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Por que na Rússia "você entra no carro sem calças, mas nunca sem câmera"?

Daniel Lisboa

Colaboração para o UOL, em São Paulo

16/04/2018 04h00

Uma dica aos torcedores que irão à próxima Copa do Mundo e pretendem pegar estrada: evite pesquisar na internet sobre o trânsito russo.

Se você não resistiu e já fez isso antes mesmo de chegar neste parágrafo, já descobriu que vídeos de acidentes rodoviários na Rússia são um verdadeiro “hit”. Se ainda não pesquisou, e não gosta de imagens fortes, continue assim.

Uma busca por “russian car crash (batida de carro na Rússia)” no YouTube gera aproximadamente 2,5 milhões de resultados. São compilações e mais compilações de todo o tipo de desastre sobre rodas: batidas frontais, laterais, capotamentos, explosões, atropelamentos.

Além de evidenciar os perigos de dirigir na Rússia, o volume colossal de vídeos aterradores coloca duas questões: por que tantos acidentes são gravados na Rússia? E por que tanta gente gosta de assisti-los? (há vídeos com mais de 3 milhões de visualizações).

Para a primeira pergunta, a resposta é relativamente simples: na Rússia, ter uma câmera instalada no painel do carro é indispensável. O principal motivo é a legislação local. Sem uma gravação do acidente, fica muito difícil pedir um ressarcimento para o seguro. “Você pode entrar no carro sem suas calças, mas nunca sem uma câmera”, disse o ativista de direitos humanos Aleksei Dozorov para a rádio Free Europe em 2012.

Isso porque há também a questão da pouca credibilidade das autoridades: as câmeras são uma maneira de os russos se protegerem dos abusos da polícia local, conhecida dentro e fora do país pelo apreço à corrupção.

A ideia de que a Rússia é um país perigoso para dirigir, entretanto, não se deve somente à fama e quantidade de seus vídeos. O país de fato tem altos índices de acidentes rodoviários. A OMS (Organização Mundial de Saúde) calcula que pelo menos 26.500 pessoas morrem nas ruas e estradas locais a cada ano.

Esse índice é menor que o brasileiro – aqui, cerca de 47 mil pessoas morrem por ano -, mas a Rússia tem 144 milhões de habitantes, contra 207 milhões do Brasil. Ou seja, colocando na balança, os países podem dar as mãos quando o assunto é desrespeito à vida no trânsito.

Os russos filmam, mas o mundo inteiro assiste. Esse prazer mórbido em assistir a acidentes, muitos dos quais certamente terminaram em vítimas fatais, pode ser explicado por Freud, diz o psicanalista Claudio Bastidas.

“Ele tem essa teoria de que mesmo as pessoas ditas normais carregam dentro de si componentes sádicos e masoquistas”, diz o psicanalista. De acordo com essa teoria, o que nos separa de uma pessoa totalmente sádica é que o sádico chega às vias de fato – ele faz algo – enquanto nós podemos ter algum prazer simplesmente observando.

“Qual é a desculpa que a pessoa dá para ela mesma? Que ela não fez o vídeo, que só recebeu o vídeo pelo WhatsApp, que estava no YouTube, que ela não tem nada a ver com aquilo...Mas é claro que tem, se ela clicou é porque quer ver”, diz Bastidas.

O psicanalista cita ainda um outro conceito de Freud, o da sublimação. “Freud diz que algumas pessoas transformam seus desejos sádicos e masoquistas em algo útil para a sociedade. É o caso do cirurgião, por exemplo, que precisa cortar e furar uma pessoa para operá-la. Ou mesmo do psicólogo, que convive com o sofrimento alheio, e do jornalista, que escreve sobre ele”.

A arte, claro, também se adequa à teoria da sublimação. Afinal, não há nada mais pop que um filme cheio de sangue, morte e sofrimento. “Em termos singulares, cada pessoa, ao assistir um vídeo desses, vai encontrar um certo prazer ou sofrimento de acordo com suas características pessoais”, explica Bastidas.

“Ver um vídeo de acidente de carro pode ser, por exemplo, uma maneira de a pessoa elaborar a questão de vida e morte. De como ela é aleatória. Você está dirigindo e de repente um motorista embriagado vem para cima de você.”

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