Topo

Coluna

Renato Maurício Prado


Acorda, Landim!

Thiago Ribeiro/AGIF
Rodolfo Landim, presidente do Flamengo, concede entrevista após o incêndio no CT Imagem: Thiago Ribeiro/AGIF
Renato Mauricio Prado

Renato Mauricio Prado é jornalista e trabalhou no Globo, Placar, Extra, Rádio Globo, CBN, Rede Globo, SporTV e Fox Sports. Assina atualmente uma coluna diária no Jornal do Brasil. A primeira Copa que cobriu in loco foi a da Argentina, em 1978.

2019-02-11T04:00:00

11/02/2019 04h00

Sonhei que o Flamengo tinha um presidente à altura de sua grandeza. Um rubro-negro que, diante da maior tragédia da história do clube, já teria se apresentado para uma grande entrevista coletiva, na Gávea, e que a abriria, constrangido, mas firme, admitindo, com humildade e grandeza:

"Falhamos tragicamente com os nossos meninos. Tínhamos a obrigação de protegê-los e fomos incapazes de fazê-lo. Eles morreram dentro do nosso centro de treinamento, no Ninho do Urubu. Independentemente do que vier a ser apurado - e, podem ter certeza, apuraremos tudo com rigor -, a responsabilidade é nossa e a assumiremos por completo, apoiando e suportando as famílias dos jovens que se foram nesse lamentável incidente".

Isto posto, começaria, então, a responder, minuciosamente, perguntas a respeito do tal alvará que ainda falta e por que falta; das seguidas multas que o CT levou, sem cumprir as exigências da Prefeitura e dos Bombeiros; da manutenção nos aparelhos de ar condicionado, feita dias antes (por que?); do controverso container usado como alojamento, que tinha apenas uma porta de saída e seria abandonado em poucos dias; do misterioso (e forte) cheiro de solvente no corpo de um dos jovens que estavam no quarto de número seis; da ausência de extintores de incêndio no local do sinistro, bem como de uma brigada de incêndio no centro de treinamento, etc, etc.

No meu sonho, o presidente do Flamengo não fugiria de nenhum questionamento e ainda que não fosse diretamente responsável pela tragédia (até porque assumiu há pouco mais de um mês), não se furtaria a levar consigo, para conversar com a imprensa, os responsáveis pelo CT, na sua administração e na anterior, bem como os responsáveis pelas divisões de base, pelos alojamentos e por aí vai.

Ele aproveitaria a ocasião para explicar também quem é, afinal, o responsável pelo Ninho do Urubu, como um todo. Quem é o "prefeito" do pedaço. Porque, decididamente, não é ele nem o tal CEO. Presença obrigatória na entrevista seria, também, Carlos Noval, durante tantos anos o principal gestor das divisões de base. O que ele tem a dizer sobre o que aconteceu?

Nos meus devaneios, a partir do exemplo determinado e da liderança do presidente, todos falariam francamente, abrindo o coração sobre tudo que pudesse ajudar a esclarecer o que houve e, sobretudo, evitar uma nova tragédia no futuro. E a partir daí o exemplo de uma nova forma de o Flamengo cuidar de seus jovens poderia servir de parâmetro e exemplo para os demais clubes no Brasil. Desta forma, ao menos, a morte dos dez garotos, não seria em vão.

Pouco antes de despertar, imaginei ainda o final da longa coletiva, com o presidente anunciando que, diariamente, faria questão de manter contato com os repórteres para, através deles, manter informada a torcida e, por que não dizer, o país, sobre o andamento das investigações.

Acordei, empapado de suor e ainda arrasado pela devastadora calamidade rubro-negra. Acorda também, Rodolfo Landim! E assuma, de uma vez por todas, a postura que um presidente do Flamengo tem que ter.

Mais Renato Maurício Prado