Copa 2018

"50 chutes todos os dias". A fórmula de Josimar para golaços na Copa de 86

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Seleção brasileira caiu nas quartas de final na Copa de 1986, no México Imagem: Reprodução/Facebook

Marcello De Vico e Vanderlei Lima

Do UOL, em Santos e São Paulo

03/06/2018 04h00

Eliminada da Copa de 1986 sem uma derrota sequer, a seleção brasileira fez gols em todas as cinco partidas que disputou no México: foram 10 no total, entre eles alguns golaços. Dois deles, aliás, foram marcados por um jogador que sequer estava nos planos de Telê Santana e foi convocado devido ao corte de Leandro, titular da lateral direita. Pois Josimar aproveitou a chance e, apesar da eliminação para a França nas quartas de final, realizou seu grande sonho.

“O importante é estar na seleção, não interessa a opção do treinador, ser a primeira, segunda ou terceira. O diretor de futebol do Botafogo na época foi na minha casa me comunicar, e isso foi uma bênção, porque o sonho de todo jogador é chegar à seleção brasileira e disputar uma Copa do Mundo. E quando ele me falou, eu fiquei muito contente e fui me preparando para viajar para o México. Eu estava na minha casa”, conta em entrevista ao UOL Esporte.

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Jogador do Botafogo em 1986, Josimar iniciou a Copa do México na reserva, banco do titular Edson, ex-Corinthians. A chance de ser titular veio na terceira partida, contra a Irlanda do Norte, por conta da contusão do companheiro. E não podia ter sido da melhor forma: 3 a 0 e golaço. Depois de Careca abrir o placar, Josimar, ainda na etapa inicial, recebeu na intermediária, avançou e soltou uma bomba de fora da área. A bola foi no ângulo, sem reação para o goleiro. Um dos gols que sempre aparecem entre os mais bonitos de todas as Copas.

Com 100% de aproveitamento na primeira fase, o Brasil encarou a Polônia nas oitavas, e não teve trabalho: 4 a 0. Foram quatro gols, sendo dois golaços (Josimar e Edinho) e dois de pênalti, convertidos por Sócrates e Careca. No gol de Josimar, o segundo da seleção, ele recebeu na ponta direita, driblou dois, invadiu a área e acertou um raro chute cruzado, forte, no ângulo.

Em papo com a reportagem, Josimar, hoje com 56 anos, não pensou duas vezes para confirmar o que já era esperado: esses gols foram mesmo os mais importantes de sua carreira - que ainda contou com passagens por Sevilla (Espanha), Flamengo, Internacional, Novo Hamburgo, Bangu, Fortaleza, Jorge Wilstermann (Bolívia), Fast Clube-AM e Mineros de Guayana (Venezuela).

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“Não resta a menor dúvida. Fazer dois gols numa Copa do Mundo, na posição em que eu jogava, não é para qualquer um. Eu agradeço muito a Deus por esta oportunidade, agradeço ao falecido Telê Santana e a todos do grupo que me apoiaram, porque eu fui o último jogador a chegar, então o grupo me apoiou, os jogadores deram uma força muito grande para que eu pudesse desenvolver o meu futebol e com isso eu consegui fazer esses dois belíssimos gols”, recorda Josimar, que não consegue escolher qual gol foi mais bonito.

“Para mim não tem o mais bonito. Os dois foram porque a gente se esforçava demais, principalmente nós garotos. A seleção de 86 foi mesclada de garotos com jogadores mais experientes que estavam prestes a encerrar a carreira, e os garotos estavam chegando. Nós nos dedicamos muito, todos nós, aqueles que estavam para parar também. Eu não tenho como definir o gol mais bonito, eu só tenho a agradecer ao Zico, Sócrates, que procuravam me orientar. Graças a Deus as coisas deram certo e meus gols foram belíssimos”, disse.

 “50 chutes e 50 pênaltis todos os dias”

Muito treino. Este, segundo Josimar, foi o segredo para executar os chutes da forma como conseguiu na Copa do Mundo. Uma característica clássica de Telê Santana, que tinha a repetição a sua maior arma para fazer com que seus atletas evoluíssem. E assim foi com o lateral.

“Nós treinávamos todos os dias 50 chutes e 50 pênaltis. Isso era todos os dias, de manhã e de tarde. Graças a Deus nos jogos eu consegui acertar aqueles chutes, nos dois gols”, lembra.

Eliminação para a França: “tristeza foi geral”

Depois de ir às redes e ver o Brasil vencer no último jogo da primeira fase e nas oitavas de final, Josimar seguiu como titular nas quartas, contra a França, mas não teve a mesma sorte. Depois de empate por 1 a 1 em que Zico desperdiçou uma penalidade no tempo normal, a seleção voltou a sofrer com os pênaltis na decisão: Sócrates e Júlio César desperdiçaram suas cobranças e a França acabou avançando para as semifinais. O clima pós-jogo, claro, não poderia ser outro.

Voltamos para o Brasil, mas a tristeza ficou dentro do coração"

“Todo mundo estava triste, a tristeza foi geral, ninguém queria ser eliminado da forma que foi da Copa do Mundo. A vida seguiu, apesar de todos nós ficarmos tristes. Voltamos para o Brasil, mas a tristeza ficou dentro do coração. Mas com a certeza que procuramos fazer o melhor no México, isso é o que é importante. A gente estava de cabeça erguida e sabemos que procuramos fazer o melhor, mas infelizmente não foi possível”, opinou Josimar.

Os pênaltis: Telê acertou nas escolhas

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A história de Brasil x França em 1986 poderia ter sido outra não fosse um pênalti perdido por Zico aos 30min do segundo tempo. O craque entrou na vaga de Muller no começo da etapa final e, mesmo frio, foi para a marca da cal. Apesar dos poucos minutos jogados até a penalidade, Josimar acredita que o Galinho é quem deveria mesmo ser o encarregado pela cobrança.

“Quem tinha que bater era o Zico mesmo, ele era a bola da vez, era o cara, ídolo no Brasil, mas infelizmente não foi possível concluir o pênalti, isso acontece com qualquer um, aconteceu com o Baggio, da Itália, em 94. Era o Zico mesmo que tinha que bater o pênalti, tanto é que na disputa dos pênaltis ele converteu. Então nós não perdemos por este pênalti no tempo normal, nós perdemos na decisão de pênaltis, eu coloco como fatalidade mesmo, o futebol é desta forma”.

Na visão de Josimar, os batedores escolhidos por Telê na decisão por pênaltis também foram corretos: “O Telê fez da melhor maneira possível pois escalou para os pênaltis os jogadores corretos. Pênalti é assim mesmo, é uma caixinha de surpresas, nem sempre sai como a gente deseja. Mas seriam aqueles mesmos jogadores, que eram ídolos e estavam aptos a bater os pênaltis, mas infelizmente o do Sócrates e o do Júlio César a bola não entrou”.

Veja outros assuntos abordados na conversa com Josimar:

Do meio-campo para a lateral direita

Foi num jogo do Botafogo em que o Perivaldo, que era lateral direito, não teve condições de atuar, estava suspenso. Aí o seu Leônidas [treinador], um negão que jogou de zagueiro no Botafogo, me colocou na lateral para suprir essa necessidade, e eu não saí mais. Aos poucos a gente ia treinando junto com o profissional e aqueles garotos que se sobressaiam iam ganhando chance, e assim foi com todos nós, comigo, com o Alemão, com o Osvaldo, e uma série de jogadores daquela época. Minha base toda foi no Botafogo.

Os ídolos

Eu vi o Zico jogando, é sempre um ídolo, o Júlio César [ex-zagueiro], o próprio Leandro [ex-lateral direito], a gente tinha a vontade de ser igual a esses jogadores na época. Mas o meu ídolo mesmo, na posição, foi o Leandro.

“Meu coração é Botafogo”

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Eu fiquei 14 anos no Botafogo, saí em 1989, e fui campeão estadual com o Botafogo. Há 21 anos o Botafogo não era campeão e eu realizei o meu sonho. Saí, mas fui campeão com o Botafogo e fui campeão da Copa do Brasil em 90 pelo Flamengo. Seria frustrante sair do Botafogo sem título, porque quando você tem um objetivo e não consegue alcançar, você fica triste, fica chateado, o objetivo tem que ser alcançado, e isso foi muito importante no Botafogo em 1989. Não foi fácil enfrentar uma equipe como aquela do Flamengo, que tinha o Zico, era um timaço. Quero dizer que joguei e também fui campeão no Flamengo, mas o meu coração é Botafogo.

A chegada ao Sevilla

O jogador que atua numa Copa do Mundo tem as portas abertas, e naquela época não só para mim, mas abriu para outros jogadores também. Depois da Copa de 86 eu fui para o Sevilla e fiquei uma temporada. Eu fui por empréstimo, depois do título do Botafogo, em 89, e jogar na Espanha naquela época... Eram poucos jogadores que saíam, foi bom, aprendi bastante.

A saída do Sevilla após seis meses

Futebol é assim mesmo. Eu não tinha um bom empresário para que pudesse fazer uma negociação de compra e venda, aí eu fui por empréstimo e tive que retornar para o meu clube de origem, o Botafogo, foi só por causa disso. Depois fui para o Flamengo e passei por vários clubes como o Internacional, onde fui campeão gaúcho em 91, joguei no Novo Hamburgo, joguei em Minas, no Uberlândia, passei pelo Bangu, Fortaleza, joguei na Bolívia, no Jorge Wilstermann, Fast Clube, e o meu último clube foi o Mineiros, na Venezuela, disputei a Libertadores em 96.

Detenção em 1993

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Todo mundo comentou essa situação e até agora ninguém provou nada. Eu não fui preso, eu fui detido, fui levado somente para a delegacia. Na época eu falei para o Tino Marcos, da TV Globo, que eu já tive uma experiência com drogas, como qualquer outro jovem, e isso passou. Aconteceram coisas que eu não quero falar mais. Na época eu jogava no Flamengo e eu também me envolvi com uma garota de programa na mesma época, mas isso era coisa de jovem, jovem não tem experiência e às vezes passa por situações difíceis, mas o mais importante foi que eu levantei a cabeça e segui em frente, e quando você acredita em Deus, você consegue superar todas as dificuldades. Mas eu não quero mais falar sobre isso, é uma coisa que já passou e a minha vida agora é outra. Eu tenho uma família, então não quero mais falar sobre isso.

Gratidão a Jorginho

Eu tenho a minha vida estabilizada, graças a Deus. Eu não posso reclamar. Sou formado em Comércio Exterior, tenho minhas coisas no Rio de Janeiro, uma empresa fora do Brasil, e uma série de coisas, então eu não posso reclamar da vida, não, sinceramente. Graças a Deus eu estou tranquilo, apesar de todas as coisas adversas que me aconteceram, mas Deus me estendeu as mãos e mudou a minha vida e a minha história. O Jorginho [ex-lateral da seleção] fez eu conhecer o Deus maravilhoso, hoje eu sou evangélico, então eu só tenho a agradecer ao Jorginho por tudo que ele fez na minha vida e o que ele faz para várias pessoas.

Sem pretensão de ser treinador, mas...

Eu não tenho essa pretensão de ser treinador de futebol. É lógico que se tiver uma oportunidade nós vamos aproveitar, por isso mesmo eu vou agora fazer um curso na CBF no meio do ano; eu já fiz um anteriormente, mas eu vou fazer uma reciclagem porque a gente não sabe o dia de amanhã. Amanhã ou depois pode pintar uma oportunidade e você tem que estar preparado. Mas pretensão mesmo de ser treinador de futebol eu não tenho porque nós temos a nossa empresa aqui em Brasília e a minha esposa é quem toca, e eu dou uma força a ela, então eu prefiro ficar mais nesse lado empresarial.

Jobson: “parabéns ao Brasiliense”

Ainda não tivemos tempo [de conversar]. Ele chegou agora, eu estava viajando, mas quando eu tiver a oportunidade eu vou conversar com ele, sim. Ele jogou no meu clube, o Botafogo, é um ser humano que merece ter uma oportunidade, e eu quero aproveitar o momento e parabenizar a diretoria do Brasiliense por estender as mãos a esse rapaz que precisa de uma ajuda, então é um gesto para gente bater palmas. E, se depender de mim, vou ajudá-lo, sim, porque eu também tive ajuda. Eu vou mostrar a ele esse Deus vivo que a gente serve, o que faz nas nossas vidas, e eu vou procurar conversar com ele, sim, Eu não sei o que falaria para ele porque isso é espiritual, mas Deus vai falar alguma coisa para mim e eu vou transmitir para ele.

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