Topo

Coluna

Renato Maurício Prado


A encantadora volúpia de Sampaoli pelo gol

Marcello Zambrana/AGIF
Jorge Sampaoli, técnico do Santos, acompanha o jogo contra o Vasco Imagem: Marcello Zambrana/AGIF
Renato Mauricio Prado Renato Maurício Prado

Renato Mauricio Prado é jornalista e trabalhou no Globo, Placar, Extra, Rádio Globo, CBN, Rede Globo, SporTV e Fox Sports. Assina atualmente uma coluna diária no Jornal do Brasil. A primeira Copa que cobriu in loco foi a da Argentina, em 1978.

Renato Maurício Prado

2019-05-13T10:04:46

13/05/2019 10h04

Dá gosto ver o Santos de Jorge Sampaoli jogar. Seja qual for o adversário, sua volúpia para o ataque impressiona e nenhuma outra equipe no futebol brasileiro, nos últimos tempos, se mostrou tão insinuante, tão determinada e tão obsessiva na busca do gol - que é, em última análise, o objetivo maior do futebol e aquilo que leva o torcedor aos estádios.

É claro que os defensores de um estilo diametralmente oposto, aquele que se preocupa antes de mais nada em não sofrer gols, para só depois, se possível, fazê-los, dirão que os times dirigidos pelo argentino são vulneráveis na defesa e algumas goleadas surpreendentes sofridas pelos santistas no campeonato paulista corroboram tal tese.

Além disso, fervorosos seguidores da tese de que "fechar a casinha" é o mais importante têm colecionado títulos, como Fábio Carille, no Corinthians, Luiz Felipe Scolari, no Palmeiras, e Mano Menezes, no Cruzeiro. São bons treinadores? Sim, indiscutivelmente. Mas como às vezes é chato ver os seus times em ação.

Isso nunca acontece com o Santos de Sampaoli. A vítima do final de semana foi o Vasco, vencido por 3 a 0, mas que poderia ter saído com uma goleada humilhante do Pacaembu, tantas foram as jogadas criadas e as oportunidades de gol desperdiçadas nas conclusões.

É verdade que também temos por aqui alguns treinadores notadamente ofensivos como Renato Gaúcho, do Grêmio, Fernando Diniz, do Fluminense e Tiago Nunes, do Atlético Paranaense. Grêmios 4 x 5 Fluminense, foi um jogaço! Mas, normalmente, mesmo priorizando o ataque, como priorizam, nenhum dos três consegue fazer seus times jogarem tão ofensivamente e tão bonito quanto o argentino.

Na verdade, Sampaoli consegue mais que isso: tira o melhor até de atletas que até há bem pouco tempo eram contestados na Vila Belmiro, como Jean Mota, Allison, Diego Pituca e Lucas Veríssimo. Isso sem falar na liberdade que dá ao jovem e talentosíssimo Rodrygo e o elétrico Soteldo, tornando-os autênticos pesadelos de quem os enfrenta.

Não sei se Jorge Sampaoli conseguirá levar o Santos ao título brasileiro. Acho até difícil, pois o elenco é muito inferior aos de alguns adversários, como Palmeiras, Grêmio, Flamengo e Cruzeiro e isso costuma fazer a diferença num campeonato de pontos corridos. Talvez seja mais fácil ter sucesso no mata-mata da Copa do Brasil. Talvez...

Seja quais forem seus resultados, pouco importa. O estilo Sampaoli de jogar já está fazendo um bem enorme ao nosso futebol e quem diz o contrário ou é do contra, ou defende uma ridícula proteção do mercado para os treinadores brasileiros, ou detesta o estilo livre, leve e solto que já tivemos por aqui e o torcedor adora, lotando os estádios para ver.

Essa escola, aliás, já nos encantou nos tempos de Telê Santana e agora nos mata de saudade, nas transmissões da Liga dos Campeões, da Liga Europa ou da Premier League. Escola de Pep Guardiola e de Jürgen Klopp, para ficar apenas nos dois mais bem-sucedidos técnicos do momento.

Escola que, por ironia, já foi também a do técnico Vanderlei Luxemburgo, em seus bons tempos, quando conquistou cinco títulos brasileiros, jogando pra frente e priorizando o ataque em vez da defesa.

Será que ao ver o banho de bola que seu novo time, o Vasco, levou do Santos de Sampaoli, tentará implantar em São Januário, algo minimamente semelhante? O time que terá nas mãos é bem fraco, verdade. Mas se ficar se preocupando em não levar gols, em vez de fazê-los, vai ser difícil sair da lanterna onde hoje se encontra.

Mais Renato Maurício Prado