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Renato Maurício Prado


Neymar pai e Landim ficaram devendo

Marcelo Cortes/Flamengo
Rodolfo Landim, presidente do Flamengo, entre o CEO Reinaldo Belotti e o vice Rodrigo Dunshee Imagem: Marcelo Cortes/Flamengo
Renato Mauricio Prado

Renato Mauricio Prado é jornalista e trabalhou no Globo, Placar, Extra, Rádio Globo, CBN, Rede Globo, SporTV e Fox Sports. Assina atualmente uma coluna diária no Jornal do Brasil. A primeira Copa que cobriu in loco foi a da Argentina, em 1978.

2019-02-25T04:00:00

25/02/2019 04h00

Duas entrevistas chamaram a atenção nos últimos dias: a do pai de Neymar, no programa Grande Círculo, do SporTV, e a do presidente do Flamengo Rodolfo Landin, na Gávea, em sua primeira coletiva após a tragédia que vitimou dez meninos no Ninho do Urubu. Ambos procuraram se defender das críticas que sofrem (Neymar pai, faz muito mais tempo, e Landim, por conta do silêncio inexplicável de 16 dias, após o incêndio). Nenhum dos dois me convenceu.

O progenitor do maior craque do nosso futebol na atualidade chegou ao cúmulo de dizer que o filho só voltou a sofrer uma fratura no metatarso porque parou de cair e rolar no gramado - atitudes que o transformaram em chacota mundial, durante a Copa da Rússia.

- Pega um graveto fininho, joga pro ar e dá com uma marreta nele. Não quebra! Agora, apoia esse graveto e lhe dê um peteleco. Ele vai se partir - exemplificou em sua lógica torta, que insiste na defesa dos tombos e rolamentos como prevenção de pancadas e contusões.

Nem a argumentação sensata de Casagrande, que lembrou que Neymar poderia ter tocado a bola, após a primeira bordoada (o lance, no meio-campo, não tinha a menor importância), foi aceita.

- Aí não seria o Neymar. Ele não foi contratado pelo PSG para tocar a bola, mas sim para fazer a diferença, para liderar o processo de engrandecimento do clube e do próprio futebol francês! - rebateu, sem modéstia, nem explicar como se faria a diferença num lance tão banal...

Casagrande e Neymar pai fizeram, aliás, os melhores embates do programa. No qual, o segundo admitiu, em determinado momento, que estava mesmo buscando "saídas" para as perguntas difíceis e achava até graça nisso. Casagrande não o perdoou, mas ele não se fez de rogado e continuou respondendo como se ele e o filho tivessem razão em tudo. Pois é...

O presidente do Flamengo, por sua vez, falou muito e esclareceu pouco. Sob a justificativa de que as negociações precisam ser sigilosas "para proteger as próprias famílias", não abordou os valores que o clube se dispõe a pagar, limitando-se a garantir que seriam, pelo menos, o dobro das jurisprudências (indenizações em casos semelhantes) - mas não especificou nenhuma delas. Ou seja, ficou na retranca e quase nada pode ser esclarecido. Nem das negociações, nem do andamento das investigações sobre as causas do incêndio que vitimou os dez garotos.

O cartola e seu advogado (que respondeu a algumas perguntas) não quiseram entrar em detalhes, mas boa fonte me revelou quais seriam algumas dessas jurisprudências: os acidentes aéreos da TAM, em SP, e da Air France, no oceano Atlântico; o caso da Samarco, em Mariana, e o incêndio da boate Kiss, no Sul.

Há muitas disparidades entre cada caso (inclusive, nos mesmos acidentes), mas na maioria as indenizações giraram em torno de R$ 1,2 milhão por vítima, além de pensões girando em torno de R$ 4 mil mensais. Diante disso fica difícil acreditar que o Flamengo esteja mesmo oferecendo o dobro aos parentes, como garantiu o presidente.

Não custa lembrar, o Ministério Público sugeriu indenizações de R$ 2 milhões, por família, além de uma pensão mensal de R$ 10 mil até a data em que os jovens completariam 45 anos (particularmente, acho que tal limite deveria ser fixado em, no máximo, 35 anos, idade na qual a maioria dos jogadores encerra a carreira). Se o Fla estivesse, de fato, disposto a pagar o dobro, o acordo poderia ter sido selado ali.

Landim afirmou, entretanto, que as negociações agora são individuais e culpou "duas advogadas" que estariam dificultando o acordo coletivo, alegando ainda que "as famílias têm necessidades distintas".

Ora bolas, sejam quais forem essas necessidades, as indenizações devem ser iguais - e negociar separadamente cheira a buscar acordos distintos que permitam pagar menos a alguns do que a outros.

Do jeito que a coisa vai, fica difícil crer em uma solução rápida e negociada, como sempre disse querer a atual diretoria. Duvido que algumas famílias não acabem buscando a Justiça e isso pode acabar custando caro aos cofres e, pior, à imagem do clube Mais Querido do Brasil.

Neymar pai e Rodolfo Landim ficaram devendo. E o mais grave é que não parecem se dar conta disso.

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