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Renato Maurício Prado


Maior vitória foi ganhar sem Neymar

Sem Neymar em campo, Tite é jogado para o alto pelos atletas após conquista da Copa América - MAURO PIMENTEL / AFP
Sem Neymar em campo, Tite é jogado para o alto pelos atletas após conquista da Copa América Imagem: MAURO PIMENTEL / AFP
Renato Mauricio Prado

Renato Mauricio Prado é jornalista e trabalhou no Globo, Placar, Extra, Rádio Globo, CBN, Rede Globo, SporTV e Fox Sports. Assina atualmente uma coluna diária no Jornal do Brasil. A primeira Copa que cobriu in loco foi a da Argentina, em 1978.

08/07/2019 04h00

Vencer a Copa América, jogando em casa, era praticamente uma obrigação. Mas com a ausência de Neymar, o título ganhou uma conotação, no mínimo, interessante. Afinal, o que mais se falava, nos últimos anos era da tal Neymar dependência na seleção. E, ao menos contra adversários sul-americanos, pode-se dizer que ela não existe mais.

Mesmo sem brilhar, o Brasil venceu o torneio com justiça. Empatou, é verdade, com Venezuela e Paraguai, fez um primeiro tempo muito ruim com a Bolívia, mas ganhou um jogo encardido contra a Argentina de Messi em sua melhor atuação. Duelo que deveria ter sido a final, não tivessem os argentinos perdidos da Colômbia, na partida de estreia.

Na decisão contra o aplicado, mas tecnicamente limitadíssimo, Peru, o time de Tite alternou bons e maus momentos, mas foi superior no todo e soube garantir a vitória, mesmo quando ficou com um jogador a menos. Em suma: não chegou a ser uma campanha empolgante (bem longe disso), mas a conquista foi, indiscutivelmente, merecida.

O que interessa a partir de agora é o futuro. E se veteranos como Thiago Silva, Casemiro e Daniel Alves continuam a se mostrar insubstituíveis a curto prazo, a Copa América serviu para revelar Cebolinha (com a camisa verde e amarela), recuperar Gabriel Jesus e consolidar Artur, além de abrir espaço para outros jovens como David Neres e Richarlisson.

Minha maior curiosidade, a partir de agora, é ver em qual posição Neymar voltará a jogar pelo Brasil. É bobagem achar que devemos abrir mão dele. E Tite já deixou claro que não pretende fazê-lo. O lado esquerdo do ataque, onde o camisa dez costuma se aventurar mais, agora está cheio de boas e jovens opções: Cebolinha, David Neres e até Vinícius Jr. O mais natural, na minha opinião, seria voltar a escalá-lo como um verdadeiro dez. No comando do meio-campo. E aí sobraria para Phillipe Coutinho.

Há quem defenda, entretanto, que ele deve atuar mais avançado, próximo à área, e aí quem deve ficar fora é Firmino, pois não vejo como barrar Gabriel Jesus após seu renascimento no torneio sul-americano. Tite optará por escalar uma equipe sem um centroavante típico? Quem sabe?

O que o treinador poderia fazer, antes de mais nada, é aproveitar o fato de a Copa América ter provado que há vida sem Neymar na seleção para tratar de enquadrá-lo às regras aplicadas aos demais. Sem regalias. Sem pai e "parças" circulando à vontade pelos hotéis, concentrações e locais de treinos e jogos do Brasil.

Poderia, mas, infelizmente, não creio que vá acontecer. Aliás, na coletiva pós-jogo, o técnico fez questão de aparecer com o netinho no colo e discursar (aproveitando-se de uma pergunta que pareceu ter sido encomendada exatamente para isso) sobre a importância da proximidade da família etc. Só faltou citar, nominalmente, Neymar pai.

Quem pode mudar tal panorama é o futuro executivo da seleção, aquele que será contratado para substituir o subserviente Edu, que está de partida para o Arsenal da Inglaterra. Fala-se muito em Juninho Paulista. Será ele capaz de se colocar, como deveria: "chefe" de Tite? Acho difícil.

As próximas eliminatórias sul-americanas, pelo que se pode ver na Copa América, serão niveladas por baixo - exatamente como o torneio que se encerrou no domingo. Uma coisa, porém, é jogar contra a Bolívia aqui, outra, bem diferente, encarar a altitude de La Paz. Idem contra Uruguai, Argentina, Colômbia etc. Devemos nos classificar? Com certeza, até porque o número de vagas é grande e pode até aumentar, se ampliarem o número de seleções no Catar. O problema não é esse.

O busílis da questão é que Copas Américas, eliminatórias sul-americanas e amistosos contra adversários fraquíssimos são, na verdade, autênticos "Me Engana Que Eu Gosto". Nos últimos quatro Mundiais, chegamos iludidos por eles e caímos feio diante de seleções europeias.

Esse é o grande desafio de Tite e, por que não dizer, do próprio futebol brasileiro, já que é cada vez mais difícil marcar amistosos contra as verdadeiras potências do velho continente. Como preparar e avaliar, de verdade, a seleção brasileira nos próximos três anos?

Bem que na próxima Eurocopa (ou Liga das Nações) podiam convidar Brasil e Argentina, como a Copa América fez com Japão e Catar... Aí, sim, teríamos um teste e uma preparação pra valer. Mas como isso não vai rolar, Tite e a CBF que se virem para arrumar adversários fortes porque se continuarmos jogando somente por aqui e contra Honduras, Jamaica e que tais, o chumbo é certo no próximo Mundial.

O futebolzinho que foi suficiente para levantar a taça no domingo passado, nem de longe se mostra capaz de levar a seleção ao tão sonhado hexa.

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