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Acusado por tentar subornar juiz culpa cartola do Brasiliense; STJD analisa

Federação Amazonense de Futebol/Divulgação
Jogo Manaus x CSA (foto) teria sido alvo de tentativa de manipulação de resultado Imagem: Federação Amazonense de Futebol/Divulgação

Emanuel Colombari, Fábio de Mello Castanho e Vanderlei Lima

2018-05-18T11:00:00

18/05/2018 11h00

Duas pessoas ligadas ao Brasiliense tiveram seus nomes envolvidos em um caso de tentativa de manipulação de resultado em uma partida da primeira fase da Copa do Brasil de 2018 que está sendo investigado pelo STJD. Em um primeiro julgamento, na última sexta-feira, o auxiliar de fisioterapia Pedro Crema assumiu a tentativa e foi punido, mas no depoimento acusou o diretor de futebol da equipe Paulo Henrique Lorenzo de ter orientado a ação.

A tentativa ocorreu em 7 de fevereiro. Naquele dia, Manaus e CSA empataram em 2 a 2 na Arena da Amazônia, em jogo pela primeira fase da competição nacional. O jogo teve Vanderlei Soares de Macedo (DF) como árbitro principal. Mas o que o Brasiliense, eliminado um dia antes pelo Oeste-SP, tem a ver a com um jogo entre um time amazonense e um alagoano?

A origem do processo está ligada a um informe feito pelo árbitro à Confederação Brasileira de Futebol (CBF) um dia antes de apitar a partida. Vanderlei alega que foi abordado por Pedro Crema, identificado no processo como auxiliar de fisioterapeuta do Brasiliense, durante uma clínica de treinamento para árbitros no Distrito Federal. Na abordagem, Crema ofereceu o valor de R$ 20 mil para que o árbitro favorecesse a equipe do Manaus na partida.

Com o relato feito pelo árbitro, a CBF encaminhou o caso para o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD), que abriu um inquérito, no qual apenas o árbitro confirmou o ocorrido e juntou as mensagens trocadas com o auxiliar de fisioterapia.

Vale ressaltar que o Brasiliense não tinha nenhum interesse direto na partida – não estavam sequer na mesma chave. Além disso, o contato entre Crema e o árbitro foi possível depois que os dois se conheceram durante uma clínica de treinamentos para árbitro no Distrito Federal.

Ao final do inquérito, a Procuradoria denunciou Crema e mais seis pessoas nos artigos 241 (“dar ou prometer qualquer vantagem a árbitro ou auxiliar de arbitragem para que influa no resultado da partida, prova ou equivalente”) e 243-A (“atuar, de forma contrária à ética desportiva, com o fim de influenciar o resultado de partida, prova ou equivalente”) do Código Brasileiro de Justiça Desportiva (CBJD), e nos artigo 62 (“qualquer um que oferecer promessas ou ceder uma vantagem não justificada para um órgão da Fifa, um oficial de partida, um jogador ou para um oficial em nome próprio ou de terceiros em uma tentativa de incitá-lo a violar os regulamentos da Fifa receberá uma punição”) e 69 (“no caso de um jogador ou um oficial influenciarem de modo ilegal o resultado de uma partida (...), o clube ou associação na qual o jogador ou o oficial fazem parte poderá ser multado”) da Fifa na forma do artigo 183 do CBJD.

Além de Crema, foram denunciados: Lucas Torquato Guerra e Marconi de Souza Gonçalo, árbitros auxiliares do jogo; Ivan da Silva Guimarães, quarto árbitro; Raimundo Nonato da Silva, analista de campo; e Lázaro Dangelo Pinheiro, delegado da partida; e Giovanni Alves Silva, presidente do Manaus Futebol Clube.

No julgamento realizado na última sexta-feira, dia 11 de maio, a Quinta Comissão Disciplinar do STJD puniu apenas Pedro Crema com suspensão de 365 dias e multa de R$ 10 mil. Os demais denunciados foram excluídos do processo sem julgamento do mérito. Ainda cabe recurso sobre a decisão da comissão.

Crema diz que agiu a mando de dirigente

De acordo com o relato à Justiça, Vanderlei foi procurado por Pedro Crema no dia 5 de fevereiro, durante clínica de treinamento no DF, e ofereceu R$ 20 mil para que o Manaus fosse beneficiado na partida diante do CSA pela Copa do Brasil. Denunciado, Crema foi punido.

Procurado pela reportagem do UOL Esporte, o funcionário do Brasiliense na denúncia preferiu não falar. “Vou me afastar desse assunto até tudo se normalizar”, afirmou.

Mas o seu advogado, Renato Britto, apresentou ao tribunal a gravação de uma ligação entre seu cliente e Paulo Henrique Lorenzo, diretor de futebol do Brasiliense. O representante do fisioterapeuta alega que seu cliente agiu a mando de Lorenzo, como intermediário, para fazer a oferta ao árbitro. A gravação do telefonema foi anexada na defesa.

“O áudio em si não tem nenhuma revelação demais. A tese da nossa defesa foi baseada no fato de que o Pedro cometeu esse erro atendendo a uma ordem – considerando que o Pedro prestava serviço de estagiário para o Brasiliense. Ele foi pressionado por esse dirigente do Brasiliense a fazer a oferta. Esse áudio é um telefonema do Pedro para o Paulo”, explicou o advogado, por telefone, ao UOL Esporte. Na gravação, segundo ele, Crema pede orientações a Lorenzo.

O pedido de inquérito feito pela promotoria já foi recebido e acolhido por Ronaldo Piacente, presidente do pleno do STJD. A assessoria da entidade afirma que um auditor foi designado na quarta-feira para acompanhar o procedimento. Diante da condenação de Crema, a defesa tem até a próxima semana para apresentar recurso – e promete recorrer.

Inocentada, arbitragem se esquiva

O árbitro Vanderlei Soares de Macedo foi procurado pela reportagem. A orientação da Comissão Distrital de Árbitros de Futebol (CDAF), segundo ele, foi não falar sobre a questão. “O assunto já foi julgado pelo STJD. Agora, cabe ao Ministério Público continuar as investigações”, explicou.

O presidente da CDAF, Jofran Oliveira, também preferiu se esquivar a respeito.

“Com todo o respeito, eu prefiro não tocar neste assunto. É um assunto delicado, já foi lá para o Tribunal (STJD), então é um assunto que a comissão prefere não entrar no mérito nesse momento”, disse Jofran, indicando que as perguntas fossem respondidas pelo próprio Vanderlei.

“O que eu posso dizer é o seguinte: os assistentes estiveram lá no tribunal e foram excluídos do processo, porque eles não têm nada a ver com o assunto, segundo o que me passaram. O Vanderlei denunciou mesmo, mas os assistentes - segundo o que me informaram - nem sabiam das coisas que estavam acontecendo exatamente”, completou.

Sobre Lucas Torquato Guerra e Marconi de Souza Gonçalo, os auxiliares do jogo, Jofran também adotou postura defensiva. “A informação que eu tenho é que eles foram excluídos do processo, então eu não tenho motivo para afastar ninguém, porque eles fizeram o trabalho deles corretamente”, disse o dirigente.

Emanuel Mendes/Manaus FC
Árbitro Vanderlei Soares de Macedo se esquivou a respeito do assunto Imagem: Emanuel Mendes/Manaus FC

Brasiliense silencia, Manaus se defende e CSA lamenta

Diante da publicação das acusações, o Brasiliense se fechou. Luiza Estevão de Oliveira, que também ocupa o cargo de diretora de futebol do clube, não quis comentar o caso. Paulo Henrique Lorenzo também foi procurado, mas disse não ter nada a declarar.

Em matéria publicada na quarta-feira pelo site do jornal "Correio Braziliense", o dirigente disse só soube do caso ao ser procurado pela imprensa. “Não conheço ninguém do Manaus e não faço ideia por que o Pedro Crema citou meu nome”, declarou à publicação.

Manaus e CSA também foram procurados para comentar as denúncias. Giovanni Silva, presidente do clube amazonense, disse que sua equipe foi excluída da denúncia “por absoluta falta de provas”.

O CSA, por sua vez, lamentou o ocorrido na partida, “na qual fomos vítimas de uma tentativa de manipulação de resultado”. Com o empate fora de casa no confronto em jogo único, os alagoanos avançaram para a segunda fase da competição, etapa em que foram eliminados pelo São Paulo.

“Graças a nossa competência alcançamos a classificação no jogo em questão, mas não podemos deixar de demonstrar nossa indignação com esse tipo de situação no futebol brasileiro”, justificou a direção do clube em nota. “Esperamos que a justiça seja feita e cumprida neste e em outros casos que sujem a imagem do esporte, bem como que isso jamais volte a acontecer em partidas do CSA ou de qualquer outro time”, completou.

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