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Renato Mauricio Prado


A pergunta que não foi feita

REUTERS/John Sibley
Imagem: REUTERS/John Sibley
Renato Mauricio Prado

Renato Mauricio Prado é jornalista e trabalhou no Globo, Placar, Extra, Rádio Globo, CBN, Rede Globo, SporTV e Fox Sports. Assina atualmente uma coluna diária no Jornal do Brasil. A primeira Copa que cobriu in loco foi a da Argentina, em 1978.

2018-07-05T14:52:59

05/07/2018 14h52

Tite deu entrevista coletiva hoje e nenhum jornalista brasileiro teve coragem de lhe fazer a pergunta (simples e direta) que não quer calar: o que mudou na sua cabeça de 2012 (quando, após um jogo entre Corinthians e Santos, disse que Neymar era um mau exemplo para os jovens e para o seu filho, por causa das simulações em campo), enfim, o que mudou na sua maneira de avaliar tal comportamento do jogador, de lá para cá?

Obviamente, a principal alteração foi que ele se tornou o técnico da seleção, onde pontifica o craque. Mas, e a sua tão decantada ética? E o seu modo de encarar o futebol e julgar o que é ou não justificável fazer em campo para ganhar? Ele foi bastante eloquente (e crítico) ao se queixar das simulações há seis anos. Seria bem elucidativo, ouvi-lo agora...

A triste constatação é que cada vez mais grande parte da imprensa se mostra domesticada, pasteurizada. Pouquíssimos se mostram dispostos a incomodar o entrevistado. Restrita a coletivas, as perguntas da maioria dos repórteres são precedidas de autênticas “teses” e rasgados elogios, para elogiar amaciar os entrevistados. O jornalismo foi jogado pra escanteio, sob a desculpa de que esportes é “entretenimento”.

Quase todos preferem posar de “parças” dos jogadores e da comissão técnica, provavelmente com medo de entrar numa lista negra em caso de conquista do hexa. Título, aliás, no qual apostam, se mostrando sempre superconfiantes, independentemente do que acontece em campo. Esse não é o papel de um jornalista.

O lado cruel disso tudo é que, podem apostar, se a seleção vier a perder, toda essa mansidão se transformará em fúria. A velha mania de chutar cachorro morto. Aí, as entrevistas se tornarão autênticas inquisições. O que é fartamente elogiado agora passará a ser motivo de críticas ferozes. E vida que segue...

Que venha a Bélgica! E que o Brasil consiga vencer, com Neymar dando show de bola, não de dramáticas e desnecessárias simulações sem sentido. Ele não precisa apelar para tais recursos (que só fazem manchar sua imagem) e Tite tem a obrigação de convencê-lo disso.

Ah, ia esquecendo: teve um que perguntou ao treinador se os jogadores treinam pênaltis, para o caso de uma decisão dessa forma!!! Pano rápido e vergonha alheia.

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