Copa 2018

Em Portugal, ninguém entende por que Jonas não está na seleção brasileira

Lucas Figueiredo/MoWA Press
O atacante Jonas na partida entre Brasil e Panamá, em maio de 2016 Imagem: Lucas Figueiredo/MoWA Press

Marcus Alves

Colaboração para o UOL, em Lisboa (POR)

27/03/2018 04h00

Em uma segunda-feira, o médico António Martins, responsável por operar todos os jogadores do Benfica, virou-se para Jonas e sentenciou: “Tenho de abrir o seu pé o mais rapidamente possível".

A frase é forte, mas dá a ideia da gravidade do problema que o atacante de 33 anos enfrentava na última temporada, quando uma infecção quase abreviou a sua carreira de forma precoce. Faz tão pouco tempo e, por isso, impressiona ainda mais o que o brasileiro tem conseguido fazer nos últimos meses, acumulando 34 gols e seis assistências em 38 partidas.

Ele atropela recordes, deixa até mesmo a lenda Eusébio para trás e assusta: em 27 rodadas do Campeonato Português, balançou as redes em 22. É a sua liga particular. Não resta dúvida de que está recuperado. O que ninguém em Portugal consegue "engolir", no entanto, é a ausência de Jonas na seleção brasileira.

Com Tite ainda atrás de um centroavante de ofício, havia a expectativa de que Jonas pudesse, enfim, receber uma chance nos últimos testes antes da convocação final para a Copa do Mundo deste ano. No fim das contas, Willian José, da Real Sociedad, foi o escolhido pelo treinador para os amistosos contra Rússia e Alemanha.

Em meio ao clamor público entre os europeus, até o Benfica tomou partido e, e em uma publicação no início de março, postou um emoji seguido pela pergunta: “Jonas na seleção?”

Na semana passada, enquanto Willian José se apresentava em Moscou, Jonas era eleito pela quinta vez consecutiva o melhor jogador do mês do Português e, em evento com os destaques de 2017 do Benfica, recebia o prêmio de Atleta do Ano. Pistolas, como acabou sendo batizado entre os torcedores por causa da pontaria afiada, sempre se mostrou pés no chão, mas, claro, ainda mantinha uma dose de esperança em torno do Mundial.

“Talvez a família tenha tido mais expectativa do que ele”, conta Tiago Gonçalves, irmão e procurador do artilheiro, ao UOL Esporte. “Ele sempre foi tranquilo nesse aspecto. Quem o conhece, não se impressiona, é o jeito dele, sabe que está muito bem onde está, essa é a regra principal. Se viesse a ser convocado, seria ótimo. Ele acompanha muito futebol, sabe que Tite tem opções em abundância, mas não havia sido chamado nenhuma vez. A gente vê comissão técnica indo ver jogo de outros pela Europa e nunca falaram nada dele ou no Benfica”, prossegue.

Não é apenas pelos 34 gols

Com a diferença de dois pontos para o Porto na briga pela liderança local e para manter acesa a esperança do pentacampeonato português, Jonas não pode esmorecer. Ele tem sido o propulsor da reação do clube no campeonato após um início de temporada desolador, que incluiu eliminação da Liga dos Campeões com a pior campanha de sua história na fase de grupos.

“O meu irmão não está só num momento legal, sou suspeito para falar, ele é o artilheiro do Português com 31 gols, repetem... Mas, não, cara, não é só isso, ele está batendo recordes no Benfica, um atrás do outro. Proporcionalmente ao tempo que está em Lisboa e o que fez, são quatro temporadas fantásticas, somente em uma delas se machucou e perdeu metade. Então, não é apenas agora está bem”, analisa Tiago Gonçalves.

“A gente sabe que o Inglês é outro patamar, o Espanhol não se fala. Até pouco tempo atrás, a regra da Chuteira de Ouro dava peso de 1,5 para cada gol em Portugal e, na França, 1. Hoje, inverteu. Mas não vejo muita diferença, tem o PSG fora da curva, valoriza mais. Porém, Portugal é o atual campeão europeu”, completa.

Em entrevista coletiva recente, o técnico do Benfica, Rui Vitória, admitiu não compreender a ausência de Jonas da seleção. “Estranho? De certa maneira, sim”, respondeu, evitando ao máximo criticar as escolhas feitas por Tite para a sua linha de frente.

Nas mesas redondas televisivas e nas capas dos jornais portugueses, o atual momento do brasileiro e a falta de uma oportunidade por seu país também estão no centro da discussão. Projetou-se até um mesmo cenário hipotético caso ele pudesse jogar por Portugal.

China? Nunca chegou nos valores desejados 

Xinhua/Zhang Liyun
Imagem: Xinhua/Zhang Liyun

Nada disso, no entanto, altera os planos atuais. Com contrato até junho de 2019, Jonas não descarta uma mudança de ares, porém, seria necessário quebrar a banca para tirá-lo da Luz nos próximos anos.

Até aqui, foram três ofertas da China recusadas. Tiago Gonçalves reproduz o seu discurso diante do assédio recorrente. “Se chegar nisso (nesses valores), não tem como, eu vou. E não chegou nesse patamar de valores. Nunca disse ‘pode vir o que quiser, não vou’. Mas, se não é possível (um acordo), segue o jogo, estou muito bem aqui”, descreve.

“O Jonas sair do Benfica não é impossível, mas não é fácil. O mercado chinês, por exemplo, é loucura? Depende. Se for para ficar um ou dois anos lá, ele prefere quatro no Benfica. Mas podem dizer que os chineses pagam mais. No entanto, o meu irmão controla a vida financeira, pode deixar de gastar algo e ficar feliz (em Lisboa). Ele se prepara para parar desde que começou, tenta regrar vida pessoal para que tenha liberdade de dizer sim ou não e não dizer sim somente por causa do financeiro”, continua.

“O futebol português veio como uma luva para ele. Tem que ser racional, e ele é de sobra nesses momentos”, finaliza.

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