Bolsonaro em festa é "contraditório à história do Palmeiras", diz Belluzzo

José Edgar de Matos

Do UOL, em São Paulo (SP)

  • Eduardo Carmim/Photo Premium/Folhapress

    Bolsonaro levantou o troféu e virou protagonista na festa pelo decacampeonato

    Bolsonaro levantou o troféu e virou protagonista na festa pelo decacampeonato

A presença do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) na festa pelo decacampeonato dividiu os palmeirenses. Quem se incomodou, especialmente nas redes sociais, acusa o político de se apropriar do momento de celebração dos jogadores e funcionários que comemoraram o título do Brasileirão. Alguns mais tradicionalistas, como o ex-presidente Luiz Gonzaga Belluzzo, vê a presença do vencedor das últimas eleições na celebração da Série A como uma contradição à própria história do Palmeiras.

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Para defender a sua tese, Belluzzo relembra uma fala do próprio Jair Bolsonaro. Há três anos, o hoje eleito democraticamente presidente do Brasil classificou refugiados como a "escória do mundo", abordando a chegada de imigrantes haitianos, bolivianos e sírios ao Brasil. O ex-mandatário palmeirense, que comandou o clube em 2009 e 2010, vê a própria história alviverde ofendida, devido à relação intrínseca do Palmeiras com os italianos. 

"Ele fez o que lhe cabia, procurou se aproveitar e se valer da situação. O problema é ter sido convidado pela CBF para participar como um protagonista. Não gostei nada disso. É uma festa da torcida; era um reforço de entidade, de reapropriação da marca. Fiquei realmente sentido como palmeirense. É imprópria, e não tem a ver com a forma democrática, diga-se, que Bolsonaro foi eleito. Só é extremamente contraditório à história do Palmeiras, entra em conflito com a história", afirmou, em entrevista exclusiva ao UOL Esporte.

Durante a conversa com a reportagem, Belluzzo procurou destacar em diversos momentos o fato de Bolsonaro ter vencido a "eleição democraticamente", embora não tenha escondido o incômodo com o "protagonismo" do presidente eleito na festa pela conquista da Série A. O político do PSL levantou o troféu, tirou fotos com os jogadores e visitou os vestiários antes do triunfo por 3 a 2 sobre o Vitória.

"Meu pai me contava do Campeonato Mundial de 1934, quando o [Benito] Mussolini fez questão de aparecer, estar no campo, fazer que a Itália ganhasse. Isso também me transportou para os anos 1950, daquela espécie de promiscuidade de promoção das lideranças políticas através do futebol. Lembro-me de 1970, de quando éramos '90 milhões em ação', e o Brasil vivendo em um regime ditatorial", recordou-se.

Leandro Miranda/UOL
Palmeirenses protestaram próximo ao estádio contra a presença de Bolsonaro

"Política e futebol são compatíveis, se misturam, mas neste momento do título tem que se preservar a pureza do sentimento que liga o torcedor ao clube. Não que se deva condenar o fato do presidente ir lá, mas fico preocupado com essas apropriações, como já fizeram muitas vezes. Digamos, por exemplo, na Olimpíada de Berlim [Nota da redação: Hitler quis comprovar a supremacia ariana nos Jogos] nos anos 1930, nos anos 1940 também. Isso servia como uma alavanca para impulsionar certas lideranças", contextualizou.

Este populismo, historicamente, jogou contra o Palmeiras na década de 1940. A origem com os imigrantes italianos se tornou alvo de repressão no meio da II Guerra Mundial. Em 1942, o governo Getúlio Vargas instituiu um decreto que proibia o uso de nomes relacionados ao Eixo (Itália, Alemanha e Japão) por parte de qualquer entidade. O Palestra Itália, portanto, precisava mudar nome, sob o risco de ser retirado do Campeonato Paulista em que era líder.

Em 19 de setembro de 1942, a diretoria se reuniu e definiu a alteração para Sociedade Esportiva Palmeiras. Na ata de mudança ficou imortalizada a frase "não nos querem Palestra, pois seremos Palmeiras e nascemos para ser campeões". Esta história da Arrancada Heroica é citada por Belluzzo também para reforçar o quanto a opinião de Bolsonaro, na sua visão, se contradiz com as origens do clube.

"Como podem alguns torcedores de hoje concordarem com algo que seja preconceituoso? Não sabem qual foi o preconceito que sofreram os antepassados? (...) Nasci em 1942 e aos três anos meu pai já me contava da mudança de nome. Tenho uma experiência pessoal de preconceito contra imigrantes: meu pai fez três concursos para juiz, mas só passou no último. Ele era considerado o 'italianinho'. Eu assisti isso, a prevalência deste peso contra os 'italianinhos'", reforça Belluzzo.

reprodução/Instagram
Bolsonaro posa com V. Luis e Felipe Melo no gramado do Allianz; presidente foi tietado

O ex-presidente tomou cuidado de apenas tratar da relação do Palmeiras com as opiniões de Bolsonaro. Amigo de Luiz Inácio Lula da Silva, o antigo dirigente palmeirense reclama do que classifica de reação 'binária', encontrada no dia a dia dos brasileiros durante o processo eleitoral que culminou na eleição do político palmeirense ao Planalto.

"As pessoas podem achar que estou tomando atitude política, mas estou tomando uma atitude de resguardo à tradição do clube. Não sou contra ele ir ao jogo, mas acho imprópria a celebração de quem não tem alguma ligação contra a conquista. Isso não dá para misturar. Se é contra um, não é necessariamente o outro. Sou amigo do Lula e fui assessor do Ulisses Guimarães, mas não tenho tradição binária. Convivi com muita gente, isso é regra da democracia", concluiu.

Bolsonaro recebeu convite do Palmeiras para assistir ao jogo da entrega da taça. No Allianz Parque, o presidente visitou o vestiário, conheceu jogadores e Luiz Felipe Scolari. O político ainda posou para foto com Leila Pereira, presidente da Crefisa, a patrocinadora palmeirense.

O presidente eleito permaneceu próximo da cúpula da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), como o futuro mandatário Rogério Caboclo. Bolsonaro esteve no gramado para distribuir as medalhas aos atletas e se tornou um dos protagonistas da festa ao até erguer o troféu do decacampeonato no gramado.

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