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Brasileiro não sabe perder e nega seu trauma, diz psicanalista sobre 7 a 1

Arquivo pessoal
Para Christian Dunker, brasileiro tratou derrota histórica como algo desimportante e "deslocou" sua raiva Imagem: Arquivo pessoal

Daniel Lisboa

Colaboração para o UOL, em São Paulo

10/04/2018 04h00

O Brasil está traumatizado. E, ao invés de deitar no divã e discutir seu trauma, prefere se comportar como estivesse tudo bem. Em linhas gerais, essa é a opinião do psicanalista Christian Dunker sobre a maneira como o país tem lidado com a derrota na última Copa.

“O 7 a 1 tem uma das características fundamentais de um trauma: algo só é verdadeiramente traumático se ocorrer em dois tempos. A eficácia de um trauma depende de alguma ligação com um ponto anterior. Por isso dizemos que na verdade se trata de um ´retrauma”, diz o psicanalista.

Professor da USP, dono de um canal no YouTube e vencedor do Prêmio Jabuti de literatura em 2012 (na categoria Psicologia e Psicanálise), Dunker gosta de assistir futebol, falar sobre futebol e analisar futebol.

Negação do trauma

E, se você pensou no "Maracanazzo" ao ler a análise dele, acertou. Para o psicanalista, a derrota para a Alemanha se conecta com aquela outra, também em casa, em 1950. Foi como se a derrota no Mineirão transportasse automaticamente o torcedor brasileiro para as recém-construídas, silenciosas e melancólicas arquibancadas do Maracanã pós-derrota para o Uruguai.

“Geralmente pensamos que, ao sofrermos um trauma, vamos ficar falando sobre ele. Mas não foi o que aconteceu depois do 7 a 1. Na verdade, foi um tremendo silêncio”, avalia Dunker.

Para ele, ao invés de passar por um processo de luto, e depois de reflexão, o que o Brasil fez foi partir para a negação da catástrofe. “A derrota para a Alemanha mostrou algo muito brasileiro: nós não sabemos perder”, diz Dunker. O psicanalista explica que, se o Brasil fosse um paciente no divã, seu tratamento ideal teria consistido em enfrentar o trauma, absorver seu significado e refletir com ele para tentar evoluir de algum modo.

“É como quando alguém morre em uma cidade do interior. Há um concílio, junta todo mundo para falar sobre o morto. O Brasil não teve isso”, acredita o psicanalista. Ele acredita que o equivalente futebolístico desse concílio teria sido um grande debate nacional, com dirigentes, técnicos e imprensa indo a fundo sobre as causas daquela que foi, na visão de muita gente, a maior derrota da história do futebol.

Fazer piada não significa superar

As consequências dessa incapacidade de enfrentar o trauma não se restringem ao campo. Dunker lembra que, ao estimular as feridas abertas há 68 anos, o 7 a 1 revisitou velhos complexos nacionais: a "síndrome de vira-lata" e a "ideia de que não nascemos para vencer".

É verdade que a derrota de 2014, ao contrário daquela de 50, entrou para o imaginário nacional muito mais como galhofa do que tragédia. Não pense, porém, que tratar a derrota com memes e piadas significa superá-la.

Dunker explica que esse comportamento – fazer graça com uma experiência séria ou triste – tem até um nome técnico: “dissonância cognitiva”. Como se alguém traumatizado, por exemplo, com um assalto, saísse por aí fazendo piadas do ocorrido ao invés de admitir que morre de medo de passar por um novo episódio de violência.

“Tanto em 1950 quanto em 2014, o Brasil voltava a acreditar em si mesmo. A pensar que teria um futuro. E isso aconteceu poucas vezes na história do país”, acredita o psicanalista. Para Dunker, outra derrota histórica da seleção, a de 1982, foi assimilada de forma diferente.

“Eu colocaria a derrota para a Itália em uma série diferente. Não havia uma condição para o trauma que é o desejo de mudança. É o sonho que faz o trauma pegar a gente”, diz Dunker. “Não houve um discurso de culpa com aquela derrota. Apesar, por exemplo, de o Toninho Cerezo ter errado aquele passe, ninguém ficou apontando o dedo. Ficamos com a sensação de que o destino não foi legal com a gente. Ali, o Brasil viveu algo mais próximo do que é um processo de luto".

Deslocamento da raiva

O psicanalista explica essa opinião dizendo que há fracassos produtivos e improdutivos. Em 1982, teria sido produtivo porque levou a uma reflexão sobre o que havia acontecido. Isso não aconteceu em 2014, quando a busca por vilões – Felipão, David Luiz – se sobrepôs a análises mais profundas e estruturais. “Tanto que chamaram o Dunga depois do Felipão”, lembra o psicanalista.

Essa postura – ignorar o trauma, tratá-lo como piada ou algo desimportante – desembarca, segundo Dunker, em um outro tipo de comportamento: o do “deslocamento”. “Ao invés de eu ficar puto da vida com o jogo, eu começo a ficar puto da vida com o trânsito, por exemplo”.

Ou seja, trata-se da velha história de descontar raiva e frustração em terceiros. Para o psicanalista, essa transferência aconteceu após a Copa e ajudou a alimentar a cultura de ódio no país. Ao invés de ficar com raiva da seleção ou da Alemanha, muita gente ficou com raiva dos políticos. O Brasil pode ainda estar traumatizado, mas não sofre de estresse pós-tráumatico. Isso porque, como explica Dunker, esta é uma condição com características muito específicas e individuais.

"Está mais associada à ansiedade. A pessoa fica ansiosa, tem reações físicas mesmo, quando é lembrada de um trauma. Um jogador que estivesse no 7 a 1, por exemplo, poderia muito bem sofrer com isso em um momento específico de um jogo".

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