Copa 2018

Marrocos arma Copa em raio de 550 km e com plano "anti-elefantes brancos"

Getty Images
Marroquinos concorrem com a candidatura tripla de EUA, México e Canadá; eleição acontece em 13 de junho Imagem: Getty Images

Bruno Freitas*

Do UOL, em Casablanca (Marrocos)

06/04/2018 04h00

Possivelmente Marrocos é hoje a nação mais ousada do mundo do futebol. O pequeno país no norte da África se lançou no sonho de receber a primeira Copa da história com 48 equipes, com a campanha pelo evento de 2026. Mas muito além de provar de que tem condições de organizar a competição esportiva mais complexa dos últimos tempos, os marroquinos precisam derrotar a favorita da eleição que acontece em junho: a candidatura tripla de Estados Unidos, México e Canadá.

Neste desafio, Marrocos preparou uma candidatura que impressiona pelo perfeccionismo técnico (são mais de 200 mil páginas de dossiê), mas que acima de tudo prioriza interesses da Europa, o bloco politicamente mais influente do futebol internacional. De quebra, o material de apresentação tenta sensibilizar a Fifa com promessas de maximizar os lucros da entidade. 

A sede da Copa de 2026 será conhecida em 13 de junho, na eleição prevista para o congresso da Fifa, na Rússia. Recentemente a entidade modificou seu sistema de votação, em nome da transparência – agora todas as 211 federações nacionais filiadas têm direito a voto, substituindo o modelo que restringia o pleito a um comitê de dirigentes (eram só 25 eleitores). Assim, contando com 54 nações africanas e o apoio de lideranças regionais relevantes como russos e chineses, Marrocos confia que pode surpreender.

O país do norte da África já teve quatro tentativas para receber a Copa derrotadas (1994, 1998, 2006 e 2010). Desta vez tenta superar a candidatura encabeçada pelos americanos com um conceito de Mundial mais barato e sem extravagâncias. Para isso, conta com a bagagem de executivos estrangeiros que participaram da vitória do Qatar pelo torneio de 2022 e pelo sucesso da escolha do Rio como sede olímpica de 2016.

O UOL participou de uma apresentação da candidatura a representantes da imprensa internacional na última semana. Abaixo seguem destaques e dilemas do sonho marroquino por 2026.

Bastidores: receio da proximidade Fifa-EUA

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Projeto de estádio para 93 mil torcedores em Casablanca: possível palco da final em 2026 Imagem: Divulgação

O Mundial de 2026 será o primeiro a ter a sede escolhida após o escândalo de corrupção que afastou de cena uma série de dirigentes, incluindo o ex-presidente da Fifa Joseph Blatter. Apesar da mudança no modelo de votação, Marrocos teme que a efervescência política de bastidores siga no velho ritmo da entidade – ou seja, com nuances obscuras. O discurso oficial prega confiança na lisura do processo de escolha, mas o temor aflora nos papos informais.

O sentimento marroquino é de que uma suposta boa vontade da Fifa com os americanos possa influenciar a eleição. Neste temor reside a lembrança de que o suíço Gianni Infantino foi eleito à presidência da entidade em 2016 com apoio dos EUA.

"Aceitamos ser derrotados dentro do espírito do esporte. Mas estou otimista com a nossa candidatura, com a nossa experiência em quatro candidaturas anteriores. Se o aspecto técnico for considerado prioritariamente, nossa candidatura é muito competitiva. Acreditamos que a eleição ocorra dentro de valores de igualdade, de equilíbrio. Os valores da Fifa", afirmou Moulay Hafid Elalamy, presidente do comitê de candidatura e ministro do comércio de Marrocos.

Por outro lado, os membros da candidatura marroquina dizem esperar seguir contando com as trapalhadas diplomáticas do presidente Donald Trump até a data de votação, para quem sabe ver comprometida a imagem internacional dos adversários. "Temos um homem trabalhando por nossa candidatura dentro da Casa Branca. Enquanto ele estiver irritando pessoas será útil", disse um executivo, em tom de brincadeira. 

Copa para agradar europeus e lucros para Fifa

Existe um fator estratégico que pode conferir vigor à candidatura marroquina: o esforço para privilegiar interesses dos europeus. A proximidade a nações relevantes do Velho Mundo tende a favorecer deslocamento de torcedores e suavizar preparações de equipes, por exemplo. 

Reprodução
Distâncias entre as cidades-sede em Marrocos Imagem: Reprodução

Contra uma candidatura continental como a da América do Norte, os marroquinos oferecem logística mais simples e uma localização geográfica central – são 11 países com voos dentro de um raio de 3 horas de Marrocos e 47 nações numa distância máxima de 5 horas pelo ar.

Ainda segundo o dossiê da candidatura, a Copa seria disputada num mesmo fuso horário, máximo de três horas em comparação com Europa, Oriente Médio e Brasil. De quebra, todas as cidades-sede estão localizadas no máximo a 550 km de Casablanca, o epicentro do Mundial (ou 3h50 por estrada).

Na apresentação a jornalistas estrangeiros, Moulay Hafid Elalamy destacou o trecho em que Marrocos promete ganhos financeiros turbinados para a Fifa. Segundo o executivo, o aumento de lucros se concretizaria principalmente através de três fatores: 1) a redução de custos operacionais em uma Copa em território pequeno; 2) um estudo sobre elevação de audiência de TV graças aos horários pró-Europa, com direitos de transmissão potencializados; 3) e uma nova configuração para venda de ingressos.

Os representantes de Marrocos contrataram a Vero Communications, agência baseada em Londres, para ajudar na execução da candidatura. A empresa traz no currículo como maior façanha a vitória do Qatar pela Copa de 2022.

Promessa de não torrar dinheiro com o evento

A candidatura marroquina também promete se distanciar das últimas edições da Copa em mais dois conceitos. Primeiro, oferecendo à Fifa um torneio com alta aprovação popular, ao contrário da experiência complexa no Brasil em 2014 – citada na explanação à imprensa de Moulay Hafid Elalamy. Os norte-africanos encomendaram uma pesquisa interna que indica 97% de aceitação entre os 35 milhões de habitantes do país.

Divulgação
Projeção da Fan Fest em praia de Casablanca Imagem: Divulgação

Mais importante, o Marrocos assegura que o orçamento de 2026 não contempla especificamente o investimento para a Copa. A candidatura prevê injeção total de US$ 15,8 bilhões, sendo que a maior parte já está incluída num projeto de modernização nacional independente do torneio – com melhorias de estradas, ferrovias, aeroportos, etc. 

"Não vamos modificar a estrutura inteira de um país em razão de um evento como esse. A maior parte do investimento faz parte de um projeto nacional de modernização de infraestrutura, que aconteceria independentemente da Copa. São US$ 14 bilhões que virão com ou sem a Copa", afirmou Elalamy, presidente do comitê de candidatura.

Planejamento contra "elefantes brancos"

Nos argumentos de candidatura, os marroquinos citam edições recentes da Copa do Mundo, principalmente os torneios de África do Sul e Brasil, para prometer que não terão “elefantes branco” (estádios caros subutilizados) como heranças após a competição. 

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Imagem: Reprodução

O planejamento para 2026 apresenta 14 estádios, sendo que duas cidades contarão com duas arenas cada uma: Casablanca e Marrakech – com destaque para o suntuoso projeto do Grand Stade, para 93 mil torcedores. As demais sedes serão a capital Rabat, além de Agadir, El Jadida, Fez, Meknes, Nador, Ouarzazate Oujda, Tânger e Tetouan.

A organização prevê a diminuição de capacidade de parte das arenas após a Copa, em nome de seu aproveitamento na realidade marroquina de esportes e entretenimento. Os chamados estádios modulares contarão com estruturas provisórias e desmontáveis para o Mundial, em caso de vitória na eleição.

Como noticiou o blog do jornalista Rodrigo Mattos na última quarta-feira, a Fifa criou uma regra contra "elefantes brancos" após a Copa de 2014 no Brasil. Para isso, a entidade conta com um cálculo científico que considera a população local e média de público em campeonatos domésticos. O indício de estádios fora dos padrões exigidos pode acarretar na eliminação da candidatura. 

Toda a estrutura disponível e suas projeções correspondentes serão avaliadas por uma comissão da Fifa em meados de abril. Esta é considerada uma etapa-chave do processo, pois o grupo de avaliação de cinco integrantes tem o poder de eliminar a candidatura mesmo antes da votação de 13 de junho, em caso de deficiências técnicas.

Distância de terrorismo e índice "japonês" de segurança

O dossiê da candidatura marroquina também procura expor uma contradição social com os adversários americanos. O país africano conta com um dos índices de violência social mais amenos do continente e exalta no documento a ameaça limitada de crimes com armas de fogo.

Segundo o dossiê, Marrocos é um dos países mais seguros do planeta, com baixas taxas de criminalidade (3 homicídios para cada 100 mil habitantes) e mínima circulação de armas – com índices de violência no patamar de nações como Japão e Dinamarca. 

O país vive um cotidiano distante de atividades terroristas, apesar da proximidade geográfica com atores importantes deste cenário em particular, tanto europeus como árabes. Nos últimos dez anos, um único episódio do gênero aconteceu em Marrakech, em 2011, sem mortos (apenas 17 feridos).

Numa análise geral, no entanto, o Marrocos ocupa apenas a posição 126 no ranking de IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), medida internacional usada para classificar o nível de vida em países do mundo. Na atualização mais recente desta relação, o Brasil aparece no 75º lugar, por exemplo. Os candidatos por 2026 também são superados na lista por uma série de vizinhos africanos, como Argélia, Tunísia, Egito e Líbia.  

Veja abaixo o vídeo promocional da candidatura de Marrocos:

*o repórter viajou a convite da candidatura de Marrocos à Copa de 2026

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