Copa 2018

Proibidos de fazer churrasco, anfitriões nem ligam. Preferem salada russa

Felipe Pereira
"Sempre foi assim", diz Robert Antonovich, de 80 anos, sobre proibição de churrasco em praças de São Petersburgo Imagem: Felipe Pereira

Felipe Pereira

Do UOL, em São Petersburgo (Rússia)

14/06/2018 04h00

O primeiro jogo do Brasil na Copa é no meio da tarde de domingo, 15 horas (de Brasília). Convocação para churrasco. Mas não na terra da Copa do Mundo. Com os russos, é diferente. Primeiro, porque eles não se importam com o futebol como nós, brasileiros. Segundo, porque os moradores de São Petersburgo nem churrasco podem fazer. Fogo em local público é proibido. E não existem muitos quintais com churrasqueiras na cidade.

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É assim em todas as sedes do Mundial. E não é de agora. "Tenho 80 anos e sempre foi proibido", ressalta Robert Antonovich. Ele fala esparramado em um banco do Parque Central de São Petersburgo, enquanto dois amigos se desafiam num jogo de xadrez. A verdade é que os russos não se incomodam muito por ficar sem churrasco. Eles gostam, mesmo, é de salada russa.

Parta da explicação vem da própria cidade. Em São Petersburgo, não existem casas. Todo mundo mora em apartamentos. Os imóveis lembram projetos novos de cidade grande, em que engenheiros e arquitetos parecem ter unido forças para deixar a vida do morador o mais apertada possível. Sem muito espaço. Não há churrasqueira em casa.

A alternativa seriam as praças, que existem aos montes em São Petersburgo. A maioria dos bairros tem a sua. Só que o temperamento russo mantém o churrasco afastado. Quem explica é Pavel  Lobachev, que tem 23 anos, idade de quem quer festa: “A fumaça iria atrapalhar as outras pessoas que estão caminhando nos parques e poderia gerar incêndios”.

Tatiana Orlova, 50 anos, aponta ao redor e fala que há árvores de 200 anos no Parque Central. Ana Chernenko, 45 anos, acrescenta que iria causar sujeira e estragar o parque, que serve de cenário para fotos de recém-casados. Finaliza dizendo que, na mentalidade dos russos, de churrasco é coisa de casa de campo. Várias famílias têm a sua e consideram aceitável assar carne durante o verão. O problema é que esse verão é curtíssimo. Você piscou e já é outono de novo. Num ano bom, dura coisa de 60 dias. Em contraste, São Petersburgo tem, em média, 118 dias de neve por ano.

Felipe Pereira
Imagem: Felipe Pereira

Salada russa é arroz de festa

O paladar russo para carnes é diferente do brasileiro. Para começar, eles preferem porco. Quase metade 50% das exportações brasileiras de carne suína ano passado foram para Rússia. Frango vem na sequência e só então chega a carne de gado. Para os locais do país da Copa, carna de vaca (ou boi, se preferir) é associada a ensopados. Eles a consideram dura quando assada.

UOL
Salada russa servida em restaurantes na Rússia Imagem: UOL
O modo de preparo dos russos não ajuda nesse sentido: nada malpassado chega ao prato deles. O ponto preferido no país é algo pelo menos cinco minutos além do bem passado. O próprio nome do churrasco é estranho: "carne feita em fogo vivo”.

Quem contou foi Zulfia Farshatova. Ela começou a conversa olhando atravessado para o repórter que queria saber sua idade. Diante da insistência na pergunta, ensinou que na Rússia é falta de educação fazer esse tipo de pergunta a uma mulher. Mudança de assunto, mudança de semblante. Zulfia estava quase risonha quando explicou que sempre haverá carne nas festas de família. Só que o prato tradicional é outro. Deu até a receita.

Batata, cenoura, dois tipos de pepino acrescido de carne, mortadela ou frango. Tudo misturado com maionese. É assim que os russos fazem salada russa. O prato teria sido criado por um cozinheiro francês em Moscou - é conhecido como salada Olivier pelo mundo. Mas caiu nos gostos locais e aparece em casamentos, almoços de domingo e finais de semana nas casas de campo.

Felipe Pereira
Imagem: Felipe Pereira
 

Brasil é exemplo de churrasco

Tatiana Orlova é a mulher que citou as árvores de 200 anos e disse onde deve se procurar um churrasco no Parque Central de São Petersburgo. “Quer comer um churrasco, vai na cafeteria”. O lugar sugerido não seria o primeiro em que um brasileiro iria pensar. Mas a dica é boa. O administrador do estabelecimento é Emin Ali, 48 anos, entusiasta da carne assada.

Ele começa a conversa dizendo que a Rússia é enorme (o país é maior do que Plutão, por exemplo) e possui hábitos diferentes e regiões diferentes. Por ser da região do Cáucaso, Emin cresceu comendo churrasco. “Desde criança as pessoas aprendem a fazer fogo e espetar carnes. Eu comia churrasco quase todo dia. Hoje, preciso segurar porque estou muito novo para tantos problemas de saúde”.

O homem acha que os compatriotas russos blasfemam quando falam que salada é melhor que churrasco. Ele anuncia que vai por dinheiro do bolso para provar que tem razão. Emin está a procura de um imóvel para abrir a primeira churrascaria de São Petersburgo.

O aspirante a empresário quer se inspirar no modelo brasileiro. “Acho maravilhoso as carnes passando, os clientes poderem escolher mal ou bem passado”. Ele não sabe se já existe alguma churrascaria na Rússia e imagina que pode ser o pioneiro no maior país do mundo.

Sonha ainda em convencer as pessoas a comer uma iguaria que adora: bochecha de bode. Ele estava indo bem. Com esta sugestão, porém, poucos brasileiros vão fechar com Emin.

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