Um jogo com 33 chances de gol! E ainda foi uma decisão da Liga dos Campeões

Mauro Beting

Do UOL, em São Paulo

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    Pôster de divulgação da final de 1960

    Pôster de divulgação da final de 1960

O local: Hampden Park, Glasgow, em 1960. 127.621 pagantes. Renda de 55 mil libras. Mais de 70 milhões viram pela TV a final de Liga com o maior número de gols desde 1956.

O tetracampeão europeu Real Madrid enfrentava na Escócia o campeão alemão Eintracht Frankfurt, que fizera, em dois jogos semifinais contra o Rangers escocês, 12 gols! Era a quinta final da Copa dos Campeões da Europa. Todas as anteriores, vencidas pelo Real Madrid. Deu mais do que a lógica. Deu um show.

A partir da quinta conquista, o manager do Leeds United, Don Revie, sugeriu ao clube usar a camisa branca, como a do Real Madrid. Bill Shankly, mítico treinador do Liverpool, fez com seu clube passasse a adotar o uniforme inteiramente vermelho. Para ele, uma só cor, como a branca do Real Madrid, impunha maior respeito.

Um jovem atacante da base do Queens Park Rangers ficou maravilhado com o que viu no estádio – Alex Ferguson, de 1986 a 2013 campeoníssimo treinador do Manchester United.

AP Photo/Arquivo
Di Stéfano marca o primeiro gol do Real no jogo

PRIMEIRO TEMPO

Começou – Real Madrid de branco; Eintracht Frankfurt de camisa vermelha.

55s – Meier cruzou da ponta esquerda com efeito, Domínguez resvalou na bola sinuosa que atingiu o travessão madridista. Talvez o sol e o vento forte contra a meta do Real em Glasgow tenham atrapalhado o goleiro argentino.

2min25 – Puskás perdeu a bola no meio-campo e entrou com a sola esquerda na canela direita do zagueiro-central Eigenbrodt (5). Uma das faltas mais maldosas e violentas que já vi na vida, despropositadas pelo tempo de jogo e pelo local do lance. Daquelas de quebrar a perna, ganhar cartão vermelho e registrar Boletim de Ocorrência. O árbitro nada fez. Os alemães não reclamaram. Pequena parte da torcida na Escócia (francamente favorável ao time alemão) se manifestou negativamente. E seguiu o jogo. Para felicidade de Eigenbrodt, Puskás não o quebrou. Para felicidade da história daquela partida e do futebol mundial, o Major Galopante húngaro seguiu em campo para anotar quatro gols. Mas é preciso dizer que um árbitro minimamente rigoroso teria preso Puskás. E a história seria possivelmente outra. Uma vergonha que acabou fazendo bonita história. Aquela que é contada pelos vencedores, não pelos vencidos.

3min – Lateral-esquerdo Pachín não deixa o meia-direita Lindner bater um arremesso. Torcida escocesa não tolera nenhuma falta de fair-play – principalmente dos tetracampeões espanhóis.

4min – Melhor o Eintracht. Os pontas Kress (7) e Meier (11) recuam bastante para ajudar no meio-campo. Principalmente o ponta direita, hábil e tático.

5min – Di Stéfano (9) enfim começa a recuar para armar o grande jogo do Real Madrid. Por vezes, ele fazia uma linha mais atrás com o incansável meia-direita Del Sol (8) e com o velocíssimo e hábil ponta-esquerda Gento (11). Puskás (10), com menor mobilidade e maior peso (mas ainda não gordo), corria menos e ficava mais próximo da área. Bem assistido pelo excelente ponta-direita brasileiro Canário, que também recuava e partia de trás, com velocidade e qualidade.

6min – Del Sol armou bom lance aberto pela esquerda. Meio-campo e ataque do Madrid começam a se mexer muito bem e equilibrar o jogo. Ele e o médio-direito Vidal são os únicos do Real Madrid que não atuam pelas suas seleções nacionais. No Eintracht, são cinco que jogam pela Alemanha.

8min – 2 x 1 em chances para o time alemão. Lançamento muito bom do Eigenbrodt para o Kress ultrapassar o fraco lateral Pachín e cruzar na área para Marquitos tirar de letra.

10min – A zaga do Real não é grande coisa. Não por exposição demasiada, mas por falta de qualidade dos laterais Marquitos e Pachín. O goleiro alemão Loy dá um bico pra frente, Kress cruza da direita, e o ótimo zagueiro-central Santamaría ("A Muralha") quase faz contra. Quem bate os escanteios pela direita é o ótimo meia-esquerda Pfaff (10). Ele bate fechado, de canhota, o que não era prática muito comum à época.

14min – Mão na bola de Eigenbrodt. Puskás bate a falta por cima da meta de Loy, ali da meia direita. Como havia acontecido sete anos antes, em Wembley, ninguém formou barreira. Deixaram o craque húngaro bater livre.

17min – Real Madrid erra muitos passes. Di Stéfano não recua tanto para armar o jogo e ajudar a defesa. Até agora, Puskás só fez a falta em que deveria ter sido expulso. Jogo igual, mas Eintracht mais perigoso no contragolpe.

18min GOL. 1 X 0 EINTRACHT. KRESS. CABEÇA. Belo lance, bem treinado e executado. Lançamento longo à direita, Santamaría fora da posição correta, por dentro. Na dividida, Kress trocou de função com Lindner. O meia-direita avançou como se fosse ponta, tocou para Steiner sair do meio aberto pela direita e cruzar para o cabeceio do ponta Kress, que fechou como se fosse comandante de ataque. Bonita troca de posições e um gol de qualidade e velocidade. Grande parte do Hampden Park vibra. Os torcedores que pagaram de 5 a 50 schillings estão torcendo pelo time alemão. Ou contra o tetracampeão europeu. Gol merecido.

26min – GOL. 1 X 1 REAL MADRID. DI STÉFANO. PÉ DIREITO. Zárraga levantou na direita para o ponta-direita brasileiro Canário ganhar às costas de Meier, passar como quis pelo fraco lateral Höfer, e cruzar para La Saeta Rubia argentina empatar. Como nas outras quatro decisões europeias, Di Stéfano fez o dele. Para Puskás, algo anormal foi levar o primeiro gol: "Nós sempre gostamos de sair na frente no placar. Éramos 11 atacantes em nossa equipe. Mas, também por isso, sofríamos mais gols. Muita gente achou que não passaríamos pelo Barcelona na semifinal. E ganhamos. Porque nós não nos cansávamos de ser campeões. E fomos mais uma vez".

29min – O excelente ponta-esquerda Gento escapou como quis pelo fraco lateral-direito Lutz, bateu forte de canhota e o goleiro Loy defendeu bem. Ainda hoje Gento faria sucesso pela velocidade impressionante, técnica apurada e chute forte. Ele abaixava a cabeça e ia para cima. E quase sempre ganhava os lances.

29min – GOL. 2 X 1 REAL MADRID. DI STÉFANO. PÉ DIREITO. Gento cruzou da esquerda, Höfer afastou, mas Del Sol matou com categoria, tocou de canhota com elegância para Canário bater de trivela, de direita. Loy não segurou bola que não era tão difícil, e ainda espalmou para dentro da pequena área, onde Di Stéfano fuzilou e virou o placar. Bastava atacar um tantinho para o Real causar estragos no débil sistema defensivo alemão. Poucos aplausos no estádio pelo gol. O narrador da BBC inglesa foi definitivo: "Não sei quanto pagam para o Di Stéfano, mas ainda não é suficiente", afirmou Kenneth Wolstenholme.

32min – Kress cruza da direita, Meier pega mal de canhota. Jogo cai com a virada madridista.

34min – Di Stéfano salva o empate antes do rival Steiner concluir bom lance pela direita de Kress sobre Pachín. Impresionante o preparo físico do já veterano craque argentino. Estava lá atrás ajudando. Ora como uma espécie de libero, por vezes mesmo como um médio pela direita. Não à toa inspirou o todocampista holandês Johan Cruyff. Dois monstros técnicos, táticos e físicos.

37min – O médio-direito Vidal avançou como meia pela direita, jogou de canhota às costas do lateral alemão para Canário entrar em diagonal e bater cruzado, rente à trave de Loy, belo lance.

38min – Puskás flana pelo gramado, mais próximo à meta rival, deixando Di Stéfano recuar e organizar o jogo merengue. Até agora, figura apagada o Major Galopante Húngaro.

39min – Belíssima jogada pela esquerda do Real Madrid, com direito a letra de Del Sol, tabelinha entre Puskás e Gento. Aos poucos, a torcida no Hampdem Park começa a se apaixonar e a se render ao talento merengue. Jogo bonito e nem sempre objetivo.

44min – GOL. 3 X 1 REAL MADRID. PUSKÁS. CANHOTA. Pfaff bateu escanteio fechado, de canhota, o goleiro argentino Domínguez defendeu. Lançou rápido para Del Sol num lance bem ensaiado. O meia direita aplicou um chapéu, mas foi desarmado. Eigenbrodt foi sair jogando, perdeu a bola dentro da área para Puskás dominar e fuzilar no ângulo direito do indefesa goleiro. Nem precisou forçar muito o Real Madrid para fazer um placar amplo demais para um tempo equilibrado.

Placar virtual do primeiro tempo – 7 X 5 REAL MADRID. Time alemão pouco melhor até o empate espanhol. Eintracht não tinha a qualidade técnica e os gênios merengues, que fizeram a diferença, mesmo sem jogarem um futebol de outro planeta.

SEGUNDO TEMPO

19s – Canário dominou mal uma bola dentro da área, que sobrou para o goleiro. Puskás fez o lance como se fosse um ponta esquerda, no lado do campo que gostava de atuar nas segundas etapas.

1min – Além da paulada de Puskás, o primeiro lance punível com um cartão amarelo (que seria instituído 10 anos depois): Weilbacher pegou por trás Di Stéfano, ainda na intermediária. Falta dura e tola.

2min – Jogada básica do Real: Domínguez rapidamente dava um bico para frente logo depois do escanteio; o contragolpe era puxado por Gento ou Puskás. Di Stéfano ficava mais atrás, protegendo a defesa, organizando o jogo.

4min – Meier manda a bomba, Domínguez faz grande defesa para escanteio.

5min – Puskás manda o canudo da meia esquerda, Loy manda a escanteio em bela espalmada. Grande jogada de Vidal com Di Stéfano. Madrid voltou mais aceso e com mais sede por gols.

11min – Um dos pênaltis mais absurdos da história do futebol. Gento foi lançado pela milésima vez às costas de Lutz. O lateral trancou o ponta e a bola sobrou limpa para o goleiro alemão. O árbitro ficou em dúvida da dividida normalíssima e foi consultar o bandeirinha número um. Naquele tempo, os bandeiras poderiam ficar invertidos em relação a hoje. Mesmo bem posicionado, o auxiliar confirmou o pênalti inexistente.

11min – GOL. 4 X 1 REAL MADRID. PUSKÁS. PÊNALTI. CANHOTA. Mesmo tão absurda a marcação, eram outros tempos. Apenas dois alemães ergueram os braços e colocaram a mão na cabeça. O árbitro levou 15 segundos para confirmar o pênalti. Nem a torcida favorável ao Eintracht se manifestou tanto. Os atletas lamentaram, mas não reclamaram diretamente com o árbitro. Apenas 17 segundos depois da confirmação do pênalti inexistente, Puskás ampliou. Fair-play 11. Arbitragem zero.

13min – Mais um belo lance do ponta Kreuss para mais uma grande defesa de Domínguez. Sétima boa chance alemã, contra 10 espanholas.

14min – Steiner chegou atrasado depois do escanteio. Time alemão joga como se não estivesse perdendo. 8 x 10 em oportunidades.

15min – GOL. 5 X 1 REAL MADRID. PUSKÁS. CABEÇA. Bonito lance de Santamaría com Del Sol lançando o bólido Gento pela esquerda. Passou como avião pela zaga alemã, foi ao fundo e serviu para Puskás, dentro da pequena área, se antecipar a Eigenbrodt e ampliar a goleada. Até a torcida que estava com o Eintracht aplaudiu a beleza e velocidade do lance. Gento dava a impressão de que ainda hoje seria veloz. E muito superior à média como ponta-ponta.

17min – Lindner bate de primeira por cima em belo lance alemão. O ponta Kreuss cortava por dentro, o centroavante Stein aparecia pela ponta às costas de Pachín, e cruzava para a chegada do meia-direita alemão. 5 x 1 era um placar muito dilatado pela boa qualidade do time de Frankfurt. Em chances reais do jogo, a partida poderia estar 11 x 9 para o Real Madrid. Um jogo bem mais equilibrado.

20min – Puskás bate de primeira e só não amplia porque há um desvio. Atuando basicamente como um centroavante, com Di Stéfano correndo por ele, o húngaro detona o discutível sistema defensivo alemão. 12 x 9 em chances para o Real.

21min – Kress entra duro em Pachín, que revida dando um coice no atacante alemão. Uma boa arbitragem teria mostrado – hoje – um amarelo para o ponta alemão, e um vermelho direto para o lateral-esquerdo merengue.

23min – Weilbächer bate bola que reboteia e atinge o travessão. Lindner pega a sobra e chuta na zaga, Santamaría salva o lance no melê, e Stinka isola o último chute. Glasgow aplaude a blitz alemã.

25min – Di Stéfano vira bonito de canhota para bela defesa de Loy para escanteio. 13 x 10 em chances para o time espanhol.

26min – GOL. 6 X 1 REAL MADRID. PUSKÁS. CANHOTA. DENTRO DA ÁREA. Linha de passe espanhola: Gento cruza da ponta esquerda para o outro lado; zaga afastou para Marquitos, que bateu torto; Puskás recebeu livre, virou rápido de canhota e mandou no ângulo de Loy, que só olhou o golaço. 14 x 10 em chances.

27min – GOL. 2 X 6 EINTRACHT. STEIN. CANHOTA. DENTRO DA ÁREA. Weilbächer deu um balão pra frente, Stein ganhou da zaga de cabeça e serviu Pfaff, que de canhota serviu Stein para se livrar de dois zagueiros e chutar no ângulo esquerdo de Domínguez, que ainda relou na bola. Golaço. 14 x 11 em chances.

28min – GOL. 7 X 2 REAL MADRID. DI STÉFANO, CANHOTA. FORA DA ÁREA. Puskás deu a saída tocando a Del Sol, que passou mais atrás a Di Stéfano. Este a Gento, que driblou um, rolou a Puskás, que rápido achou Di Stéfano. Ninguém marcou. Ele avançou e, apenas 43 segundos depois do gol alemão, bateu de canhota, raso no canto esquerdo de Loy, que de novo só assistiu. O Real era demais. Mas era uma tiriça o Eintracht para se defender… 15 X 11 em chances.

30min – GOL. 3 X 7 EINTRACHT. STEIN. PÉ DIREITO. NA ÁREA. Santamaría resolveu presentear o esforço do bom time alemão e recuou para o goleiro uma bola nos pés do centroavante rival. Stein fuzilou Domínguez. 15 x 12 em chances. E a torcida a favor do time alemão celebrou bastante…

No frigir das bolas, 4 gols em 5 minutos! Fala, Bobby Charlton, o maior craque inglês: "O meu primeiro pensamento foi que este jogo era uma mentira, um filme, porque estes jogadores fizeram coisas que não são possíveis, não são reais, não são humanas!"

32min – Gento para Puskás, e um tiro à esquerda. 16 x 12 em chances.

34min – Di Stéfano para Puskás para Gento para Di Stéfano para… E quem é que para esse time? Duas horas trocando a bola rente à linha lateral. Até os rivais e o estádio inteiro aplaudem.

36min – Gento bate falta sem ângulo para boa defesa de Loy. 17 x 12 em chances.

37min – Puskás, de longa distância, da meia-esquerda, só não faz o oitavo porque Loy espalma muito bem. 18 x 12.

38min – Show de bola madridista. Dribles e fintas e firulas, mas a maioria com objetividade, deixando o rival babando e sem ação.

39min – Canário cruza, Di Stéfano só não faz porque Loy mandou bem, e, no rebote, Gento tenta, mas zaga salva. 19 x 12.

39min – Di Stéfano tenta por cobertura depois de belo lançamento. A bola bate na trave esquerda quando o craque argentino já celebrava mais um gol. 20 x 12 em chances merengues.

41min – Resposta alemã. Meier enche o pé. Mas por cima. 20 x 13.

44min – Kress faz grande jogada pela direita, mas prega e acaba perdendo o ótimo lance.

Fim de jogo – Vitória de uma seleção sobre um ótimo time. Mas não melhor que o pentacampeão europeu.

Placar virtual do segundo tempo  13 X 6 REAL MADRID
Placar virtual total – 20 X 13 REAL MADRID. Em que partidas existem 33 chances de gol?

MANCHETE – The Daily Herald (britânico): "O jeito que esses artistas maravilhosos jogam futebol é simples e fácil. Parece tão fácil como um sonho. Eles fazem com que todos os outros times pareçam equipes de segunda categoria".

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ATUAÇÕES

REAL MADRID – NOTA 9. Criou 20 chances, mas concedeu 13. Fez 7 gols, mas levou 3. Com a bola, dos maiores de todos os tempos e campos. Sem ela, um time exposto, e de técnica discutível na defesa.

DOMÍNGUEZ – NOTA 6. Goleiro argentino revelado pelo Racing, 12 anos de seleção albiceleste, era atrapalhado e pesado. Tinha 29 anos em Glasgow. No fim da carreira, atuou pelo Flamengo, em polêmica passagem pela Gávea.

MARQUITOS – NOTA 6. O lateral-direito não era grande coisa tecnicamente. Forte, duro e pesado, sofria com os pontas de então, atuando no WM que caducava taticamente (era um 3-2-2-3). Fez o terceiro gol do Real na final da Liga de 1956, no 4 x 3 contra o Stade Reims francês. Foi cinco vezes campeão europeu. Filho e neto também foram profissionais da bola.

SANTAMARÍA – NOTA 7. Bobeou no terceiro gol, mas era ótimo. Exposto pela forma de atuar do Real, e pela qualidade discutível dos companheiros de zaga, o central uruguaio foi uma bandeira merengue, onde atuou de 1957 a 1966. Jogou pela Celeste Olímpica por 5 anos, e mais quatro pela Fúria espanhola. Foi o treinador do fraco time espanhol na Copa de 1982. Só não foi campeão do mundo pelo Uruguai, em 1950, porque o seu clube (Nacional) se recusou a liberá-lo para ser reserva do meio-campo (?!). Em 1954, foi titular de um grande Uruguai, batido apenas na prorrogação pela brilhante Hungria.

PACHÍN – NOTA 4. O lateral-esquerdo do WM do Real era fraco na marcação. Como quase todos os laterais dentro desse esquema, era mais zagueiro que um jogador que se projetava ao ataque. Polivalente, ainda assim não tinha grande técnica. Levou um baile de Kress e sofreu com as incursões de Stein o jogo todo. Foi Real de 1958 a 1969. Virou treinador de clubes medianos até 1986. Esteve na Copa-62.

VIDAL – NOTA 7. Muito bom jogador, ambidestro, o médio-direito tinha boa técnica, passes e inversões precisas, e sabia marcar. Apesar da canseira que levou do ótimo meia-esquerda Pfaff, fez belo jogo em Glasgow.

ZÁRRAGA NOTA 7. El capitán era o médio-esquerdo. Discreto, tinha um passe correto, e ajudava mais Santamaría por dentro e mais atrás que Vidal. Foi Real de 1951 a 1962. Outro penta europeu.

DEL SOL – NOTA 9. Substituto do imenso armador francês Kopa, Del Sol veio do Betis para jogar em todo o campo. E muito bem. Foram apenas dois anos de Real, e dez de Itália, entre Juventus e Roma. Jogou as Copas de 1962 e 1966. Armava como meia direita, ajudava Vidal na contenção, e se mexia por todo o ataque. Veloz, participou do lance do terceiro gol. Técnico, tinha ótimo passe e visão de jogo. Jogava fácil, e fazia o meio-campo de craques jogar ainda mais.

PUSKÁS – NOTA 9. Merecia ser expulso com 2 minutos. Pouco pegou na bola atuando quase como centroavante, na primeira etapa. Depois, fez quatro dos 7 gols. E sem grande mobilidade pelo peso que começava a aparecer tanto quanto a genialidade, os gols, os dribles, a ascendência sobre os rivais e companheiros. Um gênio. Dos maiores de todos os tempos. Artilheiro daquela edição da Liga com 12 gols. Nota 9 porque deveria ter sido expulso no dia de sua melhor exibição pela camisa merengue.

CANÁRIO – NOTA 8. O ponta-direita carioca era driblador, ótimo cruzador e passador, rápido, técnico e tático. Revelado pelo Olaria, brilhou no América do Rio a partir de 1955. Em 1959, chegou a Madri. Atuaria até 1969 por mais três clubes da Espanha (fazendo igual sucesso no Zaragoza). Na Seleção, só 7 jogos, em 1956. Naturalizou-se espanhol, mas nunca atuou pela Fúria. Pelo Brasil, com a concorrência de Garrincha e Julinho Botelho, não teve as chances que poderia.

DI STÉFANO – NOTA 9. O genial "La Saeta Rubia" argentino foi o pai técnico e tático de outro monstro, o holandês Cruyff. Ele era camisa 9. Começou como centroavante. Mas como Hidegkuti, 9 falso húngaro, ele recuava para armar. Mas Di Stéfano foi além. Por vezes, era um meia. Um volante. Quando não era um quarto-zagueiro. Um monstro técnico, tático e físico. Corria o campo todo o jogo todo. Ajudava os companheiros. Mandava neles, na bola e até nos rivais. Dos maiores de todos os tempos. Entre os maiores, certamente o que mais fazia coisas em campo. Podia ser um Beckenbauer, podia ser um Cruyff, podia ser um Maradona. Podia tanto que até podia mais que Puskás no vestiário merengue, onde esteve de 1954 a 1964, onde foi o presidente honorário. Fez 8 gols naquela edição da Liga. Gênio.

GENTO – NOTA 9. De 1953 a 1971 foi ponta-esquerda do Real Madrid. De 1955 a 1969 foi craque da Espanha. Com 6 Ligas dos Campeões, incluindo o título de 1966, é o recordista de títulos europeus. E foi para este escriba o melhor de todos os jogadores espanhóis. Mais que Luis Suárez, Xavi, Iniesta e Raúl – dos que pude ver jogar – e outros que mereçam ser citados. Porque Gento tinha velocidade que ainda hoje seria recorde (fazia 100 metros em menos de 11 segundos). Porque driblava como brasileiro. Porque ajudava atrás como europeu. E porque jogava numa máquina. Costumava largar o ônibus da delegação merengue poucos quilômetros antes do Santiago Bernabéu para andar e se condicionar com sapatos mais pesados que o usual. Só para aumentar a força das pernas e, por tabela, a velocidade. Conhecido como "La Galerna del Cantábrico" – A Tempestade do Mar Cantábrico.

MIGUEL MUÑOZ – NOTA 8. O treinador espanhol foi meio-campista do Real Madrid por 10 anos, até se aposentar em 1958. Foi o capitão merengue nos dois primeiros títulos europeus. Treinou o clube de 1960 a 1974. Foi o primeiro dos seis que conseguiram ser campeões da Europa como atleta e, depois, treinador. Treinou a Espanha na boa campanha na Copa-86. Morreu em 1990. Respeitadíssimo pelos companheiros e comandados, usava um WM básico, com três zagueiros expostos, dois médios de boa qualidade mas capacidade discutível de marcação, e cinco craques à frente (dois gênios). Ficava mais fácil.

EINTRACHT FRANKFURT – NOTA 7. Levou 7 gols do pentacampeão europeu (um nascido de impedimento inexistente e absurdo). Mas fez três gols, e criou outras 10 chances. Merece aplausos. Até porque começou bem melhor a decisão. Foi praticamente o mesmo time que fez no placar agregado 12 x 4 contra o Glasgow Rangers do treinador Scot Symon, que não deu a menor pelota aos alemães, dizendo antes do primeiro jogo em que perdeu por 6 a 1 que não precisaria reconhecer o gramado de Frankfurt, que o conheceria apenas durante o jogo…

LOY – NOTA 5. Pouco jogou pela seleção alemã. E apesar de algumas boas defesas no bombardeio merengue, mostrou fragilidade ao largar muitas bolas, e não se atirar em outras.

LUTZ – NOTA 4. O lateral-direito jogou 6 anos pela Alemanha Ocidental, e era reserva do time vice mundial em 1966. Mas levou um baile de Gento – como a maioria dos laterais planetários.

EIGENBRODT – NOTA 5. Quase teve a perna quebrada por Puskás. Mas o zagueiro-central não se lesionou. Embora mal tenha ajudado a defesa frágil. Jogou a vida toda no Eintracht. Como o futebol só se tornou profissional no país em 1963, por muito tempo trabalhou também no comércio.

HÖFER – NOTA 4. O lateral-esquerdo levou um baile de Canário. Pesado e lento, foi presa fácil. Mas, como todos, não baixava a porrada. Foram 14 anos de clube. Virou vice-presidente em 1982.

WEILBÄCHER – NOTA 5. O médio-direito tinha uma bola longa de qualidade. Mas como marcar Puskás e/ou Di Stéfano, e ainda ajudar na contenção a Gento? Jogou 13 anos pelas Águias de Frankfurt.

STINKA – NOTA 5. O médio-esquerdo não marcou Del Sol, e mal chegou à meta rival. Apenas correu. E olhe lá. Atuou pouco pela Seleção, e 8 anos pelo Eintracht.

LINDNER – NOTA 7. Inteligente, deslocava-se muito bem, e dava suporte ao excelente meia-esquerda Pfaff. O meia-direita por 15 anos atuou pelo Eintracht. Foi vice-presidente do clube em 1981. É capitão honorário das Águias.

PFAFF – NOTA 8. O meia-esquerda era o craque do time, mesmo aos 34 anos. Ainda corria todo o campo. Recuava para pensar o jogo, entrava em diagonal para abrir pela ponta direita, enquanto Kress recuava para armar. Batia escanteios e faltas. Mandava no meio-campo. Grande atuação do capitão da equipe onde atuou por 12 anos. Atuou apenas três anos pela Alemanha (também por atuar na posição do mestre Fritz Walter). Mas foi reserva do time campeão de 1954. Canhoto, colocava a bola como poucos, e causava problemas quando batia escanteios da ponta direita, prática pouco usual à época. Também usava bem o pé direito.

KRESS – NOTA 7. O ponta-direita recuava para dar espaço a Stein e Pfaff por ali. Técnico, driblador e inteligente, jogou bem toda a partida para cima do fraco Pachín. Onze anos de clube, 7 de seleção, ele trabalhava com a mulher numa loja.

STEIN – NOTA 7. O centroavante caía pela direita e brigava bastante. Ótimo posicionamento. Foram 7 anos de clube. Por discutir com o treinador alemão Sepp Herrberger, atuou pouco pela Alemanha.

MEIER – NOTA 5. O ponta-esquerda começou bem, mas caiu de produção. Mais tático, menos driblador, tinha um bom chute de canhota. Seis anos de clube.

PAUL OSWALD – NOTA 6. Foram 14 anos dirigindo o Eintracht, em três períodos distintos. No último, e mais vitorioso, foram 6 anos. Incluindo o título alemão de 1959, e o vice europeu. Começou a carreira de técnico muito cedo, e foi um grande mestre no país. Mais não poderia fazer em Glasgow.

ÁRBITRO JOHN MOWAT (ESCÓCIA) – NOTA 3. Não expulsou Puskás aos 2 minutos, numa das agressões mais estúpidas que já vi em campo, e marcou talvez o pênalti menos marcável da história, a favor do time espanhol.

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