45 dias para esquecer. Como foi Cuca no comando do Grêmio

Marinho Saldanha

Do UOL, em Porto Alegre

  • Divulgação/Futebolgaucho.com

    Cuca enquanto técnico do Grêmio na temporada de 2004

    Cuca enquanto técnico do Grêmio na temporada de 2004

Hoje no comando do Palmeiras líder do Brasileiro e disputando vaga na semifinal da Copa do Brasil, Cuca já viveu momentos que certamente estão entre os piores de sua carreira no Grêmio. Adversário às 21h45 (de Brasília) nas quartas de final da competição, o treinador participou da campanha de 2004, que culminou com o rebaixamento tricolor para a Série B. Entre atrasos de pagamentos, atos de indisciplina e derrotas, sofreu em um ambiente difícil de ser corrigido. 
 
Ele foi o terceiro treinador da equipe naquela temporada. Adílson Baptista havia começado o ano, José Luiz Plein assumiu em junho e Cuca chegou em setembro. No dia 12, estreou contra o Paysandu e viu sua equipe empatar em 1 a 1. Foi o nono jogo sem vitória do Grêmio naquela competição. 
 
Ao todo foram 11 partidas no comando do time, sendo nove pelo Brasileiro e duas na Copa Sul-Americana. Apenas três vitórias, com um empate e sete derrotas. Por fim, 45 dias depois de assumir o time, pediu demissão com o Grêmio na lanterna.

Indisciplina e falta de pagamento

Não era fácil tentar gerir o Grêmio daquele ano. Atos de indisciplina se repetiam quase que diariamente. Enquanto Cuca era técnico, dois jogadores estavam afastados do grupo pela direção exatamente por cometerem excessos: Rico e Luciano Ratinho. Em seguida do afastamento, ainda antes de Cuca assumir o time, ambos foram - sem autorização - jogar uma pelada no Parque Marinha do Brasil. Multados, foram relegados ao grupo B da época e em uma partida da equipe que defendiam foram cobrados por torcedores. Ao fim do jogo, deixaram o gramado, foram até a arquibancada e trocaram socos com os aficionados. Já na gestão Cuca, em outubro, foram demitidos por justa causa. 
 
Estes atos de indisciplina foram apenas o começo. "Eu já vi muita coisa, mas como aconteceu naquele ano, nunca tinha visto", disse o atacante Claudio Pitbull ao jornal "Correio do Povo" no ano seguinte. "Havia muita impunidade, porque a direção não poderia cobrar. Até porque não pagavam o salário corretamente", completou ao mesmo periódico. 
 
Em crise financeira por conta do rompimento com a empresa ISL, o Grêmio sofria nos mínimos gastos. O clube chegou, por exemplo, a sofrer ameaça de corte de luz no Olímpico por conta de falta de pagamentos à CEEE (Companhia Estadual de Energia Elétrica). A folha de pagamento atrasava praticamente todos os meses e processos trabalhistas se repetiam. Sem pagar, o clube não tinha argumento para controlar o grupo. 
 

Números e time desorganizado

Com um ambiente tão ruim fora de campo, seria difícil esperar uma equipe coesa dentro dele. Mesmo com nomes que depois deram certo no futebol, como Felipe Mello, Christian e Anderson - que foi lançado por Cuca já no fim de sua passagem pelo Tricolor - o time foi ladeira abaixo. 
 
Depois da estreia contra o Paysandu, perdeu o primeiro Gre-Nal da Sul-Americana contra o Inter, perdeu para o São Caetano no Brasileiro, venceu o São Paulo, perdeu para o Coritiba, venceu o Criciúma, perdeu para o Fluminense, venceu o Colorado na Sul-Americana mas ficou fora da fase seguinte, foi derrotado pelo Figueirense e em seguida teve 10 dias para trabalhar e resolveu fazer uma intertemporada em Bento Gonçalves, na serra gaúcha. Não deu certo. Na volta perdeu para o Inter pelo Brasileiro e depois de perder para o Cruzeiro por 2 a 0, com o time em último no Brasileiro, Cuca pediu demissão. Antes mesmo de comunicar aos dirigentes, se demitiu ao vivo em entrevista coletiva. 
 
"Não tenho nada para falar. Vocês tmê que perguntar para eles (dirigentes). Pode dizer aí que eu entreguei o cargo", disparou apontando para os cartolas. "Quero que ele diga isso para mim, vamos aguardar", rebateu o vice de futebol na época, Hélio Dourado. A saída estava consumada com o time oscilando sempre entre o 22º e o 24º lugar na classificação.
 

O retiro que deu errado e o rótulo pós-demissão

Cuca tinha diagnosticado que o grupo gremista poderia ser recuperado. Bastava se afastar do foco de pressão da torcida e procurar o entendimento. Por isso, entre a partida contra o Figueirense e o clássico Gre-Nal, 10 dias poderiam ser aproveitados. O treinador solicitou à direção que todos fossem a Bento Gonçalves, na serra gaúcha, para realização de uma intertemporada. 
 
Mal sabia ele que lá o drama se repetiria. Em uma tarde, liberados do trabalho que havia ocorrido pela manhã, o volante Émerson e o zagueiro Capone foram a um shopping com objetivo de cortar o cabelo. Lá se disseram provocados por torcedores. Revidaram e brigaram a socos com os aficionados. Segundo Émerson relatou, um dos jovens teria um canivete. A polícia foi chamada e levou todos à delegacia. 
 
Enquanto a direção gremista acompanhou os atletas, o técnico foi até o local, próximo do hotel que servia de concentração. Com os olhos vidrados no chão, procurava o canivete que serviria de prova para seus comandados, que alegavam ter batido nos torcedores após sofrerem ameaças. Nada foi encontrado. 
 
Depois de sua saída, Cuca acabou rotulado pelos diretores gremistas. Diziam se tratar de um treinador com 'personalidade depressiva'. Só que os acontecimentos de 2004 não tiveram sua influência. Vítima de uma gestão catastrófica e de um grupo desunido, Cuca participou da queda, que foi confirmada no mês seguinte com Claudio Duarte no comando do time. 

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