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Copa 2018


Cadê as ruas pintadas? Estamos mesmo menos empolgados com a Copa em 2018?

Rua decorada em Manaus-AM durante a Copa do Mundo de 2014 - Richard Heathcote/Getty Images
Rua decorada em Manaus-AM durante a Copa do Mundo de 2014
Imagem: Richard Heathcote/Getty Images

Ana Carolina Silva

Do UOL, em São Paulo

21/05/2018 04h00

Falta menos de um mês para a Copa. A sua vizinhança já se reuniu espontaneamente para pintar as ruas de verde e amarelo? Bandeiras do Brasil já foram penduradas em pontos de destaque? Você comprou uma nova camisa da seleção sem a intenção de usá-la em um protesto? As crianças estão jogando bola na rua aos gritos de "gol do Neymar" e "defendeu Alisson"? É possível que você não tenha visto nada disso até agora. Há quem diga que estamos menos empolgados para este Mundial. Será?

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"A população está muito aborrecida com o Brasil. É um período sombrio, com nível intenso de corrupção das altas autoridades da República, que deveriam zelar pelo cumprimento da Constituição. As pessoas estão cheias. Isso acaba resultando em uma distância para aquilo que é uma representação do país, a seleção brasileira. Bem ou mal, era ali que as pessoas se viam representadas em uma tentativa de vitória, de conquista, de afirmação da brasilidade", disse Mauricio Murad, sociólogo do futebol, ao UOL Esporte.

Em pesquisa realizada com 2.984 pessoas em 185 cidades brasileiras (dos 26 estados, além do Distrito Federal) e publicada no fim de abril, o Instituto Paraná de Pesquisas afirmou que 65% dos brasileiros se mostram pouco ou nada interessados na Copa do Mundo da Rússia – 14,5% dos entrevistados, por sinal, disseram não saber onde o torneio ocorrerá.

Isso contraria um fenômeno que costumava ser aplicado pelos estudiosos: historicamente, o futebol entusiasma o povo brasileiro a despeito de qualquer crise política ou econômica no país. Murad cita o exemplo da Copa de 1970: apesar de entrelaçada a um regime político controverso, a seleção conquistou o apoio até de quem era contra a ditadura militar. Resta saber se este sentimento ressurgirá com o pontapé inicial para o Mundial no dia 14 de junho.

Warren Little/Getty Images
Imagem: Warren Little/Getty Images

"É difícil prever, mas a tendência é as pessoas se envolverem mais quando o Mundial começar, se a seleção tiver um futebol bonito, de infiltração e drible. A seleção tem condição de fazer isso e reacender o nosso inconsciente coletivo. O futebol tem uma grandeza simbólica e identitária no Brasil, como se tivesse independência em relação a toda essa estrutura de corrupção e violência", apontou Murad, que ressalta uma preocupação: "Apesar de ser muito forte futebolisticamente, esta seleção pode não ter a força que teve em outras épocas para representar o país apesar do próprio país".

Mesmo se a empolgação generalizada surgir em algum momento, é possível que não seja notada nas ruas com a mesma intensidade com que a sentimos em Mundiais anteriores. Afinal, a rua foi substituída pela internet como principal espaço de confraternização social – podemos até estabelecer uma equivalência entre pintar a rua de verde e amarelo X adicionar um filtro verde e amarelo à foto de perfil do Facebook. Se as redes sociais mudaram tudo na nossa vida, por que não mudariam nossa relação com a Copa?

"As redes sociais afastaram as pessoas das pessoas. Ao afastar as pessoas umas das outras, afastaram também as pessoas dos espaços geográficos onde se encontravam. Aqui falo da confraternização física, direta. Além disso, as ruas, praças e becos do país ficaram muito violentos. Qualquer grande grupo que se reúne hoje tem chance de descambar para o confronto. Isso faz com que as pessoas se escondam no mundo virtual", pontuou o sociólogo especializado no futebol.

O efeito 7 a 1

Desenho mostra Neymar dando adeus ao fantasma do Maracanazo. Mas e o do 7 a 1? - Matthias Hangst/Getty Images
Desenho mostra Neymar dando adeus ao fantasma do Maracanazo. Mas e o do 7 a 1?
Imagem: Matthias Hangst/Getty Images

Pessoas mais velhas costumam dizer que, como efeito do Maracanazo de 1950, o povo brasileiro também não estava tão animado para a disputa das Copas de 1954 e 1958. A confiança na seleção só foi devidamente restaurada ao fim do Mundial de 58, o primeiro vencido pelo Brasil. Será que a histórica goleada por 7 a 1 sofrida para a Alemanha pode ter sua parcela de culpa neste suposto desinteresse? Estaria o Brasil traumatizado no sonho pelo hexa?

"Eu acho que isso pode ocorrer, mas o principal, além do 7 a 1, é que não houve nenhuma política esportiva efetiva por parte de clubes, federações e confederação no sentido de projetar mudanças no futebol brasileiro para superar as mazelas que trouxeram o 7 a 1. Foi uma derrota agressiva que deixou todo mundo para baixo, e não se fez nada no sentido de superar essa grande mazela", disse Murad.

"O que se viu depois do 7 a 1 foi corrupção, inclusive no universo do futebol. A Justiça dos Estados Unidos teve de se envolver nos nossos escândalos e a própria Fifa vem criticando, e olha que a Fifa também tem seus casos. Essa desconfiança pode estar simbolicamente representada no 7 a 1, mas ela é muito maior porque não se fez nada com o 7 a 1", completou.

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