Torcedores do Lanús veem risco para gremistas: "Nos trataram mal no Brasil"

Gustavo Figueiredo

Colaboração para o UOL, em Buenos Aires (Argentina)

  • Gustavo Figueiredo/UOL Esporte

Alunos da escola que funciona no clube caminham para mais um dia de aula. Antes de chegar ao portão, cruzam a fila de torcedores que procuram os últimos ingressos. Dentro do campo, um cachorro passeia relaxado pelo gramado, enquanto funcionários trabalham às pressas para retirar os assentos de um setor social – uma medida de última hora para aumentar a capacidade de público.

Faltando horas para a final da Libertadores entre Lanús e Grêmio, o estádio Nestor Díaz Pérez, conhecido como La Fortaleza, aparenta à primeira vista um ambiente tranquilo e cotidiano. Mas, para um olhar mais atento, estão por todos os lados os sinais de que o time está à véspera da principal partida de sua história centenária.

A tensão aparece de forma clara no bate-papo com os torcedores. Em um bar popular a duas quadras dali, um velho torcedor de bigode e barriga imponentes espera o seu choripan, o pão com linguiça local. "Há poucos anos íamos jogar em campos que nem arquibancada tinham. Jamais imaginávamos que chegaríamos até aqui", diz, referindo-se aos duros tempos de terceira divisão e à final de amanhã. Ao saber que seu interlocutor era um jornalista brasileiro, o gente-boa muda o semblante, se nega a tirar foto ou ao menos dizer o nome. Sem perder um certo tom bonachão, sentencia, entre a brincadeira, a mágoa e o conselho sincero: "Vocês nos trataram muito mal lá. Vão sofrer de volta aqui. Se quer um conselho: tome cuidado ao andar por aí".

Gustavo Figueiredo/UOL Esporte
Cachorro passeia pelo gramado enquanto funcionários retiram cadeiras de setor social: um dia cotidiano no palco da final

Não foi o único a dizer algo assim. Vários moradores estavam verdadeiramente preocupados, torcendo para que não haja incidentes violentos. Ao que parece, os arredores da Fortaleza viraram mesmo um campo minado para um brasileiro, independente se gremista ou não. Mas a grande inquietação, evidentemente, fica por conta da segurança dos cerca de cinco mil torcedores gaúchos que virão acompanhar seu time.

Torcida do Lanús prepara recepção

O tricolor que se aventurar a ir à finalíssima vai ter que cruzar os domínios de Lanús e adentrar a Fortaleza por uma ruazinha sem saída que dá de frente ao portão de entrada de visitantes. Ontem, exatamente ali, dois jovens de 18 anos retocavam um mural de boas vindas às torcidas que vêm de fora. "No Sul mando eu!!", diz a pintura, com um grande escudo do Lanús e uma figura que parece a de um homem libertando-se de uma corrente.

Na Grande Buenos Aires, afirmar-se do Sul é afirmar-se em uma identidade de classe trabalhadora, em oposição à aristocracia capitalina, especialmente àquela que mora do lado de lá da Avenida Rivadavia. "Eu mando no Sul" é quase uma declaração de revolta popular. "Este mural está aqui há uns 20 anos, mas estava meio apagado. Não podíamos deixar assim", disse David, o mais falante dos dois garotos, o que estava vestido com uma calça do Lanús – o outro tinha um short do clube.

Gustavo Figueiredo/UOL Esporte

Os jovens eram dois dos cerca de quatro mil argentinos que foram ao primeiro jogo na Arena do Grêmio e sofreram nas mãos de parte da torcida gaúcha e da Brigada Militar. "Os ônibus que conseguiram chegar cedo foram apedrejados. Nós ficamos presos por mais de uma hora, o jogo começando e a polícia nos prendendo sem motivo, sem deixar a gente ir para o estádio", contou. "Depois de mais de um dia de estrada, deu muita raiva, chegar até ali, seu time entrando em campo em uma final e você do lado de fora. Quando entramos já tinha mais de 30 minutos de jogo e só nos deixaram sair duas horas depois do fim."

Lautaro, o outro rapaz, mais desconfiado, apenas pintava. Arriscou um sorriso apenas quando posou para a foto e quando me mostrou suas tatuagens: em uma perna, o escudo do time, na outra, a imagem de seu ídolo, o atacante e xará Lautaro 'Laucho' Acosta. David explicou: "Pepe Sand é um grande ídolo, está a ponto de se tornar o maior goleador da nossa história. Mas o Laucho é fora de série, nós torcedores estamos doando chaves e objetos de cobre para fazer uma estátua para ele".

Não foi nem necessário perguntar se há expectativa de agressões ao Grêmio e seus torcedores. O garoto falante foi logo avisando que era contra a violência, mas que pelo bairro todos os pibes estão indignados. "Les van a cagar a tiros", disparou David, com um olhar que deixou no ar se havia ou não exagero ou algum sentido figurado na sua fala. "La Fortaleza sempre foi a cancha mais perigosa e com maiores dificuldades para os times visitantes", completou, dessa vez sem disfarçar orgulho.

Gustavo Figueiredo/UOL Esporte

Nesta terça-feira, o Grêmio anunciou que acordou com a polícia argentina que seus torcedores se concentrarão em Puerto Madero, a parte mais exclusiva e protegida da capital, uma espécie de pequena Dubai portenha, pipocada de arranha-céus à beira do Rio de La Plata. Do conforto do bairro mais caro de toda a Argentina, os gremistas sairão escoltados em comboio pelos policiais, cruzarão La boca, Isla Maciel e Avellaneda antes de entrar em Lanús, numa espécie de tour suburbano e proletário rumo ao sul. Espera-se que entrem em tranquilidade e segurança na Fortaleza.

Mas que não esperem tapete vermelho. "Haverá uma decoração especial esperando por eles", indicou David, com um sorriso maroto. "Anota o meu zap. Coloca aí: David La 14", disse o garoto, incorporando o nome da barra do Lanús como apelido. Eu entendi como uma assinatura.

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