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O que passa na cabeça de um atleta após uma lesão como a de Neymar?

REUTERS/Stephane Mahe
Neymar sofre lesão na partida entre PSG e Olympique de Marselha Imagem: REUTERS/Stephane Mahe

Daniel Lisboa

Colaboração para o UOL, em São Paulo

13/03/2018 04h00

Um dos jogadores mais badalados e midiáticos do mundo se contunde pouco antes da mais importante partida de seu clube até então, e há pouco mais de cem dias da Copa do Mundo.

Aos 26 anos, Neymar está passando, provavelmente, pelo momento mais difícil da carreira. O que será que passa pela cabeça dele? Como é difícil para alguém que não é atleta profissional compreender este cenário, o UOL Esporte procurou três especialistas em psicologia e comportamento em esportes.

Suzy Fleury, Nell Salgado e Katia Rubio têm longa experiência no assunto. Nenhuma das três trabalhou com Neymar, mas todas já trataram, ou tratam, de atletas em situações semelhantes. E, por mais que a personalidade de cada um influencie na maneira de encarar a situação, há medos, anseios, e modos de tratá-los, comuns a este tipo de “paciente”.

“Cada cabeça é diferente. Alguns atletas são mais otimistas, outros mais inseguros. No caso do Neymar, ele parece ser alguém de perfil otimista. Tem todo um entorno que passa a confiança de que ele trabalha com os melhores profissionais”, diz Suzy.

A psicóloga e coach esportiva, que tratou Philippe Coutinho recentemente, lembra também que a gravidade da lesão pesa para uma maior tranquilidade, ou não, do atleta. “Fosse uma lesão do mesmo nível que a do Ronaldo antes da Copa de 2002, haveria uma expectativa de recuperação em um prazo muito mais longo. Afetaria a preparação para a próxima Copa. Não é o caso.”

A especialista vê, então, um conjunto de fatores teoricamente favoráveis ao jogador do PSG. Seu biotipo e qualidade técnica também devem, à princípio, jogar a favor. “Um atleta precisa entender que existem coisas que estão sob seu controle. Como seguir o tratamento. Agora, aquilo que o mundo exterior exige dele, isso ele não pode controlar”, diz Suzy ao se referir, por exemplo, às demandas da torcida.

“Mas é preciso lembrar que, toda vez que existe uma dobradinha entre a importância de uma situação e a incerteza de voltar, caso do Neymar, o emocional do atleta fica sob pressão”, diz a psicóloga. “Os atletas que aprendem a neutralizar a ansiedade lidam melhor com isso. Senão, o emocional os deixa vulneráveis. É exatamente esse tipo de técnica que aplicamos. Um atleta numa situação de insegurança precisa focar naquilo que interessa de fato, eliminar aqueles pensamentos flutuantes que o fazem, por exemplo, lembrar de uma lesão passada".

Paulo Whitaker/Reuters
Para especialistas, positivismo de Neymar deve ajudar na questão psicológica Imagem: Paulo Whitaker/Reuters

Para Nell Salgado, especialista em coaching esportivo e responsável pelo trabalho de recuperação emocional da judoca Rafaela Silva após as Olimpíadas de Londres 2012, "o mais difícil em um momento como esse é segurar a ansiedade do atleta. Precisamos trabalhar em conjunto com toda a equipe ao redor dele para que ele entenda exatamente o que está acontecendo. O subconsciente é terrível”, diz Nell, que hoje tem treze jogadores de futebol como clientes. Entre as “peças” que o subconsciente costuma pregar no atleta está, por exemplo, sobre o seu futuro no time. A especialista conta que é comum jogadores ficarem preocupados em perder o lugar para um companheiro que entrou bem na posição.

“Ao mesmo tempo em que o jogador torce a favor, ele tem uma insegurança”, explica Nell. “Por isso, a primeira coisa que trabalhamos com um atleta contundido é a ansiedade. Ele precisa viver um dia de cada vez, não pular etapas, porque isso só vai dificultar a volta".

Outro ponto importante para o atleta, segundo Nell, é enxergar sinais de que ele realmente está melhorando. “É preciso ter evidências concretas de que o jogador está evoluindo dentro do tratamento. Senão, como qualquer ser humano, ele começa a achar que não está valendo a pena".

Isso não significa, porém, que seja simples mostrar tais evidências. Nell conta que situações de desânimo são frequentes. “É a ansiedade de novo. O ser humano está o tempo todo ou no passado, ou no futuro. Temos que puxar o indivíduo para o presente, para o que é preciso fazer hoje.”

Nell acredita ainda que atletas que já passaram por lesões anteriores, como Neymar na Copa 2014, podem, em alguns casos, lidar melhor com a situação. “Ele já passou por aquilo e tem a crença de que é capaz de passar de novo.”

Katia Rubio avalia que Neymar pode enfrentar a situação tanto de uma maneira afetiva – ou seja, se lamentando por seu destino – quanto objetiva. “Neste caso, ele precisa se perguntar o que ele precisa fazer. Ser operado? Fazer doze horas de fisioterapia por dia? Passar por um treinamento mental?”, diz a psicóloga.

Para ela, a dor de uma contusão e de seu processo de recuperação exerce um papel importante sobre a psique do atleta. “Há dois tipos de dor muito específicas. Tem a dor cotidiana, aquela que inclusive indica que um treinamento foi bom. É como aquela dorzinha que sentimos depois da academia. Já a dor de uma lesão é complicada de lidar porque envolve não apenas um incômodo: envolve todo um fantasma, uma sombra. Traz o medo, por exemplo, da perder um patrocínio, uma Copa do Mundo, de não voltar a jogar como antes”, explica Katia.

“Quando o Ronaldo estava na Inter de Milão, foi destacado um psicólogo para trabalhar com ele durante a recuperação. Foi o próprio clube que fez isso. Tem que ver se a CBF vai ter a sensibilidade de fazer o mesmo com o Neymar”, diz Katia.

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