O drama do pai e filho no meio da briga em Goiás: "não volto mais"

Fábio de Mello Castanho e Felipe Pereira

Do UOL, em São Paulo

As veias da garganta pulsando denunciavam o coração acelerado pelo medo. Apavorado, Heitor Ferreira, 5 anos, estava no colo do pai. Ao redor dele uma horda com camisas do Goiás e do Vila Nova se digladiavam.

Balas de borracha zuniam, bombas de efeito moral pipocavam, e um torcedor desacordado era atingido por pauladas, socos e chutes. Impotente, Warley Ferreira, 39 anos, colocou o filho no colo e levantou os braços sinalizando que não desejava briga. O instinto de sobrevivência de Heitor também estava ativado. Ele imitou o gesto.

Reprodução Premiere/Sportv

"Na hora em que levantei a mão, o Heitor levantou automaticamente. Eu gritei para a polícia: aqui é família, aqui é família", disse Warley, explicando que caminhou para o lado em que a Polícia Militar estava.
Pai e filho fugiam da selvageria que tomou conta do Serra Dourada. Um torcedor foi internado com traumatismo craniano e os hospitais de Goiânia atenderam dezenas de feridos. Antes do jogo, um homem que vestia a camisa do Goiás e ia para a partida foi assassinado com um tiro na cabeça. 
 
Heitor entrou com jogadores do Goiás

Warley conta que não é de ir aos clássicos goianos. Resolveu ver o jogo da Série B, no sábado (24), somente porque o filho iria entrar em campo com os jogadores. O menino faz a escolinha do Goiás e acompanhou o lateral esquerdo Carlinhos.

"Queria que ele sentisse a emoção de um jogador. O Heitor está empolgado, treinando na escolinha do Goiás. Mas na hora que falaram que era contra o Vila, não achei muito bom. Mas como no jogo do (Campeonato) Goiano não teve confusão, achei que seria seguro. Infelizmente a gente não adivinha o amanhã."

"Sentia o meu filho agitado no colo, nervoso com medo. Ele só saiu do colo quando entrou no carro."
 
O pai diz que a selvageria começou na geral e não acreditava que fosse chegar às arquibancadas. Mas os brigões fugiram nesta direção. Quem não queria confusão, correu para o túnel porque a polícia chegava pelo outro lado. Warley preferiu ir ao encontro dos policiais e quando se aproximou, levantou as mãos.

"Fiz isso para a polícia ver que eu não era brigão. Minha preocupação era dar segurança para ele. Eu ficava tentando acalmar ele: 'Calma filho, calma', falava a toda hora. Nessa hora o pai pensa só filho."

Heitor não volta tão cedo ao estádio.

O susto passou e Heitor não dá sinais de que ficou impressionado com a briga. Ele dormiu bem durante a noite e no domingo brincou tranquilamente. Mas Warley já decidiu que enquanto o menino for pequeno, não voltará ao campo.

"Não volto para estádio com meu filho".

Ele pede mais segurança para as famílias poderem assistir aos jogos em paz. A imagem veiculada em rede nacional assustou parentes e amigos, que ligavam para saber se estavam bem. Por sorte, a mãe de Heitor é professora e cuidava da apresentação de sua turma na festa junina da escola. 

Warley cobra os organizadores afirmando que é responsabilidade deles garantir que as pessoas saíam ilesas de um estádio. Como não contou com este apoio, pegou o filho no colo assim que a briga começou e experimentou uma sensação extremamente desagradável.

"Sentia o Heitor agitado no colo, nervoso com medo. Ele só saiu do colo quando entrou no carro."

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