Copa 2018

Barricadas a foliões na Vila Madalena são reflexo de "Carnacopa" de 2014

Rivaldo Gomes/Folhapress
Moradores dão recado a torcedores que lotaram Vila Madalena na Copa 2014 Imagem: Rivaldo Gomes/Folhapress

Daniel Lisboa

Colaboração para o UOL, em São Paulo

12/02/2018 04h00

Os moradores da Vila Madalena, na Zona Oeste de São Paulo, jamais esquecerão da Copa do Mundo de 2014. Não apenas pelo 7 a 1, mas também pelo fenômeno que foi chamado de "Carnacopa" e influenciou as mudanças feitas pela Prefeitura de São Paulo para o Carnaval deste ano.

Há quatro anos, sem que ninguém anunciasse ou imaginasse, uma multidão tomou as ruas do bairro boêmio assim que começou o torneio. Mais e mais torcedores, estrangeiros e brasileiros, adotaram esse hábito na medida em que a Copa avançava. Quando moradores, comerciantes e autoridades se deram conta do que estava acontecendo, o "Carnaval" fora de época já chegava a reunir 70 mil pessoas de uma vez.

Ao longo de um mês, diversas reportagens deram conta de roubos, brigas, depredação, tráfico de drogas, pessoas urinando nas ruas e gente fazendo sexo no quintal alheio.

Independente de eventuais exageros nos relatos, o "Carnacopa" foi usado como argumento por moradores e comerciantes para que a Prefeitura de São Paulo proibisse grandes aglomerações no bairro, mesmo com elas ocorrendo em um espaço público.

Edson Lopes Jr.
Folião procura blocos em programação divulgada pela Prefeitura; nenhum deles sai da Vila Madalena Imagem: Edson Lopes Jr.
A Savima (Sociedade Amigos de Vila Madalena) entrou com uma representação junto ao Ministério Público em 2014. Em grande parte como resposta às suas reivindicações, hoje já não são permitidos blocos passando pelo interior do bairro e a presença de ambulantes. A ponto de, neste Carnaval, a polícia ter montado bloqueios para impedir a entrada de foliões na Vila Madalena. E a cidade terá cerca de 550 blocos desfilando pelas ruas neste ano, segundo dados da Prefeitura.

De bairro que concentrava o Carnaval de rua até o ano passado, a Vila Madalena vive neste feriado uma espécie de "estado de exceção", segundo avaliação feita por Hélio Schwartsman, colunista do jornal "Folha de S. Paulo" e morador do bairro. "Não dá para aceitar que, em tempo de paz e sem uma emergência real, tipo incêndio ou explosão, um prefeito impeça a circulação de pessoas a pé por vias públicas, estabeleça toques de recolher e suspenda o direito de reunião. É escandaloso que moradores não possam chegar a suas próprias casas sem carregar RG e conta de luz nem receber visitas", explicou em sua coluna no jornal no último sábado (10).

Nos primeiros anos do renascimento do Carnaval de rua, ir aos blocos significava basicamente ir à Vila Madalena. Mesmo no ano passado, com a folia mais descentralizada, 67 blocos estavam oficialmente programados para desfilarem pelo bairro. 

Danilo Verpa/Folhapress
Bloco Bastardo desfila em Pinheiros nesse domingo Imagem: Danilo Verpa/Folhapress
A situação mudou com a gestão João Dória, de acordo com Cassio Calazans, presidente da Savima (Sociedade Amigos de Vila Madalena). A nova administração se mostrou mais disposta a atender as reivindicações. Hoje, os blocos mais próximos partem do bairro vizinho de Pinheiros e passam apenas por grandes avenidas como a Faria Lima.

Vida "insuportável"

Todas essas mudanças começaram com o inquérito instaurado pelo Ministério Público de São Paulo logo após o "Carnacopa". O documento menciona "a insuportabilidade da vida comum na Vila Madalena em virtude de ter se tornado o bairro reduto da boemia, vida noturna com inúmeros bares, restaurantes e, recentemente, palco de acontecimentos amplamente noticiados pela imprensa em relação à Copa do Mundo".

A Vila Madalena, porém, tem muitos bares pelo menos desde a década de 90, e reportagens publicadas logo após a Copa 2014 mostram que o "Carnacopa" não prejudicou seus faturamentos. Ao contrário: o movimento foi 80% maior durante o torneio, conforme dados divulgados pela Prefeitura de São Paulo, na época comandada por Fernando Haddad.

Danilo Verpa/Folhapress
Torcida invadiu bairro paulistano em 2014 e alarmou moradores e autoridades Imagem: Danilo Verpa/Folhapress
"Depois do que aconteceu na Copa de 2014, veio o Carnaval. E a molecada que não tinha grana pensou o quê? Vamos para a Vila Madalena ficar na rua!", diz Calazans, presidente da Savima.

"O bairro todo virou uma arena de eventos, com moradores ilhados. Depois fizemos uma pesquisa e descobrimos que mais de 80% das pessoas que vinham à Vila Madalena no Carnaval não iam a bloco nenhum. Vinham para fazer balada na rua", explica. "Na época, o cheiro de urina ficava embrenhado na mente e na alma das pessoas que viviam aqui durante um mês e meio", lembra.

Nova invasão à vista?

O inquérito "pós-Carnacopa" foi o chute inicial para limitar a folia no bairro, mas Calazans lembra que pelo menos outros dois inquéritos foram abertos no Ministério Público até que as medidas fossem atendidas pela gestão João Dória.

Outra mudança então requisitada por moradores e comerciantes da Vila Madalena, com efeitos sentidos este ano, é a proibição da extensão do Carnaval em bairros residenciais. "A festa deve se limitar aos seus quatro dias oficiais", diz Calazans.

Uma nova Copa do Mundo se aproxima e, apesar de não ter as particularidades daquela disputada no Brasil, fica a pergunta: a Vila Madalena teme por um "Carnacopa, o retorno"?

Por meio de sua assessoria de imprensa, a Prefeitura de São Paulo diz que eventuais medidas para evitar que isso aconteça por enquanto estão na mão do Ministério Público. Mas confirmou que as mudanças no Carnaval podem, sim, servir de parâmetro para evitar uma nova invasão à Vila Madalena.

"O grande teste será o Carnaval, apesar de o pré-Carnaval normalmente ser pior", diz Calazans. Ele cita a "concorrência desleal" dos ambulantes com o comércio local e afirma que, para a próxima Copa, a ideia é manter justamente determinações como a proibição da venda de bebidas na rua. "Nada contra ambulantes, mas, quando vêm para a Vila Madalena, acabam atraindo gente. Você manda um WhatsApp e muita gente fica sabendo, é rápido demais", argumenta.

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