Atlético-MG vai criar time B para amadurecer atletas formados pelo clube

Victor Martins

Do UOL, em Belo Horizonte

  • Divulgação Atlético-MG

    Dos 20 jogadores que estiveram na Florida Cup, apenas um não é formado pelo Atlético-MG

    Dos 20 jogadores que estiveram na Florida Cup, apenas um não é formado pelo Atlético-MG

A cada ano o Atlético-MG investe alguns milhões de Reais nas categorias de base do clube. O retorno é visto na equipe principal. Toda temporada tem jogadores subindo do elenco sub-20 para o time profissional. Alguns entram na equipe principal e não saem mais, caso do lateral direito Marcos Rocha. Outros chamam a atenção de clubes estrangeiros e são vendidos por grandes quantias, casos de Bernard e Jemerson, por exemplo. Mas muitos não conseguem se firmar entre os profissionais do Atlético.

Na visão da diretoria atleticana e dos membros da comissão técnica, isso ocorre muito em função de poucos jogadores estarem prontos aos 20 anos de idade. Por isso, a partir de 2017, o Atlético vai ter uma equipe B permanente. Time que vai ter uma comissão técnica independente, mas ligada à comissão do time principal. Inclusive, o Atlético deve disputar a Segunda Divisão do Campeonato Mineiro, que na prática é a terceira divisão, já que as duas primeiras são chamadas de Módulos 1 e 2.

Mesmo com a equipe principal na elite do futebol mineiro, não há empecilho para que o Atlético dispute uma divisão inferior com uma equipe alternativa. O que não pode é ter dois times na mesma série. Por exemplo, caso esse time B do Atlético conquiste o acesso ao Módulo 2, em 2018 ele pode disputar competição, mas sem chance de subir, já que o time principal joga o Módulo 1.

Procedimento que não é novo, especialmente fora do Brasil. Real Madrid e Barcelona, por exemplo, têm equipes que disputam as divisões inferiores do Campeonato Espanhol. Na Inglaterra, equipes B disputam um campeonato paralelo ao principal, geralmente com jogos dentro dos próprios Centro de Treinamentos.

No Brasil, Internacional e Grêmio foram os pioneiros nesse sentido. O clube colorado chegou a ter uma equipe B com atletas que se tornaram grandes nomes do futebol, casos de Oscar e Ricardo Goulart. Mas o caso de Taison é o melhor exemplo para o que o Atlético procura. Ao completar 21 anos, o atacante não seria aproveitado na equipe principal. Não fosse a existência do time B, provavelmente Taison não teria se tornado um grande jogador com a camisa do Inter.

"Pode alcançar a maturidade física com 20 anos, mas pode não alcançar a maturidade emocional. Aos 20 pode estar pronto fisicamente e não estar emocionalmente bem desenvolvido. Para mim existe uma lacuna. Dos 19 aos 20 era o tudo ou nada para esse jogador. Se ele não fosse chamado para o profissional, a carreira dele teria de tomar outro direcionamento. Teria de ser emprestado, aí poderia ir para um time sem tanta estrutura, o jogador não continua evoluindo e poderia desestimular. Assim a gente perde muitos talentos", disse o técnico Roger Machado, com exclusividade ao UOL Esporte.

Agora treinador do Atlético, foi Roger um dos responsáveis pelo Grêmio criar a 'equipe de transição'. Um elenco composto por jogadores que não têm mais idade para jogar na categoria de base, mas ainda não estão prontos para o time titular do Grêmio. Aliás, o próprio Atlético sofreu com essa ação de Roger. Autor de dois gols na final da Copa do Brasil, o atacante Pedro Rocha foi um atleta que passou pela 'equipe de transição'.

"Com 18 anos é a exceção. Não podemos considerar todo mundo como exceção. Foi a gente que começou esse trabalho lá, justamente por entender que a legislação que fez o clube apresentar o jogador muito cedo para o profissional. Não que ele esteja amadurecendo muito cedo. Jogadores como Neymar, como o Pelé, são caras que começaram muito cedo e são a exceção", exemplificou Roger.

A Florida Cup foi uma amostra do que o Atlético pretende fazer. Dos 20 jogadores que estiveram nos Estados Unidos, sete eram profissionais e 13 ainda estavam ou estão nas categorias de base. No entanto, somente o lateral direito Patric que não tinha formação como jogador na Cidade do Galo. Viagem que foi boa para atletas como o zagueiro Rodrigão e o volante Ralph, que se destacaram e agora estão treinando com a equipe principal.

"A formação desse grupo de transição foi dar pelo menos um ano a mais para o jogador que estourou a idade e ainda está no processo de desenvolvimento, natural do ser-humano, não apenas do jogador de futebol. Ninguém com 20 anos está completamente maduro. É dar a esse jogador a oportunidade de treinar numa categoria que vai disputar uma competição ou que consiga ter um calendário de jogos para evoluir. Vai treinar do lado do profissional, com uma metodologia parecida. Ao invés de treinar para competir, vai treinar para se formar. O treino para competir é diferente do treino da formação", explicou Roger Machado, que na época do Grêmio tinha um elenco majoritariamente formado por atletas criados na base do clube gaúcho.

"Esse grupo servia para isso. Meu grupo anterior tinha 60% dos meninos, pois todos os dias estavam treinando do meu lado. Quando acabava meu treino ou no meio do meu treino, eu dava uma olhada para eles. O treinador dessa categoria fazia parte da minha comissão. Então eu tinha um feedback direto deles".

Calendário é um problema na visão de Roger

A informação de que o Atlético vai criar uma equipe B foi confirmada ao UOL Esporte pelo presidente do clube, Daniel Nepomuceno. O dirigente disse ainda que isso não vai gerar custos a mais, já que os jogadores têm contrato com o Atlético e são das categorias de base. Um dos desejos do dirigente atleticano é ter um calendário completo para esse time.

Mas falta competição. Em 2016, o Módulo 2 do Campeonato Mineiro contou com 14 participantes. Quem jogou mais disputou 18 partidas, enquanto as equipes com menos jogos atuaram apenas seis vezes. A competição é disputada no segundo semestre. Se falta calendário para uma equipe reserva, sobram jogos para os times da base. E na visão de Roger Machado, esse é um dos problemas recentes do futebol brasileiro. Com tantos jogos para os garotos, falta tempo para formar os jogadores.

"Nos últimos anos temos falado bastante do calendário brasileiro. Se pegarmos a categoria de base, eles estão jogando quase o mesmo número de jogos que a gente. Estão jogando mais de 70 jogos por ano. Não existe. Eles vão jogador domingo, quarta, domingo e quarta. Vai ter apenas descanso e jogo. O ideal é competir num período e treinar para revelar em outro, aperfeiçoar. Competir aqui, avaliar e treinar. Mas como temos tantos talentos, mesmo fazendo de forma equivocada, no meu modo de ver, a gente ainda continuar revelando os maiores talentos do mundo".

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