Tite é elo entre Roger e Carille no dérbi que pode se decidir na prancheta

Dassler Marques e Leandro Miranda

Do UOL, em São Paulo

  • Rodrigo Corsi/FPF

    Roger e Carille em entrevista conjunta: os treinadores finalistas em SP

    Roger e Carille em entrevista conjunta: os treinadores finalistas em SP

Roger Machado era só Roger quando Tite chegou ao Grêmio no início do século. Nos últimos anos da carreira, vivia às voltas com lesões e, do banco de reservas e incentivado pelo chefe, começou a vislumbrar de verdade que também poderia comandar um dia. Hoje técnico da seleção brasileira, Adenor Leonardo Bachi tem uma influência igual ou maior na formação profissional de Fábio Carille, o que o coloca indiretamente – mas também de forma direta – no centro do dérbi deste domingo.

Às 16h (de Brasília), o Palmeiras de Roger e o Corinthians de Carille, dois ex-laterais esquerdos, escrevem a última página do Paulistão 2018 e, vença quem vencer, é certo que de alguma forma o treinador campeão terá tido a influência de Tite. Nos conceitos que estabeleceu para montar suas equipes, na maneira como administra comissões técnicas e jogadores e na metodologia que usa para aplicar tudo isso, ele tem sua semente plantada nesse dérbi.

E a influência dos comandantes de Corinthians e Palmeiras, mostram os jogos recentes das duas equipes, vai além do habitual. Roger e Carille, que se veem no Allianz Parque para um tira-teima, influenciaram diretamente em vitórias, tomaram decisões que poucos poderiam esperar e certamente preparam, para essa final, saídas em busca do título. A vantagem é dos palmeirenses, que venceram em Itaquera por 1 a 0 e só precisam de um empate em casa para levarem a taça.

Tite indicou Roger ao Corinthians e se desculpou com Carille ao ir à seleção

Daniel Augusto Jr./Ag. Corinthians

Há duas histórias que compõem a ida de Tite à seleção brasileira em 2016 e estão diretamente ligadas à dupla que decide o Campeonato Paulista.

Embora tivesse Fábio Carille como seu auxiliar técnico por praticamente cinco temporadas, ele apresentou outros nomes ao então presidente Roberto de Andrade ao ter sugestões pedidas. Os principais eram Roger, então no Grêmio, Guto Ferreira, na época com o Bahia, e Sylvinho, seu ex-ajudante, que já estava na Itália e também acabou por se juntar à CBF.

Antes de assumir a função no ano seguinte e vencer dois títulos importantes [Paulista e Brasileiro], Carille não deixava de forma totalmente clara que estava na comissão técnica do Corinthians com ambições futuras de ascender a treinador.

Tite, que levou diversos membros do clube para a seleção, chegou a se desculpar e abraçar Fábio, que era cotado para ser seu auxiliar e acabou sendo de alguma maneira preterido, embora já tivesse a amizade e admiração do chefe. No fim, bom para ele e para os corintianos, certo?

Pessoa absolutamente reservada e de poucos amigos para visitar e se abrir, Tite mantém contatos esporádicos com os dois. As conversas com Carille, segundo o próprio corintiano conta, são muito mais sobre a vida que o futebol, mas naturalmente passa pela bola. A palavra de Roger, a quem parabenizou quando foi anunciado pelo Palmeiras, já ajudou a convocar nomes como Geromel, Giuliano e Luan.

A mão de Roger no dérbi: defesa organizada e muita pressão na bola

Cesar Greco/Palmeiras/Divulgação
Lousa no gramado é um dos recursos de Roger no Palmeiras

Depois de Eduardo Baptista, Cuca e Alberto Valentim em 2017, Carille venceu seu quarto dérbi em quatro jogos contra Roger Machado em fevereiro. Mas, diferente dos demais, o atual treinador do Palmeiras teve a chance de jogar mais uma vez contra o rival. E, no último sábado, mostrou quanto sua equipe mudou entre o primeiro e o segundo clássico, agora na final.

Derrotado pelo Corinthians com direito a olé, Roger mudou o Palmeiras a partir dali. O sistema tático foi substituído (4-1-4-1 para o 4-2-3-1), Dudu mudou de lado, Bruno Henrique assumiu a vaga de Tchê Tchê para aumentar a proteção à área, a pressão na bola, a força física do time e liberar Lucas Lima. Não foi muito diferente do que fez Victor Luís desbancar Michel Bastos.

De Tite, de quem recebeu um disquete sobre tática no futebol e o gosto pela prancheta, Roger de alguma maneira também herdou o prazer pela tecnologia a serviço do esporte. A pedido dele, o Palmeiras contratou a empresa equatoriana Kin Analytics, que mede a velocidade com que o time recupera a bola logo após perde-la. Um artifício para deixar o time mais dinâmico nesse processo de recomposição, detalhe fundamental para a vitória palmeirense há uma semana. 

Obcecado por números e capaz de assistir a jogos do mundo todo e até mesmo de outros esportes, Roger se cercou de dados para mudar alguns jogadores do Palmeiras a favor do que a equipe precisava. A dinâmica dos atacantes e meias sem a bola, em especial Borja, é outro item que ajuda a compor esse cenário de time bem protegido e organizado que serviu para minimizar outro problema palmeirense.

Embora tenha terminado 2017 como vice brasileiro, o Palmeiras tinha a pior defesa entre os seis primeiros colocados e, a despeito de Mina, se tornou uma máquina de moer zagueiros. Ao melhor estilo Tite, Roger fez escolhas inesperadas [Jaílson, Antônio Carlos e Thiago Martins] e trouxe maior proteção ao setor, que tem os melhores números do Paulistão 2018 e pode garantir o título neste domingo se não for vazado outra vez.

A mão de Carille no dérbi: artimanhas pela ausência de um centroavante

Daniel Augusto Jr. / Ag. Corinthians
Sem número 9, a dupla "Jadriguinho" se reveza no setor

Desde que surgiu em 2016 a perspectiva de que perderia Tite, o então presidente Roberto de Andrade pensava em maneiras de manter a metodologia de trabalho criada por direção e comissão. O plano A foi Sylvinho, que seguiu na Europa, e embora o plano de Roberto tenha sido abalado pelas perdas de Edu Gaspar e Fábio Mahseredjian, que eram pilares desse dia a dia, as coisas só se reorganizaram dessa forma quando Carille assumiu em janeiro de 2017. 

Fora de campo, Fábio é um sujeito de hábitos mais simples. Ele reconhecidamente, por exemplo, assume que assiste a pouco futebol do exterior e construiu muitas de suas referências ao acompanhar torneios menores. Por outro lado, sua comissão técnica e ele próprio não desprezam a busca por dados e elementos externos que auxiliem o dia a dia. Outra influência forte de Tite, e que coincide com Roger, é o estímulo frequente aos jogadores reservas e aos personagens que não têm holofote. Isso, indiscutivelmente, Carille herdou do técnico da seleção. 

Embora tenha sido levado ao clube por Mano Menezes, Fábio herdou muito mais de Tite na organização de suas equipes e gestão do grupo. O Corinthians desse ano mantém uma estrutura defensiva fortíssima, com a defesa sempre bem protegida por dois volantes e dois jogadores pelos lados, movimentos sincronizados entre laterais e zagueiros e uma maneira de jogar que consolidou esse "DNA" corintiano com os títulos do ano passado. 

Na atual temporada, Carille tem feito de tudo para lidar com a dor de cabeça que se transformou a saída de Jô e a falta de um substituto. Kazim, Júnior Dutra, Emerson e Danilo já passaram pela função, que teve seus melhores momentos quando uniu Jadson e Rodriguinho por ali. É exatamente nisso que o treinador apostou para o dérbi derradeiro. Dois jogadores muito técnicos, com ótimo arremate, que ajudam a equipe a ter a posse de bola, tiram as referências de posicionamento dos zagueiros rivais e tentam se infiltrar em espaços inesperados. 

FICHA TÉCNICA

PALMEIRAS x CORINTHIANS

Data: 8 de abril de 2017, domingo
Horário: 16h (de Brasília)
Competição: Campeonato Paulista (2ª final)
Local: Allianz Parque, em São Paulo (SP)
Árbitro: Marcelo Aparecido Ribeiro de Souza
Assistentes: Anderson José de Moraes Coelho e Daniel Paulo Ziolli

PALMEIRAS: Jailson; Marcos Rocha, Antônio Carlos, Thiago Martins e Victor Luis; Bruno Henrique, Moisés e Lucas Lima; Dudu, Willian e Borja. Técnico: Roger Machado

CORINTHIANS: Cássio; Fagner, Balbuena, Henrique e Sidcley; Ralf e Maycon; Mateus Vital, Jadson, Rodriguinho e Romero. Técnico: Fábio Carille

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