Copa 2018

Hegemonia de brancos europeus comandando africanos é marca incômoda da Copa

Lars Baron - FIFA/FIFA via Getty Images
Aliou Cissé, técnico de Senegal, é o único negro entre os 32 treinadores que estão na Rússia Imagem: Lars Baron - FIFA/FIFA via Getty Images

Pedro Lopes

Do UOL, em São Paulo

19/06/2018 04h00

A presença solitária do senegalês Aliou Cissé como único técnico negro (e um dos dois únicos africanos) na Copa do Mundo de 2018 representa um retrocesso em relação à edição de 2014, que teve o nigeriano Stephen Keshi e o ganês James Appiah. Ao longo das últimas décadas, a consolidação de jogadores africanos na elite do futebol mundial, de Weah a Eto’o, passando por Kanu, Okocha e Drogba, fez pouco para colocar treinadores locais no comando de suas seleções, que seguem predominantemente treinadas por homens brancos e, em sua maioria, europeus.

As últimas três Copas do Mundo tiveram 17 seleções africanas, e 12 delas foram comandadas por brancos estrangeiros, sendo dez deles europeus. São apenas cinco treinadores africanos, três negros, todos citados nas três linhas que abrem este texto. Na edição atual, Cissé tem a companhia do tunisiano Maalou, único outro de origem africana.

O argumento para sustentar a prevalência de expatriados é antigo: as seleções africanas têm menos tradição no futebol, e, por isso, é natural que busquem nos principais centros da Europa e América do Sul, em países com títulos mundiais, o “know how” tático para suas equipes. Só que a Islândia, estreante em mundiais, tem um treinador islandês; o Japão, que por anos apostou em estrangeiros, é comandado hoje pelo japonês Akira Nishino. O mesmo acontece na Coreia do Sul ou na Costa Rica.

Cresce, desde 2000, um movimento de insatisfação entre treinadores africanos, que apresentam resultados em competições de categorias de base e questionam os reais avanços do futebol do continente sob o comando de estrangeiros. A herança de anos de colonização e a questão do racismo permeiam a discussão, indissociável do conceito do “salvador branco”.

É um termo com origem no poema “O fardo do homem branco”, escrito em 1899 pelo inglês Rudyard Kipling, e no livro “Coração das trevas”, de Joseph Conrad. Na África, ele é usado para se referir à interferência dos homens brancos europeus no continente, sob o pretexto de espalhar a razão e a civilização, mas com objetivos menos nobres e interesses próprios. Para alguns africanos, não é muito diferente do que acontece no futebol.

Camarões-90 chocou o mundo e enraizou conceito 

AFP Photo
René Higuita perde a bola para Roger Milla na partida Camarões x Colômbia pela Copa do Mundo de 1990 Imagem: AFP Photo

A seleção de Camarões chocou o planeta ao atingir as quartas de final da Copa do Mundo de 1990 – é, até hoje, ao lado de Senegal, em 2002, e Gana, em 2010, a melhor campanha de um africano em Mundiais. O treinador era Valery Nepomnyashchy, de nome impronunciável e experiências na segunda divisão russa e no Turcomenistão, e constantemente criticado pela imprensa local. Não existia qualquer clamor por um treinador camaronês, mas Nepomnyashchy, ao contrário do antecessor Claude Le Roy, não falava uma palavra de francês, e recorria a um chofer para traduzir suas orientações táticas.

Aquela equipe, com Roger Milla e Omam-Biyik, mostrou suas armas com uma vitória na estreia diante da Argentina de Maradona, derrotou Romênia e Colômbia, e caiu diante da Inglaterra de Gascoigne e Lineker com um gol de pênalti, no final da partida. Em uma era pré-internet, adversários foram surpreendidos por uma marcação fortíssima, no limiar da violência, com força e velocidade impressionantes no ataque. São traços que se enraizaram no imaginário futebolístico, virando praticamente clichês que descrevem seleções africanas.

Análises táticas mais profundas das equipes da África são raras, e talvez seja até o caso de um “mea-culpa” da imprensa. Quando se fala nesses times, o discurso das bocas dos treinadores, jogadores, e das canetas dos jornalistas invariavelmente acaba passando por força física, vigor, marcação forte.

“São jogadores rápidos e que têm força física impressionante”, disse o brasileiro Zé Roberto, sobre Gana em 2006. “A Nigéria é um time de muita força. Todos chegam juntos, na nossa primeira fase enfrentaremos times de muita raça. Teremos que tomar cuidado para que ninguém se machuque”, disse Mancuso, em 2010, ao analisar o grupo da Argentina em entrevista à ESPN. “É uma seleção fisicamente muito forte, mas acho que vai ser bom o fato de terem empatado e precisarem do resultado agora” -  a frase é de Júlio César, também em 2010, mas, desta vez, se referindo à Costa do Marfim. “Senegal joga com muita força física. Estamos focados em lutar”, disse Goralski, da Polônia, em 2018, sobre o confronto desta terça-feira contra Senegal.

Se houve evolução tática do futebol africano, é difícil argumentar que a percepção das características das seleções que vem da África evoluiu também, e não se prende mais a conceitos e ideias que perduram por anos. É um prato cheio para os esquecidos treinadores africanos, que argumentam que o atrai os europeus é, primariamente, o dinheiro.

“Os caras brancos vem aqui pelo dinheiro”

AFP PHOTO / JEWEL SAMAD
Treinador Stephen Keshi, da Nigéria, acompanha partida contra a Argentina em Porto Alegre em 2014 Imagem: AFP PHOTO / JEWEL SAMAD

O nigeriano Stephen Keshi foi um dos poucos técnicos negros a ter tido oportunidade de comandar uma seleção em Copa do Mundo. Depois de vencer a Copa das Nações Africanas, comandou a Nigéria em 2014, no Brasil. Caiu nas oitavas de final, diante da França.

“Os caras brancos estão vindo para a África somente pelo dinheiro. Eles não estão fazendo nada que nós não conseguimos fazer. Eu não sou racista, mas é assim que as coisas são” disse, em 2013, à BBC inglesa. “Treinadores africanos, quando contratados, as federações nacionais querem que vençam a Copa, a Copa das Nações Africanas e todos os jogos. Com os brancos, eles têm um ano para se adaptar, conhecer o país. Dizem a eles que não se preocupem, vocês têm tempo. Não é profissional e é uma coisa que mata o futebol africano"

Keshi falava com a experiência. Oito anos antes de comandar a Nigéria, tinha sido ele quem classificou Togo, pela primeira vez na história, para uma Copa do Mundo em 2006. A aclamação durou pouco e os togoleses caíram na primeira fase da Copa das Nações Africanas do mesmo ano. De herói a vilão, o treinador foi substituído às vésperas do Mundial, e perdeu a chance de aproveitar a histórica vaga que tinha ajudado a conquistar no torneio. O substituto? Otto Pfister, alemão.

Africanos ainda não venceram uma Copa, mas já tem conquistas internacionais no currículo. Quando Camarões venceu o ouro olímpico, em 2000, seu comandante era negro e camaronês. Jean-Paul Akono levou uma equipe que tinha Samuel Eto’o ao título, batendo na final a Espanha de Xavi. Menos de um ano depois, estava desempregado, substituído pelo francês Pierre Lechantre.

“A opinião pública tem sido manipulada por algumas pessoas que querem o Lechantre. O próprio Lechantre está por trás desta campanha. Convivi com ela por sete meses, mas basta”, disse Akono à BBC em 2001. “Camarões precisa de sucesso. Nosso futebol é apreciado no mundo inteiro”.

Os números de uma “realidade dolorosa”

“Realidade dolorosa” foi o termo utilizado por Aliou Cissé ao falar sobre o fato de ser o único treinador negro dentre as 32 seleções que disputam a Copa de 2018. “Acredito que o futebol é universal e que a cor da pele tem pouca importância no jogo”.

Quando a Copa se encerrar no próximo dia 15 de julho,  31 das 45 participação africanas em Mundiais terão sido comandadas por estrangeiros. Um avanço de Tunisia ou Senegal até as quartas de final incluiria um técnico da África pela primeira vez entre as melhores campanhas da história do continente. Caso isso não aconteça, a espera pelos ventos de mudança se estende até 2022, no Qatar.

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