Copa 2018

Cidade-sede da Copa teve 800 mil mortes e canibalismo na Segunda Guerra

Daniel Lisboa e Vinicius Mesquita

Do UOL, em São Paulo e São Petersburgo (Rússia)

27/05/2018 06h00

“Eu estou me transformando em um animal. Não há sentimento pior do que quando você só pensa em comida”. O comentário está no diário de Berta Zlotnikova. Ela vivia em Leningrado, atual São Petersburgo, muito antes de a cidade ser escolhida para sediar sete partidas da próxima Copa do Mundo.

Berta provavelmente não exagerava, tampouco devia ser a ser a única com tal sentimento. A hoje cosmopolita e bela São Petersburgo foi cenário de um dos mais dramáticos episódios da Segunda Guerra Mundial. Entre setembro de 1941 e janeiro de 1944, a cidade viveu sob o cerco do exército nazista.
Isolada do resto da União Soviética, a então Leningrado definhou. Calcula-se que cerca de 800 mil civis (algo em torno de 40% da população da cidade) morreram. 

Os números, assim como os trechos de diários de quem passou pelo pesadelo, estão em uma reportagem do jornal britânico “The Guardian”. A dramaticidade dos relatos revela a lenta agonia das vítimas do cerco.

Diferentemente de Stalingrado, atacada pelos nazistas que queriam tomá-la, Leningrado sofreu de uma maneira diferente. O exército alemão, com a ajuda de aliados finlandeses, optou por não invadir a cidade. Preferiu cercá-la. A estratégia evitou sua destruição, mas impediu a chegada de alimentos e quaisquer outros suprimentos.

Assim, por quase 900 dias, foi desaparecendo tudo o que as pessoas que lá viviam necessitavam para sobreviver. Se não morriam em combate, pereciam de fome, frio e doenças.

“As pessoas morriam congeladas em casa e não tinha nem como enterrá-las por causa do frio. Não dava para cavar o solo”, conta o historiador da Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) João Claudio Platenik.

Sobre a falta de alimentos, ele explica que a situação chegou a tal ponto que a população começou a se alimentar de qualquer coisa de origem orgânica. “Comiam sapatos e cintos de couro e até um papel de parede que levava uma cola orgânica.”

E sim, a situação foi tão extrema que houve até mesmo canibalismo. Platenik, porém, faz questão de ressaltar que de forma nenhuma isso se deu de forma ostensiva. “Acontecia, mas o canibalismo não era de forma alguma algo tolerado. O estado soviético vigiava de perto, e quem era pego fazendo isso era fuzilado”, diz o historiador.

O pesquisador explica que os alemães não quiseram invadir Leningrado porque o grande objetivo era tomar Moscou. Para eles, tentar tomar a cidade significaria um gigantesco, e desnecessário, esforço de guerra, ainda mais porque os nazistas estavam pouco habituados às batalhas urbanas, como mostrou a derrota em Stalingrado.

“Além disso, a aviação alemã pouco conseguiu fazer em Leningrado. Os soviéticos investiram bastante em baterias antiaéreas”, explica Platenik.  A presença de tropas do exército vermelho dentro da cidade, por fim, certamente significaria uma batalha das mais ferozes, e os nazistas seguiram apenas nos arredores da cidade até serem expulsos pelo avanço soviético em 1944.

Curiosamente, um lago foi a única brecha entre Leningrado e o resto do país durante o cerco. O lago Ledoga, maior da Europa, servia de passagem para tropas, armamentos, mantimentos e refugiados quando congelava durante o inverno. Foi por ele que Eduard Ishakewitsch fugiu de Leningrado com os tios e a avó em março de 1942.

“Meus pais morreram no cerco, e minha tia conseguiu me tirar da cidade quando o lago congelou. Muita gente fugiu da cidade assim”, conta o sobrevivente. No Brasil desde 1949, ele vive em Niterói (RJ) e sabe mais sobre aqueles dias terríveis pelo que escutou do que pelo que efetivamente recorda. Ele tinha apenas quatro anos quando conseguiu escapar.

“Você tinha que pegar o trem até a beira do lago. Depois botavam você em um caminhão para fazer a travessia”, explica Eduard. “Minha mãe foi a primeira a morrer. Meu pai ainda estava vivo quando deixamos a cidade, mas nem conseguia se mexer. Estava praticamente morto, de fome mesmo.”

Wikimedia Commons
Imagem: Wikimedia Commons
Eduard seguiu para uma cidade no sul da Rússia que posteriormente também acabou invadida e foi feito prisioneiro, junto com os tios e a avó, pelos nazistas. Foram mandados para a Alemanha de trem, em vagões de cargas onde a única refeição era batata assada em uma espécie de lareira que havia dentro do vagão.

Uma vez na Alemanha, aonde foram enviados para trabalhar, Eduard e sua família acabaram recebendo tratamento melhor que o habitual por terem ascendência austríaca. Ficaram no país até que o órgão das Nações Unidas para refugiados, já com a guerra terminada, sugerisse o Brasil para que recomeçassem a vida.

Hoje com oitenta anos, Eduard trabalhou como engenheiro civil a vida toda e já foi à Rússia diversas vezes. “Cheguei a procurar o local onde morei em São Petersburgo. Mas só encontrei mesmo parentes e amigos que tinham voltado à Rússia”, conta ele.

Para Platenik, apesar de representar um drama humano igual ou maior, Leningrado entrou para a história com uma força simbólica menor que Stalingrado por uma série de motivos. Em Stalingrado houve uma batalha de fato. Ao encurralar e expulsar os alemães da cidade, o exército vermelho mostrou seu poderio na prática e mudou o rumo do conflito.

“Além disso, a batalha em Stalingrado foi, vamos dizer, muito mais cinematográfica. Nela aconteceram confrontos, tiros, explosões, bombardeios. É algo muito mais atraente para ser usado como símbolo e propaganda”, diz o historiador.

A partida entre Marrocos e Irã, no dia 15 de junho, será a primeira de São Petersburgo. O Brasil jogará lá também, no dia 22 de junho. A ex-Leningrado receberá ainda jogos das oitavas de final, semifinal e a disputa pelo terceiro lugar.

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