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Renato Mauricio Prado


Alma de anão

Técnico Tite posa para foto com fã na chegada ao Rio de Janeiro - AP Photo/Leo Correa
Técnico Tite posa para foto com fã na chegada ao Rio de Janeiro Imagem: AP Photo/Leo Correa
Renato Mauricio Prado

Renato Mauricio Prado é jornalista e trabalhou no Globo, Placar, Extra, Rádio Globo, CBN, Rede Globo, SporTV e Fox Sports. Assina atualmente uma coluna diária no Jornal do Brasil. A primeira Copa que cobriu in loco foi a da Argentina, em 1978.

08/07/2018 15h19

No desembarque da seleção no Rio, havia crianças, algumas até com a camisa verde e amarela, animadas para saudar a equipe, apesar da derrota. Não eram muitas, é verdade, pois a eliminação diante da Bélgica caiu como um balde de água fria na cabeça daqueles que acreditavam piamente no sonho do hexa. Ainda assim, lá estava um punhado de almas puras, ávidas para aplaudir os jogadores e, quem sabe, conseguir autógrafos ou, alegria suprema, fazer “selfies” com seus ídolos. Tite e Phillippe Coutinho posaram com uma porção de gente. Casemiro deu até entrevista. Neymar, o mais esperado, escafedeu-se ninguém sabe bem por onde e não foi visto, decepcionando a gurizada.

Dia após dia, impressiona a capacidade do principal craque do país em se fazer mais antipático, mostrando-se um poço sem fundo de ressentimento e mágoa com tudo e com todos. Até com aqueles que o adoram, caso da maioria das crianças. Será que um dia, alguém será capaz de mostrar a ele como está errado e como precisa mudar radicalmente o seu comportamento, dentro e fora de campo, para que seu excepcional talento com a bola seja devidamente aplaudido e admirado e não odiado e ridicularizado, como já começa a ser, mundo afora?

É muito difícil operar tal mudança? Não é. Basta abandonar a postura arrogante, a obsessão de aparecer a qualquer custo, a mania de exagerar teatralmente qualquer falta ou encontrão que leve em campo e, acima de tudo, aprender a conviver com as críticas. Receber elogios é mole, qualquer um gosta. Tirar ensinamentos das opiniões contrárias é que são elas. Mas ajuda a crescer.

Em uma das entrevistas mais patéticas da Copa do Mundo, Edu Gaspar se disse penalizado com Neymar porque “se ele ri é criticado e elogiado”; “se chora, é criticado e elogiado”, “se não dá entrevista é criticado e elogiado”. Ora, meu caro Edu, não precisa ser uma celebridade para conviver diariamente com linchamentos e ovações na internet. Acontece com todo mundo. E, importante ressaltar, Neymar ama o mundo virtual, quase tanto quanto o real. Então, que se acostume a viver nesse universo permanentemente dividido entre o amor e o ódio.

Como jogador virtuoso que é, o atual craque do Paris Saint Germain (será que continuará por lá ou forçará nova quebra de contrato?) tinha tudo para ser adorado pela maioria dos fãs do esporte pelo planeta. Sua alma, entretanto, parece ir se apequenando cada vez mais, lembrando a de um outro jogador brasileiro que, no momento de sua maior glória, em vez de celebrar a vitória, preferiu xingar os fotógrafos e jornalistas que registravam a cena. Falo, é claro, de Dunga, ao levantar a Copa, em 1994.

Para o seu próprio bem, não deixe que sua alma se torne a de um anão, Neymar. O verdadeiro gigante sabe vencer e, principalmente, perder. Algo que, pelo visto, você ainda precisa aprender.

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