Topo

Coluna

Renato Maurício Prado


De Felipe para Adenor, uma carta de alerta

Marcello Zambrana/Agif
Imagem: Marcello Zambrana/Agif
Renato Mauricio Prado

Renato Mauricio Prado é jornalista e trabalhou no Globo, Placar, Extra, Rádio Globo, CBN, Rede Globo, SporTV e Fox Sports. Assina atualmente uma coluna diária no Jornal do Brasil. A primeira Copa que cobriu in loco foi a da Argentina, em 1978.

01/07/2019 04h00

Domingo sem futebol, tirei uma boa soneca depois do almoço e psicografei uma carta de Scolari para Tite. Espero que gostem.

"Caro Adenor,

Espero sinceramente que essas mal traçadas linhas te encontrem com saúde, disposição e, sorte, acima de tudo, sorte. Vais precisar. Explico: há cinco anos vivi, também com a seleção brasileira e sem Neymar, situação bem parecida. Semifinal contra um adversário tradicional, de peso, no Mineirão. Faltavam apenas dois jogos para chegarmos ao paraíso. Mas eles nos levaram ao inferno.

Na época, após várias partidas sem brilho (fomos bem apenas contra os colombianos e penamos contra os chilenos, quando enfrentamos até decisão por pênaltis, como agora), conseguimos nos classificar entre os quatro melhores do torneio. Exatamente como te acontece neste momento. E ouvi muita gente boa dizendo, nas inúmeras mesas redondas da TV:

- Haja o que houver daqui pra frente, não se poderá mais dizer que a seleção foi mal. Sem Neymar, uma derrota para os alemães, uma das grandes forças da competição, pode ser frustrante, mas não deve ser encarada como uma catástrofe... - repetiam, solenes.

Acreditei, tentei ser ousado para surpreender os chucrutes e me dei mal. Quebrei a cara! Que ideia infeliz, começar a partida com o Bernard "alegria nas pernas", no lugar do nosso camisa dez (aliás, cá entre nós como se machuca o Neymar, hein)! No lugar dele, eu deveria ter metido mais um cabeça de área, como o Ramires, isso sim! Fui contrariar minha natureza de jogar fechadinho e no contra-ataque, deu no que deu.

Antes que tu aches que estou te agourando, me apresso a dizer que não! Muito pelo contrário. Até porque essa Argentina, que como o Brasil, também vem aos trancos e barrancos nesta Copa América, me parece absolutamente incapaz de meter uma goleada humilhante em qualquer adversário. De sete, então, duvide-o-dó. Mas o diabo é que eles têm Messi.

Não o vi brilhar até agora. Nem a história dos péssimos gramados, que o levaram a comparar a bola a um coelho, me parece justificar as atuações opacadas (aliás, andastes dando essa desculpa, também. Para!). Craque que é craque, amacia a redonda até em pasto. Cansei de ver o "negrão" fazer chover em campos de dar dó. E é aí que mora o perigo.

Não interessam as justificativas ou as análises pró e contra. O jogador sabe, melhor que ninguém, se está bem ou mal. E a "Pulga" tem consciência de que está devendo. Consegues imaginar melhor momento que este, contra nós, jogando aqui, para que ele zere a pedra e justifique a fama? Pois é. Cuidado, muito cuidado.

Acho até que, por ser um rival do tamanho do Brasil, deverás ter um jogo mais franco, o que pode te facilitar, visto que diante de retrancas teu time não tem andado nada bem. Se fosse eu, entretanto, tentaria me aproveitar disso com cautela, sem partir de peito aberto pra frente.

Já pensastes num contra-ataque deles com lançamento de Messi para a velocidade de Aguero ou Lautaro Martinez? Me dá até calafrios, mesmo estando aqui de longe. E se eles enfiarem uma bola na rede, teu time vai querer partir com tudo para virar o jogo e foi exatamente esse filme de horror que vi na minha frente neste mesmo Mineirão. Uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete vezes...

Tenho acompanhado teu martírio, desde a derrota pra Bélgica, na Rússia (achastes mesmo que era moleza ganhar uma Copa?). A impressão que tenho é que andas meio perdido e o reflexo é o que se vê em campo: insegurança da maioria dos jogadores.

Uma boa vitória sobre os argentinos e, em seguida, o título da Copa América, é a única forma de te dar um pouco de paz para tentar retomar, com sucesso, aquele baita trabalho que fizestes nas últimas eliminatórias.

Aí, recomendo que pares de falar enrolado, querendo parecer o que não és. Se quiseres, te dou umas aulas da boa e velha linguagem do Analista de Bagé. Lembra que somos gaúchos, pô! Gaúcho que se preza não fala enroladinho... Que papo é esse de "externo desequilibrante"? Eu, hein...

Muita gente acha que não gosto mais de ti, por causa do "fala muito", naquele Corinthians e Palmeiras. Bobagem. E até pra não falar demais foi que, dessa vez, resolvi escrever. Abre o teu olho, Adenor! E pensa seriamente em meter mais um cabeça de área para vigiar o ET. Se entrares muito faceiro para jogar contra ele, podes acabar num inferno como aconteceu comigo neste mesmo lugar, há cinco anos. Não te desejo tal destino.

Abraço forte do Luiz Felipe"

E aí, você acha Felipão está certo?

Mais Renato Maurício Prado