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Renato Mauricio Prado


Felipão, Löw e a cabra vadia

AFP PHOTO / ODD ANDERSEN
Imagem: AFP PHOTO / ODD ANDERSEN
Renato Mauricio Prado

Renato Mauricio Prado é jornalista e trabalhou no Globo, Placar, Extra, Rádio Globo, CBN, Rede Globo, SporTV e Fox Sports. Assina atualmente uma coluna diária no Jornal do Brasil. A primeira Copa que cobriu in loco foi a da Argentina, em 1978.

29/06/2018 18h03

Copa do Mundo rolando e os meus sonhos têm se transferido do mundo da lua para o mundo da bola. Noutro dia, sonhei com um educativo jantar de Neymar e Bruna Marquezine com o bicampeão mundial de Fórmula-1, Fernando Alonso. Ontem, porém, o cenário era outro. Em vez de um sofisticado restaurante de Moscou, um terreno baldio, em lugar incerto e mal sabido. Só sei que nele havia até a cabra vadia, aquela, das crônicas de Nélson Rodrigues.

Lá estavam também, numa noite escura, sentados em rústicos tocos de madeira, frente a frente, Luís Felipe Scolari e Jöachim Löw. Dois técnicos campeões do mundo, com as seleções de seus países; dois comandantes das equipes nacionais que protagonizaram também os maiores vexames da história do futebol de Brasil e Alemanha, em Copas do Mundo.

- Amigo, sei muito bem como você se sente agora. Receba a minha solidariedade e bem-vindo ao clube dos campeões mundiais esculachados – começou Felipão, colocando a mão no ombro do alemão.

- Pra você ver como são as coisas... Muito obrigado! Mas, espera aí, o meu vexame foi bem menor que o seu – argumentou Löw.

- Bah, tchê, menor, como? Eu tomei de 7 a 1, mas foi numa semifinal de Copa. E fomos goleados por vocês, que viriam a ser os campeões. Agora, apanhar do México e da Coréia do Sul, sendo eliminados na fase de grupos? Isso é muito pior! – indignou-se Scolari.

- Olha aqui: se nós não tivéssemos tirado o pé, no segundo tempo, vocês teriam levado a maior goleada de todos os tempos em Copas. Coisa de dez pra cima. Isso, sim, é humilhação – insistiu o alemão.

- Mas eu joguei aquele jogo sem os meus principais craques, o Neymar e o Thiago Silva. Já você passou vergonha com uma seleção campeã do mundo, completa e reforçada pelos melhores expoentes da nova geração alemã. A nata daquele time de garotos que ganhou a Copa das Confederações! – reagiu o brasileiro.

Coincidência ou não, quando ouviu o termo “Copa das Confederações”, a cabra vadia se virou para ambos e ruminou alto. E a ficha caiu pra ambos:

- Essa maldita Copa é uma caveira de burro, né? E só serve para nos enganar. Depois que derrotei a Espanha, na final das Confederações do Brasil, o país inteiro ficou convencido de que o hexa seria uma mera formalidade, em 2014. Até eu acreditei – lamuriou-se Felipão.

- É, eu também entrei nessa. Mas acho que se tivesse mantido aquela base de garotos teria me dado melhor. Fui mesclar com campeões veteranos como Ozil, Muller, Kross, Boateng e Khedira e eles não jogaram bulhufas – admitiu Jöachim.

- Mas olha que o Kross te salvou, no último minuto, contra a Suécia, hein?

- Mas não jogou rigorosamente mais nada, além disso.

A cabra ruminava, impassível, e os dois treinadores se calaram, macambúzios. Ao fundo, uma coruja piou e ouviu-se o uivo de um lobo. Já era quase meia-noite quando Scolari também fez o seu mea-culpa:

- O que me deu na cabeça pra escalar o Bernard, no lugar do Neymar? Eu deveria ter começado com mais um volante. Aí, duvido que vocês metessem sete! Pelo menos, isso...

- Eu também deveria ter mexido mais no time, depois de perder do México. Achei que tinha sido um acidente...

- O Jöachim, me desculpe, mas vocês não jogaram nada nessa Copa. Nem na vitória sobre os suecos. E a derrota para os coreanos... Deixa pra lá.

- Olha quem quer falar! E o Brasil jogou algo em 2014? Não era nem pra terem chegado na semifinal. Esqueceu da bola na trave do Pinilla?

Acabaram os dois às gargalhadas, com as críticas mútuas. Irmanados na tragédia, resolveram deixar as mágoas de lado e se abraçaram numa despedida fraternal:

- Você acha que, no futuro, seremos lembrados mais pelos títulos mundiais que ganhamos ou pelos micos que pagamos? – perguntou o brasileiro.

- Não quero te decepcionar, amigo, mas acho que a cultura alemã será mais benevolente comigo do que a paixão brasileira será contigo.

- Também acho. Mas quero te dar um último conselho.

- Diga.

- Que tal uma boa temporada no futebol da China? Se quiser, te passo os contatos do meu empresário – ofereceu Felipão.

- Manda!

E cada um seguiu o seu caminho, carregando a sua cruz. Abandonada no terreno baldio, a cabra vadia sorriu. Sim, nos meus sonhos, cabras sorriem. Não dizem que rir é sempre o melhor remédio?

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