Outro lado do acesso: Como Inter se reconstruiu para voltar à elite

Marinho Saldanha

Do UOL, em Porto Alegre

  • Ricardo Duarte/Divulgação

    O Inter encerra a Série B no duelo contra o Guarani e passa por reconstrução

    O Inter encerra a Série B no duelo contra o Guarani e passa por reconstrução

A vitória simples no futebol representa um bom trabalho, na avaliação da maioria dos torcedores. O sucesso, na verdade, depende de muito mais do que a bola entrar ou não. Neste sábado (25), o Internacional encerra sua participação na Série B do Brasileiro às 17h30 (de Brasília) contra o Guarani. De volta à elite do futebol brasileiro, o Colorado se reconstruiu muito além de simplesmente ganhar ou perder.

"2017 é um ano para não ser repetido. Que o Inter não precise passar pelo que passou. Lugares, dificuldades, ambientes totalmente desconhecidos... É um ano para servir muito de aprendizado, mas para um lugar que não queremos voltar novamente", disse o vice de futebol, Roberto Melo, em entrevista exclusiva ao UOL Esporte.

O responsável pela principal pasta do clube recebeu a reportagem na sexta-feira, após o último treinamento do ano, e explicou passo a passo do processo de recomeço. Contratações, recolocação de jogadores não aproveitados, estruturação financeira, mudanças e quebras de comissão técnica. Por onde passou o caminho até o lugar de onde o Inter jamais deveria ter saído, como repetiram durante todo ano jogadores, dirigentes e principalmente torcedores.

O susto: dificuldades financeiras além do esperado

Ricardo Duarte/Inter

"Sabíamos da dificuldade que seria", assim Melo começa a explicar o processo de reconstrução do Inter. "Talvez não imaginássemos quanto. Talvez as pessoas não consigam imaginar quanto é difícil para um clube cujo lema é 'campeão de tudo' se deparar com a segunda divisão", completou.

Melo havia sido dirigente em 2014. No departamento de futebol ao lado do atual presidente, Marcelo Medeiros, deixou o Inter com jogadores de qualidade como Aránguiz, Nilmar e jovens prontos a entrar no time como William, Dourado, Valdívia, Alisson, um estádio reformado. Na volta, se deparou com um cenário totalmente diferente. "O clube estava numa situação muito difícil, mesmo tendo recebido adiantamento de R$ 60 milhões de verba de TV. E este ano não tivemos isso. Era para o clube estar em uma situação financeira melhor. Tinha atraso e dificuldades", revelou.

E o pior nem era a situação do caixa, mas o moral, o ambiente e o que viria pela frente. "Era um ambiente muito difícil. Tinha de reconstruir tudo. O departamento de futebol, sem alarde, com calma, tranquilidade, serenidade, convicção, precisava conseguir conquistar novamente a confiança do torcedor, que estava muito magoado. Nos últimos 15 anos, se acostumaram a ver o Inter vencendo. O rebaixamento foi um golpe muito duro", explicou.

A reconstrução: como formar o elenco

Ricardo Duarte/Inter

"Começamos, sem muitos recursos, montando um time competitivo. Sabendo de teria que propor o jogo, porque todos iriam querer vencer o Inter. Isso às vezes o torcedor ou a imprensa não entende. A dificuldade que é jogar a partida que é o jogo do campeonato para o adversário. Eles chegavam a 'zerar os cartões' pra enfrentar o Inter. Era o jogo para aparecer, transmitido no Brasil todo, e contra os outros não era assim. Mais uma dificuldade, nunca jogamos com espaço, sempre contra rivais muito fechados", contou Melo.

"Contratamos perto de 15 jogadores. Exceção ao Neris, que rescindiu seu contrato, os demais ainda estão no clube. A maioria é titular ou entra sempre no time. Então foram acertos, na maioria. E com pouco recurso. A venda de apenas um jogador, que foi o William, e uma venda subfaturada, porque foi feito com valor menor do que poderia por causa do contrato de só mais um ano. Ainda mais correndo risco, porque rejeitamos a primeira proposta, que era baixa, afastamos ele do grupo e corremos o risco do clube desistir. Teríamos tido o desgaste com o jogador, e não venderíamos. Mas, com muita habilidade, conseguimos aumentar a proposta do William. Com a metade deste valor formamos uma equipe inteira. A metade do recurso do William foi o que gastamos em 2017 com 15 jogadores. Sendo Cuesta, jogador de seleção argentina, Uendel, titular do Corinthians, Pottker, goleador do último Brasileiro.... Não era só contratar, tinha o poder de convencimento", salientou.

Em meio a isso, negativas pelo clube estar na Série B. "Ninguém disse explicitamente, mas houve dois ou três casos que os representantes e os jogadores pareceram não querer. Estavam no exterior e acabaram vindo e se destacando na Série A por outros clubes. Temos que entender. Sabemos da dificuldade que é a Série B, das condições. Quem veio foi pelo projeto, pela grandeza do Inter", opinou.

A ruptura: jogadores do rebaixamento 'sem clima'

"É uma reengenharia que se tem que fazer. Me perguntavam no começo do ano da mudança de fotografia, e eu não poderia dizer, mesmo fazendo gradualmente, que foi feito, não posso anunciar que vou fazer. Tem de valorizar e respeitar quem está aqui. E, na medida do possível, que se fosse bom para todos, ir fazendo. E fomos. Muitas vezes não é fácil, jogadores com contratos renovados, salários altos e não é qualquer clube que está disposto a arcar com esta despesa", afirmou. Foram mais de 20 jogadores desligados na formação do elenco.

Mudanças na comissão: um mal necessário

Ricardo Duarte/Inter

"É difícil. Não é como gostamos de trabalhar, mudar o comando técnico. Mas estamos aqui para avaliar e decidir o melhor para o clube. A escolha no início do ano pelo Zago e depois até o Guto, foram treinadores de ideias novas, jovens, modernos, com metodologias novas. O Zago, quando fizemos a troca, o principal motivo, apesar dos resultados não serem bons, e não eram bons, foi que ao longo do processo a gente foi enxergando que a metodologia de trabalho que foi conversada no início era diferente daquilo que estava sendo feito. Vínhamos conversando com ele sobre isso, entendíamos que os conceitos que ele tinha, que eram bons, mas que trazia da Europa, principalmente da Itália, precisavam ser adaptados ao futebol brasileiro, ao jogador, à cultura... Conversamos uma, duas, três vezes.... Para tentar convencer o técnico a mudar. Mas isso não foi possível, ele tinha as convicções dele e não podíamos forçar ele a mudar. Então entendemos que isso não ia fazer a gente alcançar o objetivo", revelou Melo.

"Fomos atras de um treinador com experiencia na Série B. Que conhecesse o campeonato, que soubesse jogar a Série B. Foi o Guto. Ele conhece todos os times, os jogadores... Isso facilitou demais na análise dos adversários e preparação dos times. O Guto cumpriu com seu objetivo, que demos para ele, que era nos trazer para Série A. Quando saiu o time estava com 63 pontos. Que é uma pontuação que nos traria para a Série A. Entendemos que nos últimos jogos ele não estava conseguindo tirar da equipe o que gostaria que se realizasse. Mesmo faltando apenas um ou dois pontos, a gente não podia correr o risco de chegar na última rodada precisando disso, seria uma pressão imensa. Fizemos de novo a mudança e acabou sendo acertada porque no jogo seguinte atingimos o acesso", acrescentou. "Não é o que gostamos, não é o nosso desejo fazer mudanças. Mas estamos aqui não só pra fazer o que gostamos, mas o que precisa ser feito", salientou.

Entre vaias e aplausos: A torcida do Inter

Ricardo Duarte/Inter

"Uma das coisas mais importantes para atingir nosso objetivo era atingir a tranquilidade. Sabíamos que a pressão externa era muito forte. Por incrível que pareça, num ano tão difícil, não tivemos nenhum caso de indisciplina no grupo. Todos comentam que o grupo é muito bom, e é. Com toda dificuldade, a torcida entendendo que tinha obrigação de ganhar todos os jogos, e não existe isso em lugar algum do mundo, ainda assim não tivemos problemas. Porque blindamos o vestiário. Não deixamos o externo influenciar. Foi fundamental a concentração dos atletas para que tivemos 11 vitórias em 13 jogos. Ter tranquilidade, mesmo apanhando bastante, sabendo que as críticas eram fortes mas não podiam nos abalar. Não desistimos, não fomos influenciados", disse.

"Eu acho que faltou, também na questão do torcedor, uma comunicação melhor do clube com seu torcedor e com a imprensa em geral. De manifestar a dificuldade que seria, que o clube passava por dificuldade financeira, que tinha que remontar o elenco e que seria complicado a Série B... O Inter deixou se criar publicamente a ideia que seria o time de Série A na Série B, e isso era suficiente. O mais importante foi a qualidade dos jogadores que contratamos e fazia parte do planejamento para 2018, quando não será necessário fazer isso de novo, toda reformulação que fizemos. Mas não era garantia que venceríamos os jogos. E deixamos se criar inconscientemente a ideia que seria fácil. Poderia ter sido diferente", completou.

A conquista: Acesso veio antecipadamente

"Para colocar numa frase o que eu senti quando conseguimos subir, como torcedor, dirigente, é uma missão cumprida. Tínhamos essa missão, não era fácil, apesar de muita gente achar que era. Mas acho que não sei quanto tempo serei dirigente do clube, não sei o que acontecerá no futuro. Se eu tinha uma missão a cumprir, talvez esta fosse a mais importante. Eu sinto realmente como ter cumprido essa missão, o objetivo alcançado, que minha parcela de contribuição para história do Internacional, tenho certeza, que consegui cumprir"

2018: O desafio da reconstrução continua

Ricardo Rimoli/AGIF

É um processo de reconstrução. Volto na questão da comunicação. Tem que ser comunicado aos nossos torcedores que o ano que vem não vai ser fácil. Também vamos passar por dificuldades, até maiores, orçamentárias e financeiras. Não tivemos receitas de televisão no tamanho do ano anterior. Então, não teremos recursos para fazer grandes investimentos. Não podemos errar. Não temos recursos para jogadores de alto grau de investimento. Temos que acertar nas contratações. O clube está se reconstruindo. Quando chegamos neste ano da Série B, colocamos muitos jogadores no principal que ali na frente poderão gerar recurso. Não era um realidade. Os jogadores que subiram nunca tinham jogado no principal. Nós fizemos diferente. O Valdívia de 2015 estava no profissional desde 2013. O Dourado vinha jogando desde o tempo do Fernandão (2012). É um processo. Estamos reconstruindo isso com o time B, reconstruindo o clube como um todo. O torcedor tem que entender isso e nos dar essa confiança. Participar e entender as dificuldades que estamos passando. Não vendemos nenhum outro jogador além do William. Isso impacta no orçamento do clube. O Inter ainda vai passar por este processo e precisamos deste crédito. Estamos trabalhando duro e sério para o Inter voltar a ser competitivo e disputar os principais títulos no ano que vem", salientou.

"Não podemos cometer os erros que já cometemos. Fazer contratações que onerem o clube. Temos um passivo, que poderíamos redirecionar par ao futebol, mas temos um passivo de anos atrás e precisamos pagar. Agora temos o retorno de mais de 20 jogadores e precisamos recolocar eles no mercado ou reaproveitar algum. É um recurso que sai, que talvez seja maior do que a folha da metade dos clubes brasileiro. Este ano não podemos cometer erros de contratar jogadores que demandem investimento alto, que onerem a folha em demasia, ainda mais por muitos anos. Temos que ter este cuidado. Aquela frase de dirigente que 'faz contratação de lotar aeroporto'. Eu prefiro contratação de lotar estádio, que nos dê resultado de campo, retorno. A contratação midiática não é nosso perfil e não vamos procurar fazer. Vamos contratar para suprir as carências da equipe e colocar o Inter em condições de disputar os títulos que merece", finalizou.
 

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