Sem treino e salvo pelo exército. Rival do Grêmio chega no dia do jogo

Jeremias Wernek

Do UOL, em Porto Alegre

  • Reprodução

    Técnico perdeu um treino e teve que fazer reunião com time em hotel na Bolívia

    Técnico perdeu um treino e teve que fazer reunião com time em hotel na Bolívia

O Barcelona-EQU já tinha uma missão difícil diante do Grêmio, na semifinal da Libertadores, mas viu o cenário ficar ainda pior. Depois de quase 48 h preso na Bolívia, o time ficou sem treinar por um dia, perdeu horas de descanso e conviveu por mais tempo do que gostaria com a incerteza sobre a chegada ao Brasil. Com apoio do exército do Equador, pisou em solo verde e amarelo horas antes de a bola rolar, nesta quarta-feira (1), em Porto Alegre.

A viagem teve de tudo. Time preso dentro do avião, uniforme retido, reunião nos corredores de um hotel de Santa Cruz de la Sierra e até pedido de ajuda às Forças Armadas do Equador.

Foi em um avião do exército andino que parte da delegação chegou ao Brasil para tentar reverter o 3 a 0 a favor do Grêmio. Apenas 35 pessoas conseguiram completar a viagem. Os demais, por falta de espaço na aeronave militar, dependem de voos comerciais.

A história começa com uma logística montada para dar conforto. Depois de três visitas ao Brasil, em que pegou Botafogo, Palmeiras e Santos com voo de carreira, o Barcelona-EQU resolveu investir e viajar com avião fretado. A ideia era dar mais tempo para o time treinar, se adaptar a cidade onde só uma atuação histórica salvará.

O clube mais popular do Equador contratou a Global Air, uma empresa mexicana, para gerir tripulação de bordo e plano de voo. E os problemas aconteceram desde o início.

O primeiro atraso foi na saída de Guayaquil. Por mais de duas horas, a delegação esperou sentada nas poltronas do avião uma autorização para decolar rumo à Bolívia. O aval foi concedido e a viagem tomou o rumo de Santa Cruz de la Sierra, onde haveria reabastecimento e depois continuação da jornada. Ao pousar, no entanto, o avião foi retido. Os passageiros foram orientados a deixar a aeronave e seguirem para um hotel próximo ao aeroporto.

O relógio marcava 0h35 (Brasília) da madrugada de segunda-feira quando o clube informou, via Twitter, o pernoite em solo boliviano. Na delegação, clima de total surpresa. Aos poucos, os jogadores foram comunicados dos problemas burocráticos. Nas horas seguintes houve um choque de informações sobre a razão pela qual o avião foi retido. Dívidas da empresa com o governo local, falta de recurso para compra da autorização de voo ou parâmetros errados na aeronave ou no serviço. Nada foi esclarecido.

Durante toda a segunda-feira também se seguiram previsões e cancelamentos em série do embarque com destino ao Brasil. A cúpula do Barcelona-EQU se dividiu e uma parte tentava local para treinar em Santa Cruz de la Sierra. Na programação original, o treinamento deveria ocorrer no estádio Beira-Rio, distante 2.400 km de onde estava a delegação.

A atividade da segunda-feira não saiu. Depois de conversar com o Blooming, time local, o Barcelona se deu conta: estava sem sua bagagem. As caixas com indumentária do elenco ficaram presas dentro do avião, no aeroporto de Viru Viru. Foram horas até que as autoridades locais liberassem o material. Quando as malas chegaram, já era noite.

Reprodução/Twitter

Guillermo Almada, treinador do time há dois anos, organizou uma reunião com os jogadores no interior do hotel. A conversa foi a única atividade visando o segundo jogo da semifinal naquele dia. A estadia forçada na Bolívia e o problema com o uniforme tiraram a comissão técnica do sério. O grupo de jogadores também se mostrou irritado.

"A meu ver, planos e horários em alta performance são vitais. Temos é que rezar. Depois vamos ver, mas o que podemos agora é rezar. Rezar para todos estarem bem, se recuperem bem. Erramos muito com tudo isso", disse Rubens Valenzuela, preparador físico do time.

Entre os atletas havia o incômodo pela viagem, o cansaço. E a ânsia de treinar. Bem como o desconforto de ter poucas roupas à disposição. "Tudo que o professor planejou mudou. Tudo. Treinos, horário de descanso. Estamos a toda hora esperando para embarcar", afirmou Richard Calderón, meia do Barcelona. "Uns colegas ficaram com as malas presas no avião, sim", disse ainda.

Com uma nova noite na Bolívia o desespero chegou. A diretoria passou a acionar contatos no exército para pedir um voo oficial. As Forças Armadas Equatorianas colocaram um avião à disposição, mas pediram para que o clube tentasse esgotar as possibilidades com a empresa contratada. Horas depois, o telefone do QG em Quito tocou e ouviu: "Venham nos ajudar".

O exército liberou o bimotor C-295, com capacidade para 70 soldados e 35 passageiros. No final da tarde de terça, pelo horário brasileiro, o avião tomou os céus em direção à Bolívia. Com a limitação de poltronas, o Barcelona foi obrigado a barrar todo integrante da delegação que não fosse vital para a chegada do time em Porto Alegre e disputa da partida. Dirigentes, torcedores e jornalistas que estavam no voo fretado ficaram em Santa Cruz de la Sierra com duas alternativas: esperar voo comercial ou regressar ao Equador.

"Milagres acontecem poucas vezes, mas acontecem. Mas não estamos indo bem para jogar um jogo desses, decisivo como tal. Somos campeões equatorianos, estamos na semifinal, e deveríamos fazer as coisas de outra maneira", opinou Valenzuela.

Na terça, já com uniforme em mãos, o Barcelona fez um treino físico no CT do Blooming. Depois, organizou uma sessão de vídeo para analisar o Grêmio. Essa etapa da preparação para ter ocorrido em Porto Alegre, logo depois do reconhecimento da Arena.

A epopeia equatoriana rendeu palavras de solidariedade do Grêmio. Diretoria e comissão técnica buscaram atualização constante do deslocamento do rival.

"Para falar a verdade, eu fico até triste pelo o que está acontecendo com o Barcelona. São colegas de profissão e a logística não deu certo. Pena", comentou Renato Gaúcho.

O episódio surreal rouba a cena do time em si. A formação do Barcelona-EQU terá o retorno de Jonathan Álvez, centroavante que interessa ao Santos e é o grande destaque do time. O zagueiro Darío Aímar, desfalque no primeiro jogo com o Grêmio, faz tratamento intensivo para voltar., mas a tendência é que siga fora. A vitória e classificação estão longe, mas independente do que ocorrer na Arena do Grêmio, o clube equatoriano terá uma história e tanto para contar. E várias lições a aprender.

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