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Renato Maurício Prado


A Fifa quer é grana. E esvaziar a UEFA

Rhona Wise/AFP
Gianni Infantino, presidente da Fifa Imagem: Rhona Wise/AFP
Renato Mauricio Prado

Renato Mauricio Prado é jornalista e trabalhou no Globo, Placar, Extra, Rádio Globo, CBN, Rede Globo, SporTV e Fox Sports. Assina atualmente uma coluna diária no Jornal do Brasil. A primeira Copa que cobriu in loco foi a da Argentina, em 1978.

2019-03-18T04:00:00

18/03/2019 04h00

O novo Mundial de Clubes que a Fifa pretende colocar em prática, de quatro em quatro anos, a partir de 2021 é um monstrengo que mistura alhos com bugalhos e nada acrescenta em termos esportivos. Trata-se de mais um caça-níqueis (bilionário, é verdade) criado para substituir o torneio atual, disputado todos os anos, com os campeões de cada uma das confederações e mais um time do país-sede, fórmula que, desde a sua primeira edição, se revelou um fiasco de público e crítica.

Digam o que disserem os defensores da globalização, a verdade é que desde que a Fifa se meteu na competição a coisa desandou. Era muito mais interessante - e esportivamente relevante - o confronto direto entre o campeão europeu e o sul-americano: a velha Copa Intercontinental, patrocinada pela Toyota durante muito tempo.

No dia em que os vencedores dos torneios da África, da Concafaf, da Ásia e da Oceania formarem equipes capazes de lutar, de fato, por um título mundial, pode ser até que o atual campeonato se justifique. Por enquanto, ele atende apenas a interesses políticos da Fifa e produz uma série de partidas que não interessam a quase ninguém e, consequentemente, não geram audiência e patrocínio que as justifiquem.

O novo formato, que tem 24 participantes e aumenta o número de equipes europeias e sul-americanas é um canto de sereia. Num primeiro momento, obviamente, é sedutor imaginar um Mundial que possa ter, por exemplo, Real Madrid, Barcelona, Manchester City, Juventus, Liverpool, Paris Saint Germain, Milan e Bayern de Munique, pelos europeus, e Palmeiras, Grêmio, River Plate, Flamengo, São Paulo, Corinthians e Boca Juniors, pela América do Sul. Mas, claro, além desses, haverá um contrapeso de mais dez timecos da África, Concacaf, Ásia, Oceania etc...

Os critérios para escolha dos participantes ainda é extremamente confuso e pode gerar absurdos como reunir os campeões da Liga dos Campeões e da Libertadores dos quatro anos anteriores à competição e não os times que estão realmente em melhor momento, no ano imediatamente anterior ao torneio - como seria esportivamente desejável.

O caráter esportivo, porém, está longe de ser o que mais interessa à Fifa. O que há de mais forte, por debaixo dos panos, é uma guerra política feroz contra a UEFA e sua poderosa Liga dos Campeões, certame que rivaliza em prestígio com a Copa do Mundo - ou alguém duvida que seus times são tecnicamente superiores e, consequentemente, seus jogos melhores que os das seleções atuais?

Assim como a recém-criada Liga das Nações é uma clara tentativa de esvaziar a Eurocopa (também da UEFA), o novo Mundial Interclubes tem como principal objetivo criar uma competição que se torne mais importante do que a Champions League. Duvido que consiga. Até porque o presidente da UEFA, Aleksander Seferin, tem torcido o nariz para a ideia do presidente da Fifa, Gianni Infantino, e a presença dos europeus ainda não é certa nesta novidade.

Em tempo: se o Mundial de Clubes sair mesmo do papel serão significativamente reduzidas as chances de um brasileiro voltar a ser campeão do mundo. Uma coisa é derrotar um adversário mais rico e mais forte tecnicamente num único jogo; outra triunfar num torneio em que há vários concorrentes bem mais poderosos que o seu time.

Até nisso a coisa vai ficar mais sem graça. Mas, cá entre nós, mesmo assim aposto que não vai faltar dirigente de clube brasileiro disposto a gastar autênticas fortunas na esperança de montar uma equipe capaz de encarar os bicho-papões do velho continente de igual para igual. Sonhar vai ficar muito mais caro...

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