Suíça

Poliglota e multiétnica, Suíça se uniu após "reportagem da discórdia"

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Banners de entrevistas da seleção suíça com frase em quatro idiomas Imagem: UOL

Julio Gomes

Do UOL, em Togliatti (Rússia)

13/06/2018 09h34

Os banners em torno da mesa de entrevistas são um indicativo. Aqui, tem só uma seleção. Mas muitos idiomas.

“Só vejo vantagens! Podemos até escolher o idioma para falar entre nós dependendo do que o adversário entende. Em um escanteio em um jogo contra a Alemanha, por exemplo, nós vamos nos posicionar falando em francês ou italiano”, contou ao UOL Esporte o meio-campista Behrami, um dos líderes da seleção que enfrenta o Brasil no domingo, na estreia dos times na Copa do Mundo.

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Não é uma novidade que a Suíça seja um país de quatro línguas oficiais. O alemão, ou melhor, o suíço-alemão, é o mais falado no país. Por isso, o “#hoppschwiiz” tem o maior destaque no banner. Depois vem o “#hopsuisse”, em francês. O #forzasvizzera”, em italiano. E, pequenininho, o “#hopsvizra”, o romanche. Pouco usado, quase em extinção. Para se ter uma ideia do inusitado da situação, nenhum dos 23 jogadores convocados fala o romanche.

“Isso é parte do nosso time. No campo, às vezes você olha para o lado e pensa, 'preciso falar em italiano e alemão com esse... opa, com esse outro é em francês'. Às vezes é até mais rápido falar logo em inglês. É uma grande troca, aprendemos muito com isso”, segue Behrami.

Mas o que hoje parece algo trivial não foi sempre assim. A história da seleção suíça é marcada por divisões. Lá atrás, entre “alemães” e “franceses”.

Hoje em dia, a marca da Suíça é a diversidade. Dos 23 convocados, apenas oito são, digamos, suíços da gema.

Outros cinco são nascidos no continente africano (três camaronenses, um marfinense e um em Cabo Verde), mas dois são filhos de africanos, um tem origem espanhola-chilena e nada menos do que sete jogadores nasceram ou são descendentes da região dos Balcãs, a ex-Iugoslávia.

“No começo não era fácil, somos de origem diferente e com uma mentalidade muito diferente”, conta Behrami, nascido no Kosovo 33 anos atrás e já há 13 na seleção suíça. Não à toa, é o grande líder deste “grupo dos Balcãs”.

“Mas tudo mudou três anos atrás. Estávamos na Áustria, um jornal escreveu que estávamos rachados entre suíços e balcânicos. Tudo mudou, nós ficamos muito mais próximos, mais juntos. Eu me sinto suíço e todos aqui se sentem assim. É incrível como a gente aprende muito das diferentes personalidades, se adapta às cultura. Essa é a força do nosso time.”

“A maioria aqui nasceu na Suíça e todos querem vencer. Para suíços normais, como eu, essa diversidade não é nada especial, é parte das nossas vidas”, comentou o meia Freuler, 26, um pouco mais frio sobre o tema.

Em novembro de 2015, a Suíça já havia se garantido para a Euro-2016 e perdeu um amistoso em casa para a Eslováquia. O jornal “Schweiz am Sonntag” publicou uma enorme reportagem cravando que o vestiário estava rachado e colocando em dúvida até mesmo o esporte como ferramenta de integração nacional, em um país cheio de imigrantes de diversas origens e refugiados de guerra.

“Nossa seleção é considerada um modelo de integração. Mas é apenas fachada. A Suíça está brigando com a própria Suíça. O time não tem paixão. A seleção da Suíça está morrendo. De um lado, estão os de origem balcânica. Do outro, aqueles com sobrenomes suíços. Será que a história de o futebol ser a melhor ferramenta de integração é apenas um conto de fadas?”, questionava o jornal.

UOL
Imagem: UOL
Alguns dias depois, a Suíça venceu a Áustria em Viena – a seleção austríaca estava invicta no ano e também classificada para a Euro. A Federação Suíça publicou em seu site a “foto da união”, mostrando os jogadores abraçados e rechaçando a notícia.

O chefe de imprensa da Suíça, Marco von Ah, contou ao UOL Esporte que o time ficou enfurecido pela reportagem de três anos atrás por ser “realmente uma mentira”. E que uma reunião liderada por Behrami e Lichsteiner, capitão do time e suíço-suíço de origem, resultou em uma nova etapa da seleção suíça. “No fim, a mídia sem querer nos ajudou”.

Os resultados no ano seguinte ainda não foram bons, com apenas uma vitória e eliminação nas oitavas de final da Euro. Mas, neste ciclo da Copa do Mundo-2018, a Suíça perdeu só um jogo, para Portugal – ganhou 13 e empatou outros dois.

Nesta quarta-feira, na base suíça, em Togliatti, o primeiro adversário do Brasil realizou um treinamento fechado para a imprensa.

Questionados sobre Neymar, Behrami e Freuler pontuaram que será necessário um jogo coletivo forte para que o melhor jogador brasileiro não faça estragos na estreia.

“Ele é um top 3. Esperamos que ele tenha um mau dia e, nós, um bom dia. Está sempre pensando um passo à frente. Pará-lo é uma questão coletiva. No fim, são 11 contra 11. Se jogamos bem organizados, ele terá mais dificuldade. Mas, claro é um top 3 e não tem muito como alguém pará-lo sozinho”, analisou Behrami.

“Você pode parar qualquer jogador. Ele é um dos melhores do mundo, mas, como time, se pode parar qualquer um”, falou Freuler.

Após a entrevista coletiva, quase toda realizada em suíço-alemão, com algumas perguntas em francês e outras em inglês (por parte dos jornalistas brasileiros), Behrami e Freuler voltaram a atender os outros repórteres presentes. É que ainda era necessário gravar em alemão, italiano, etc, etc, etc.

Na sexta-feira, a Suíça novamente fechará as portas de seu treinamento. Darão entrevistas Ricardo Rodríguez, filho de pai espanhol com mãe chilena. E Gélson Fernandes, nascido em Cabo Verde, um país que tem o português como idioma. Será mais um capítulo da Torre de Babel suíça.

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