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Renato Maurício Prado


Neymar, Tite e seleção rimam com rejeição

Tite conversa com Neymar após atacante deixar o gramado na partida entre Brasil e Qatar - Ueslei Marcelino/Reuters
Tite conversa com Neymar após atacante deixar o gramado na partida entre Brasil e Qatar Imagem: Ueslei Marcelino/Reuters
Renato Mauricio Prado

Renato Mauricio Prado é jornalista e trabalhou no Globo, Placar, Extra, Rádio Globo, CBN, Rede Globo, SporTV e Fox Sports. Assina atualmente uma coluna diária no Jornal do Brasil. A primeira Copa que cobriu in loco foi a da Argentina, em 1978.

10/06/2019 11h09

A última confusão em que Neymar se meteu e seus consequentes desdobramentos só fizeram aumentar um impressionante sentimento de rejeição dos torcedores ao craque, ao técnico Tite e, por extensão, à própria seleção brasileira. Em enquete de um dia, realizada no Twitter, antes do último amistoso contra Honduras, constatei que 60% dos participantes (num universo de 3 mil votantes, todos aficionados do esporte) diziam não ter mais vontade alguma de assistir aos jogos da seleção, enquanto 35% admitiam que ainda os acompanham, mas com pouco interesse.

Em suma: às vésperas da realização de uma Copa América por aqui, 95% de rejeição num país que conquistou cinco títulos mundiais e sempre foi considerado "do futebol". Em mais uma prova desse pouco caso, apenas 16 mil torcedores compareceram à goleada sem relevância, no Sul.

Seria injusto atribuir todo esse afastamento apenas a Neymar, Tite e sua seleção de "amigos". Quem acompanha o velho e violento esporte bretão no Brasil há algum tempo sabe que esse divórcio começou lá atrás, quando o ex-presidente Ricardo Teixeira vendeu os amistosos da "amarelinha" para uma firma inglesa, que transferiu todos os nossos amistosos para o exterior, ao mesmo tempo em que nossa seleção passava a ser formada apenas por brasileiros que atuavam na Europa.

Neymar, seu indefectível pai e Tite, entretanto, têm conseguido a proeza de aumentar ainda mais esse distanciamento, com uma série de atitudes reprovadas pelo senso comum. Nem quero entrar aqui em discussões isoladas sobre a agressão ao torcedor, na França; a reação irada ao "rolinho" que um jovem jogador do Cruzeiro, lhe aplicou, num treino; ou mesmo à acusação de estupro e a divulgação de diálogos e fotos da acusadora. Mas é importante ressaltar a forma inadequada como jogador, seu pai e a comissão técnica lidaram com todos esses episódios.

1. Para tirar a braçadeira de capitão de Neymar e transferi-la para seu maior amigo e parceiro (Daniel Alves), Tite fez uma autêntica novela mexicana. Com direito a capítulos de suspense e pausas e olhares de canastrão, durante as entrevistas. Em tempo: Neymar jamais deveria ter se tornado o capitão, depois da Copa da Rússia. Erro crasso do técnico.

2. Quando o moleque de Minas meteu a bola entre as pernas do nosso camisa dez, na Granja Comary, e levou um safanão, a comissão técnica, em vez de contemporizar, tratou de afastá-lo do treino e, em seguida, envia-lo de volta ao seu clube, o Cruzeiro.

3. E em todo esse desagradável e mal explicado imbróglio de sexo, consentido ou não, em Paris, o treinador, simplesmente, bancou o avestruz e enfiou a cabeça num buraco.

4. Para finalizar, diante da contusão de Neymar (além de não só permitir, como aprovar a entrada do pai dele no vestiário, local que parentes e amigos não devem frequentar), o técnico deixou de convocar jogadores que pedem passagem e têm futuro pela frente, casos de Vinícius Jr., Dudu, João Pedro, Lucas Moura etc., para trazer de volta mais um daqueles veteranos que já fizeram duas Copas sem brilho algum: William.

Com atitudes como essas, Tite, que já foi unanimidade, vai se perdendo cada vez mais. Assim como Neymar, egocêntrico, mais preocupado em aparecer fora do que dentro de campo, e eternamente teleguiado por outra figura antipática que a sociedade passou a detestar, seu pai.

Não é de estranhar, portanto, a revolta de muita gente, levando até alguns amigos e conhecidos a anunciarem que irão torcer contra. Não acho que seja a melhor atitude, mas até a compreendo diante da teimosia do treinador e da arrogância de seu craque maior e seu progenitor, desde a fracassada campanha na Copa da Rússia.

Pode ser que as atuações de novidades como David Neres, Arthur e Richarlisson ajudem a reanimar a torcida e devolvam ao menos em parte a simpatia perdida. Pode ser até que, diante de adversários sul-americanos (que, já sabemos, não representam testes reais), a seleção triunfe e salve o emprego do treinador.

Mas que a maioria da torcida não aguenta mais o seu discurso empolado e paternalista, nem seus velhos protegidos como Thiago Silva, Fernandinho, Philippe Coutinho, William e que tais, isso é um fato. Um eventual fracasso na Copa América pode tornar sua situação insustentável. Por mais que o presidente Rogério Caboclo venha garantindo que ele ficará até o Mundial da Catar. Garantia de cartola, como se sabe, não vale muita coisa. Ainda mais contra a opinião da torcida.

Haja milagre!
Pelo que (não) jogou no Fla-Flu em que foi salvo por uma série de grandes defesas do goleiro Diego Alves, o Flamengo já mostrou ao seu novo técnico Jesus que será preciso caminhar sobre as águas, multiplicar os pães, transformar água em vinho e realizar muitos milagres mais para ressuscitar um time formado por milionários jogadores vaga-lumes. Até fazem um brilhareco aqui, outro ali, mas passam a maior parte do tempo apagados.

Errata: o texto foi atualizado
Ao contrário do que informado anteriormente, o nome do presidente da CBF é Rogério Caboclo e não Rodrigo. O erro foi corrigido.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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