Copa 2018

Pressão na Copa-2014 ajudou famílias de tragédia da chuva a ganharem casas

Pedro Ivo Almeida/UOL
Parque Residencial Ermitage recebeu as famílias que perderam suas casas na tragédia das chuvas em 2011 Imagem: Pedro Ivo Almeida/UOL

Danilo Lavieri, Dassler Marques e Pedro Ivo Almeida

Do UOL, em Teresópolis (RJ)

24/05/2018 04h00

A Copa de 2014 ainda é um assunto traumático para os brasileiros. A derrota histórica por 7 a 1 para a Alemanha deixou marcas e ainda machuca quem teve o sonho do título em casa interrompido. Na Granja Comary, por exemplo, o assunto é evitado. As memórias do último Mundial não são as melhores, seja pelo resultado negativo ou pela intensa bagunça na preparação no local. Do outro lado de Teresópolis, no entanto, há quem comemore bastante aqueles dias de quatro anos atrás. Foi graças a uma pressão marcante no período que centenas de famílias que perderam tudo em uma tragédia anos antes conseguiram resolver o impasse por um novo teto.

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À época, enquanto Felipão, Neymar e cia. se preparavam para a Copa na Granja, a porta do centro de treinamento era palco quase que diário de protestos. Gente que não se animava com a onda futebolística do local e só queria atenção para sua causa: uma solução para a falta de moradia que atingia quase duas mil famílias vítimas das chuvas que assolaram a região serrana do Rio de Janeiro em 2011.

Quatro anos depois, a revolta já não se faz mais presente e aqueles que sofreram em 2014 comemoram a nova passagem da seleção brasileira por Teresópolis. “Aquela Copa vai ficar marcada. Entendemos que muita gente não gosta, lembra do 7 a 1, reclama... Mas aqueles dias de protesto e luta pela situação que tínhamos mudaram as nossas vidas”, relembra Flávio Carreiro, um dos líderes dos protestos de 2014.

Flávio Florido/UOL
Flávio Carreiro foi um dos líderes das manifestações na porta da Granja Comary em 2014 Imagem: Flávio Florido/UOL

Procurado pelo UOL Esporte, ele recebeu a reportagem na porta do condomínio onde mora. A construção do “Parque Residencial Ermitage”, destinada às vítimas por meio do programa “Minha casa, Minha vida”, resolveu a situação das quase 7 mil pessoas que ficaram desabrigadas, mas hoje já têm onde morar.

Em 2014, o grupo reclamava de atrasos no aluguel social – valor mensal que recebiam para viver após a tragédia – e brigava para conseguir uma reunião com representantes do Governo e da Caixa, responsável por bancar a construção de um conjunto habitacional para as vítimas.

Encerrada a Copa e diante da repercussão, o grupo começou a sonhar com uma solução para o impasse. As reuniões com os órgãos públicos aconteceram e, enfim, sete anos após a tragédia, as famílias entraram no condomínio, construído às margens da BR-116, que corta Teresópolis.

“Passou a Copa e as coisas começaram a andar. Ainda tivemos algumas brigas, discussões, coisas burocráticas. Chegamos a acampar aqui na frente. Mas liberaram nossa entrada em junho de 2017. O barulho em 2014 resolveu, passaram a nos olhar. E hoje temos uma vida digna”, pontua a dona de casa Valquíria Ferreira, de 32 anos.

“Certamente iriam nos esquecer. Tinha gente sem aluguel social, gente já morando na rua. Conseguimos reverter. Perdemos casa, parentes, amigos, tudo. Só tínhamos a roupa do corpo. Hoje temos um lar, segurança, área para as crianças. Estamos felizes. A vida melhorou”, completou Flávio Carreiro.

Flavio Florido/UOL
Vítimas da enchente de 2011 aproveitaram a Copa de 2014 para chamar a atenção de mídia e poder público Imagem: Flavio Florido/UOL

Militante da causa das vítimas da tragédia de 2011, o vereador Rony Monteiro (PHS-RJ) recordou o movimento em 2014 e o andamento do caso após a pressão na Copa do Mundo.

“Tudo que tínhamos era uma promessa do governo do Estado, com aval da União. Mas a coisa não andava. Não era prioridade para eles. Foi uma briga dura. Aproveitamos aquele momento de 2014 para mobilizar, chamar a atenção e viabilizar. Ainda tivemos problemas de infraestrutura e saneamento depois, mas tudo foi resolvido. O deputado estadual André Corrêa, que tinha sido secretário estadual de meio ambiente, intercedeu, o Leonardo Maia, do Inea [Instituto Estadual do Ambiente], também. Eles assumiram obras que nem eram da competência deles e entregaram o condomínio em 2017”, relatou Rony.

Com a solução do impasse, 1.600 famílias ocuparam os nove condomínios do conjunto habitacional. Cada um deles tem aproximadamente 150 apartamentos, além de uma quadra de esporte e um salão de festas.

O local também tem um posto policial e serviços públicos como instituições de ensino, Unidade Básica de Saúde com o Programa de Saúde da Família (PSF) e Centro de Referência de Assistência Social (CRAS).

Ampliação e mais vítimas beneficiadas

O estudante Ryan Silvestre, de 16 anos, foi um dos beneficiados da construção do condomínio. Em 2014, no meio dos protestos, foi uma das crianças convidadas a assistir a um treinamento dentro da Granja Comary.

“Eu me lembro da visita ao Neymar. Eu era um menino sem casa indo falar com ele. Agora queria voltar lá para conversar, contar que as coisas se resolveram”, disse o jovem.

E a expectativa é que o condomínio cresça. Após 1.600 famílias realizarem o sonho às vésperas da Copa 2018, outras 500 podem se beneficiar após o Mundial. Já está em fase de licitação o projeto para a ampliação do Parque Residencial Ermitage, tirando do aluguel social o restante das vítimas das chuvas do início da década.

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