Copa 2018

Um dos bairros mais perigosos de Moscou é "fichinha" perto do Brasil

Daniel Lisboa e Vinicius Mesquita

Do UOL, em São Paulo e Moscou (Rússia)

16/02/2018 04h00

O bairro de Chertanovo do Norte certamente não está entre os mais belos de Moscou. Seus gigantescos e acinzentados prédios de apartamentos remetem ao imaginário sobre a era soviética, e alguns deles estão claramente degradados.

Também vê-se mendigos aqui e ali, mas, em geral, quase nada no bairro se encaixaria nos padrões brasileiros de uma área perigosa ou decadente. Chertanovo é arborizado, relativamente limpo, com pessoas caminhando e jogando bola durante o dia. As estatísticas, porém, já o colocaram entre os bairros mais “barra pesada” de Moscou, criando uma fama que ainda persiste entre moradores da cidade.

Em 2011, Chertanovo estava oficialmente no topo da criminalidade da capital russa. Registrava em média de 15 a 20 ocorrências policiais por dia. O número caiu bastante em 2016, quando o bairro registrou cerca de quatro crimes por dia. Mas, como estatísticas policiais na Rússia são pouco confiáveis e confusas, fica difícil saber com exatidão qual é a situação hoje.

Os dados oficiais dizem que, em 2016, Chertanovo teve 649 ocorrências “pouco graves” e 212 ocorrências “graves”. O que significa “pouco graves” e “graves”, entretanto, é um tanto obscuro.

Entre as graves, homicídios e tentativas de homicídios, por exemplo, costumam aparecer juntas nas estatísticas oficiais. Além disso, existe um certo consenso, em especial entre analistas internacionais, de que os números apresentados pelas autoridades russas sofrem algum tipo de “maquiagem”.

Brasil é muito mais violento

Desconfianças à parte, brasileiros que forem à próxima Copa do Mundo encontrarão uma cidade relativamente segura. Na verdade, extremamente segura quando comparada às metrópoles brasileiras. O nível de criminalidade do Brasil é tão alto que nem eventuais manipulações de dados na Rússia escondem o abismo entre os países.

Moscou registrou oficialmente 315 homicídios ano passado. São Paulo, por exemplo, teve 962 homicídios entre julho de 2016 e junho de 2017, de acordo com levantamento da Folha de S.Paulo que levou em conta também os homicídios culposos e compilou dados da Secretaria de Segurança Pública, UNODC (Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crimes) e Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2016. Os números deixam a capital russa com uma média aproximada de 2,6 homicídios para cada grupo de 100 mil habitantes, contra 8,5 da capital paulista.

Uma diferença grande, que fica muito maior quando a comparação é feita com outras capitais brasileiras: Fortaleza tem 63,7 assassinatos para cada 100 mil habitantes; São Luís tem 60,9, e Manaus, 52,8.

Outros tipos de crimes também fazem Moscou parecer um oásis de segurança na comparação com São Paulo. A cidade registrou 4466 roubos e 124 estupros em 2017, enquanto a metrópole brasileira fechou 2016 com 159.557 roubos e nada menos que 1384 estupros só entre janeiro e julho de 2017. Os números são da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo.

A distância se mantém no âmbito nacional. O Brasil registra cerca de 27,2 homicídios para cada grupo de 100 mil habitantes, enquanto a Rússia, ao menos ao se computar os números oficiais, tem índice em torno de 7 para cada 100 mil habitantes.

Índice de assassinatos já foi altíssimo

“É importante salientar, porém, que as diferenças entre as regiões mais ricas e mais pobres da Rússia é gritante”, diz Vicente Ferraro Junior, do Laboratório de Estudos da Ásia da Universidade de São Paulo (USP). “Os maiores índices de violência estão em algumas regiões da Sibéria e do extremo oriente. Elas eram sustentadas pelo governo central na época da União Soviética. Com seu fim, passou a ter altos índices de alcoolismo, desemprego e suicídio”, explica Ferraro.

O especialista lembra também que, neste período logo após a desintegração da União Soviética, a Rússia passou por um momento de “caos” e os homicídios explodiram. Nesta época, a república de Tuva, na Sibéria, chegou a registrar índices de 137 homicídios para cada 100 mil habitantes.

“Essa queda na criminalidade é uma das coisas que explicam a alta popularidade do governo Putin. Existe a ideia de que ele pôs ordem na casa”, diz Ferraro. Uma reportagem da revista britânica “The Independent” de julho de 1993 traz o seguinte título: “Índices de homicídio da Rússia estão entre os piores do mundo”.

Ferraro não é apenas especialista em Rússia. Como alguém que morou no país durante três anos (dois em Moscou e um em uma pequena cidade perto da Ucrânia), está apto também a dar sua opinião pessoal: um brasileiro se sente seguro lá?

Mladen Antonov/AFP
Policiais russos em estação de metrô de Moscou Imagem: Mladen Antonov/AFP
Cuidado com bêbados brigões

“Na comparação com o Brasil, minha sensação de segurança era muito maior. Não tinha preocupação com assaltos, e muito raramente escutava alguém comentar algo sobre isso”, conta Ferraro. “Eu já tinha sido assaltado no Brasil algumas vezes, enquanto meus colegas de lá jamais tinham sido assaltados na vida.”

O estudioso acredita que o brasileiro pode ir tranquilo à Rússia assistir à Copa. Seu único porém é em relação a bares e a caminhar na rua durante a madrugada. Os russos em geral bebem bastante e brigas envolvendo pessoas alcoolizadas são comuns no país. “Além disso, ainda existe o fenômeno dos skinheads. É menor que nos anos 90, mas é possível que você acabe se envolvendo em uma briga sem procurar por ela.”

Mas, afinal, o que significa exatamente “sensação de insegurança”? Tem relação com a suposta realidade fria das estatísticas? Pessoas abordadas pelo UOL Esporte em Chertanovo mostraram-se surpresas quando questionadas sobre a fama do bairro.

“Existem quatro aspectos principais relacionados com a sensação de insegurança”, explica Marcelo Nery, pesquisador do NEV (Núcleo de Estudos da Violência da USP). “O primeiro diz respeito a qual violência estamos nos referindo. Você pode ter medo de sofrer um estupro, um homicídio, um roubo. Outro aspecto fundamental é a característica do indivíduo: se é homem, mulher, jovem, idoso, se tem alta ou baixa renda. Pessoas mais velhas, por exemplo, costumam sentir mais insegurança que jovens”.

Pessoa "se acostuma" à violência

O terceiro aspecto está relacionado, segundo Nery, com o lugar onde está a pessoa. “Às vezes, a pessoa tem a percepção de estar em um lugar inseguro, mas, se essa percepção se estende por um período longo, ela acaba naturalizando aquela condição. Assim, um lugar que aos olhos de terceiros é violento, não o é para alguém que o vive no cotidiano.”

Por fim, o especialista cita a ideia de “feeling real” de insegurança. Uma coisa é o que dizem as estatísticas sobre um bairro. Outra, aquilo que seus moradores de fato sentem. “Se a mídia divulga em um certo momento um crime específico, as pessoas se sentem inseguras mesmo que aquele, na verdade, não seja um crime recorrente naquele momento e lugar.”

De acordo com Embaixada Brasileira em Moscou, não há número significativo de ocorrências policiais envolvendo turistas brasileiros na Rússia. "Temos uma estimativa de cerca de cinco ocorrências por ano, quase todas envolvendo batedores de carteira em São Petersburgo. A Rússia é um país muito seguro para turistas e, embora os batedores de carteira sejam um problema real em São Petersburgo, ainda operam em volume muito menor que o verificado em grandes capitais europeias, como em Paris ou Londres. Recomendamos aos turistas que tenham cuidado com seus pertences pessoais, especialmente quando utilizarem o transporte público", disse o órgão por meio de sua assessoria de imprensa. 

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