UOL Esporte.

O treinador explicou como foi o processo de arrancada do time, que na sua avaliação começou lá no início do ano, ainda sob desconfiança. Odair explicou a importância de D'Alessandro dentro e fora de campo, o tratamento olho no olho com elenco e a ideia sólida casada com as características de cada jogador que deixam o Colorado como postulante ao título.

O Inter voltou da Série B, teve um momento difícil e atingiu, aparentemente, seu melhor momento, qual segredo dessa construção?

A palavra está correta: construção. Desde o início do ano, quando todos se reuniram, houve a nossa efetivação, passamos a pensar na pré-temporada, nos treinos, no time, todos com o mesmo pensamento, pagando o preço para isso, começou a se consolidar o que acontece hoje. Pensar é uma coisa, executar é outra, e estamos fazendo o que pensamos junto com a direção, grupo de jogadores, todos sempre juntos. Quando se une um grupo de pessoas, essa junção no mesmo objetivo, com o mesmo pensamento, as coisas caminham na mesma direção. Conseguimos traduzir a teoria, o pensamento, para a parte prática, todos imbuídos no mesmo objetivo, e é legal de ver que hoje colhemos os frutos disso tudo.

Mas nem sempre foi assim. Houve uma oscilação no início do campeonato, dúvidas sobre o rendimento do time, críticas...

Superamos isso com tranquilidade, conhecimento e confiança do que estávamos fazendo aqui dentro. Percebendo em treinos e jogos que, mesmo com as derrotas, estávamos numa direção certa, se construía uma identidade e se confiássemos nisso, colheríamos o melhor ali na frente. O que eu falo é que tivemos equilíbrio nas derrotas. Quando foi ruim, e nunca jogamos para perder, tínhamos confiança que se continuássemos assim, agregássemos valor, e a direção agregou, conseguiu fazer isso com muito esforço, tudo caminharia para o lado positivo. Todos estes fatores somaram. Sabíamos, no momento de derrota, que se continuássemos caminhando, certamente encontraríamos o melhor.

Ricardo Duarte/Inter

E a direção foi importante ao não trocar o comando na instabilidade também...

Eu só tenho que agradecer à direção, ao presidente Marcelo Medeiros, ao Roberto Melo (vice de futebol), se for citar todos é muita gente, mas citando eles todos sabem a quem me refiro. Primeiro pela oportunidade de ter me efetivado, que muito me honra e orgulha, mas também no momento mais difícil pelo respaldo que me deram. Por confiar no meu trabalho, na comissão técnica, porque ninguém fez nada sozinho. Enxergaram, no momento de dificuldade, que tinha um trabalho ali, bem feito, e este respaldo fez toda diferença. Só tenho que agradecer em todos os momentos.

Nota-se no Inter, hoje, uma ideia de modelo de jogo bem definido. A construção disso ocorreu de que maneira?

No início, durante a pré-temporada, trabalhávamos com três times, e quando faltava gente juntávamos com a base. Para que todos tivessem oportunidade de trabalhar o conceito de jogo, as ideias como um todo. Todos foram aproveitados no Gauchão, e isso acelera o processo. O treinador coloca o jogador num contexto de trabalho tático, de treino. Não gosto de dar treinamentos em que algum jogador fique fora, todos precisam estar inseridos. Sobre ideia de jogo, tem muito a ver com a característica do jogador. Não adianta eu ter um sonho, um modelo, e não ter os jogadores com as características para executar. Construímos um modelo de jogo partindo de uma ideia, indo para o campo onde se solidificou. Os jogadores compraram a ideia, entenderam e essa junção gerou nosso rendimento.

Sempre que te perguntam sobre isso, você fala que o Inter trabalha jogo a jogo. Mas você acha que é o momento em que começa a perceber que de fato vai dar para brigar por algo grande no campeonato?

Nós estamos pensando jogo a jogo e faremos isso até o fim. Hoje está em aberto, muitos times estão disputando o Brasileiro. Todo profissional que trabalha no Inter, que joga, que é parte de comissão técnica, sabe o tamanho do clube, que disputou e ganhou vários títulos, que tem história e uma camisa pesada, uma torcida grandiosa. Sabemos dessa responsabilidade, sabíamos que precisávamos construir uma etapa, uma caminhada, que não seria da noite para o dia que tudo iria acontecer. O Inter viveu, nos últimos dois anos, os piores de sua história. E não seria com uma varinha de condão que da noite para o dia iria ser campeão da Libertadores, do Brasileiro, da Copa do Brasil. Vai ser, de novo, mas é uma construção. E é isso que estamos fazendo, com tranquilidade, trabalho... O campeonato está em aberto, muitos podem ser campeões, entre eles o Inter. É tudo teoria, e entre teoria e prática há muita coisa. Quem está melhor tem mais chance, mas todos os 20 são postulantes ao título. Até dezembro temos 21 jogos, são 63 pontos, é muito ponto e quem se considerar lá em cima hoje, certamente não vai conseguir se manter.

Um assunto recorrente entre os jogadores é a qualidade do grupo. A boa relação entre eles. O quanto isso importa no processo?

É muito importante. E é realmente um grupo muito bom, de pessoas excelentes, agradáveis, do bem, altamente profissionais, que conseguiu aquela química. Muitos são amigos fora daqui. E nem precisaria ser amigos fora, mas quando acontece é ainda melhor. Cria um ambiente positivo e é um dos meus pilares na condução do ambiente. Acredito muito nisso, onde as pessoas acreditam, pensam no bem, há positividade. Tenho que agradecer pelo comprometimento deles, em qualquer situação. O torcedor tem que saber que os jogadores estão comprometidos com o clube, com os treinos, e isso traz alegria no ambiente, assim que vamos para o campo para treinos e jogos.

Neste ponto, o quanto um jogador como o D'Alessandro é importante?

Ele me ajuda muito dentro e fora de campo. É um líder nato, líder técnico em campo, é de falar, de se expressar, um ídolo para o torcedor. Não é para qualquer desportista ficar 10 anos num mesmo clube, quando isso acontece é porque tem muita coisa boa. É o caso do D'Alessandro. Usufruímos de tudo isso. A comissão, conversando, falando quando não joga, participando com os companheiros... E dentro de campo com um passe de qualidade, visão, chute. A gente agradece muito o D'Alessandro, porque tem nos ajudado muito, concentrado dentro do contexto do time e do clube.

Ricardo Duarte/Inter

Quando você deixou de ser auxiliar e passou a ser técnico, chegou a temer um tratamento diferente de jogadores mais experientes. Desconfiança por não ter experiência como treinador...

Nunca tive essa preocupação. Estou há seis anos no profissional do Inter, desde 2013, sempre tive a mesma postura com eles (jogadores). E com os profissionais da comissão técnica também. Sempre a mesma coisa, tudo na hora certa. Tem a hora de brincar, tem a hora que é sério. Sem enganação, com transparência. Sim é sim, não é não. Jogador não gosta de meias palavras, tem que ser olho no olho, falar as palavras mesmo. Ele pode até não gostar do que vai ouvir, mas se ver que é verdade, ele confia, compra a ideia. Foi o que fiz desde que pisei aqui. Não mudei nada, continuo o mesmo profissional. Até porque não tem como mudar, ser quatro anos de uma forma, depois de outra. É que nem eu falo para o jogador, tem que treinar forte, porque não adianta treinar a 60 por hora e na hora do jogo querer estar a 100. Porque se você treinou a 60, vai jogar a 60, quem treina a 100, vai jogar a 100. Se correu no treino, corre no jogo, caso contrário, não. É como bom treinador. Tem muitos fatores. Bom treinador não é só profissional, bom de gestão, métodos. Tem que ser verdadeiro. Não pode ser bom treinador, mas mau caráter. Não existe.

Entrando na parte tática, você prefere o Inter no tripé de meio-campo, como tem atuado, ou com um meia atrás do centroavante?

Eu gosto daquele time que me dá a vitória. A variação nos deixa fazer isso. Usamos o tripé com vitória, a variação também. É importante treinar vários sistemas e adaptar por conta da característica do jogo. Podemos mudar a forma de jogar com sistema, com uma característica. Hoje o Inter tem bem claro uma forma de jogar em casa, propondo o jogo, outra fora de casa, um pouco mais recuada. Trabalhamos bem isso, os jogadores aceitaram a ideia, e às vezes você precisa mudar. Mas se treina no dia a dia fica fácil de compreender.

O D'Alessandro cabe mais jogando pelo centro ou pelo lado? Em qual das formações?

Pode jogar em qualquer sistema, em qualquer lugar. A questão é estratégia de jogo, o momento, o adversário, até o nosso time. D'Ale pode jogar por dentro atrás do atacante, pelo lado e fazer uma flutuação por dentro, e pode ser um dos caras do tripé. Porque normalmente se tem um tripé mais marcador, mas com ele se tem um time mais ofensivo, mais passador, mais técnico, com passe longo, enfiada. Pode fazer qualquer uma das funções.

Por fim, uma das principais, talvez a única crítica ainda recorrente na torcida é quanto a utilização dos jogadores da base. Qual seu plano para os jogadores mais jovens do Inter?

Eu sou oriundo da base, temos vários jogadores no grupo (ao todo são 10). O Iago é titular e era da base, o Dourado é titular. Acho que são momentos. Se fala muito em geração, e estamos passando por um momento de transformação no Inter. Passamos por isso também na base. Certamente daqui para frente vão surgir mais jogadores. Mas não podemos esmagar os jogadores jovens. Aconteceu isso em 2016, entraram muitos jogadores jovens, participando de um momento ruim do clube. O que aconteceu? Sobrou para eles, e hoje se tem um jogador como o Andrigo, que o clube apostava muito, com dificuldade no time, com as pessoas, porque participou de um momento ruim. Num momento de reconstrução, como o do Inter, certamente os mais experientes podem dar mais em uma derrota, em uma dificuldade, vão responder melhor. E o jovem tem que participar junto, no grupo, descendo para jogar na base, voltando par aca. Naturalmente seguem esta evolução.

FICHA TÉCNICA
FLUMINENSE X INTERNACIONAL

Data e hora: 13/08/2018 (Segunda-feira), às 20h (Brasília)
Local: estádio Maracanã, no Rio de Janeiro (RJ)
Transmissão na TV: Sportv e PPV
Árbitro: Savio Pereira Sampaio (DF)
Auxiliares: Daniel Henrique da Silva Andrade e Ciro Chaban Junqueira (Ambos do DF)
FLUMINENSE: Júlio César; Gilberto, Gum, Digão, Ayrton Lucas; Airton, Sornoza, Jadson; Júnior Dutra, Pedro e Marcos Junior.
Técnico: Marcelo Oliveira.
INTERNACIONAL: Marcelo Lomba; Fabiano, Rodrigo Moledo, Custa e Iago; Rodrigo Dourado, Edenílson, Patrick, Pottker e Nico López; Jonatan Alvez
Técnico: Odair Hellmann

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