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Transnístria, o país que não iria à Copa nem com Messi e Ronaldo

Governo da Transnístria
Estátua de Lenin em frente ao parlamento da Transnístria Imagem: Governo da Transnístria

Felipe Pereira

Do UOL, em São Petersburgo, (Rússia)

20/06/2018 04h00

A Transnístria tem fronteiras, emite passaportes, conta com moeda própria e tem 475 mil habitantes que se veem como cidadãos transnistrenses (ou seria transnistrianos?). A Islândia, que parou o argentino Lionel Messi na estreia da Copa do Mundo, por exemplo, tem uma população de apenas 300 mil pessoas.

Mas como a Transnístria é pitoresca, nem com um time com o goleiro alemão Neuer, o zagueiro brasileiro Thiago Silva, o meio-campista espanhol Iniesta ou o atacante português Cristiano Ronaldo conseguiria se classificar para a Copa do Mundo. Porque a Transnístria é um país no conceito mais amplo da palavra, mas não é no sentido mais técnico do termo: ela não é reconhecida por NENHUM integrante da ONU (Organização das Nações Unidas).

O cenário, porém, fica mais bizarro porque o país que não é país parou no tempo. Como se a Guerra Fria ainda existisse, a bandeira da Transnístria mantém a foice e o martelo. Existem estátuas de Lenin espalhadas pelas ruas, com a mais famosa localizada em frente à sede do parlamento. Tanque de guerra é decoração de praça.

Divulgação Transnístria
Imagem: Divulgação Transnístria

A moeda e o passaporte não são válidos fora de suas fronteiras. A origem de tudo é o final da União Soviética, quando a Moldávia se declarou independente. Nada mais natural em um país que estava com os soviéticos por obrigação. Acontece que existia ali uma região em que russos eram maioria. E essas pessoas reagiram declarando independência da Moldávia e pedindo para serem reanexados à Rússia.

Jeitinho transnistriano

O rolo ficou ainda maior porque exatamente na Transnístria ficava a sede do 14º Batalhão do Exército Vermelho. Os moldavos começaram uma guerra para tentar recuperar a faixa de terra, mas foram varridos pelos russos.

Ocorre que a Rússia mantinha sua força em armas, mas o prestígio político estava em declínio. Não houve como anexar um território que nem tinha ligação com o país – existe uma Ucrânia entre a Rússia e a Transnístria.

Sem poder resolver a situação, a coisa ficou assim mesmo. Desde 1992, os moradores vivem num país em que ninguém reconhece. Grigoriy Brojusko é um deles e é direto em responder a qual nação se considera pertencente. “Eu me considero um cidadão da Federação Russa”.

Mesmo com todas as implicações que a realidade diplomática causa, Grigoriy afirma que a vida não é lá tão complicada graças a uma espécie de jeitinho transnistriano. “Nossos rublos podem ser facilmente trocados (por outra moeda) se necessário. Em termos de passaporte, também não há obstáculos. Além do passaporte da Transnístria, geralmente temos outra cidadania: Moldávia, Ucrânia, Rússia e, em algumas situações, Bulgária”.

Divulgação Transnístria
Imagem: Divulgação Transnístria

Patinho feio da Europa

Além de todos os problemas diplomáticos, o país já foi acusado de tudo que não é bom. Tráfico de tabaco, drogas, pessoas e até de órgãos. Seu nome foi incluído em relatórios da Interpol e criou-se uma espécie de slogan depreciativo: "Transnístria, nada de bom saí de lá".

Os moradores se sentem ofendidos e insistem que é implicância. “A propaganda ocidental faz de nós monstros da Europa. Eu me lembro que uma vez o nosso time de futebol, o Sheriff, teve que jogar contra um time finlandês. Fui ao fórum de torcedores finlandeses e o que li me chocou. Eles acreditam que temos tanques andando nas ruas e que armas podem ser compradas em qualquer esquina. Foi muito triste”, lembra Grigoriy.

Ele refuta estas acusações, mas reconhece que na Transnístria as chances de uma vida próspera são escassas. Falta emprego e sobra necessidade de apadrinhamento. “Em relação a oportunidade de carreira, é mais difícil. Para quem não tem recomendações, não é possível crescer profissionalmente”. Sobre a educação, Grigoriy fala que a exigência das escolas e universidades é alta, as aulas teóricas são puxadas, mas a parte prática deixa muito a desejar.

Divulgação Transnístria
Imagem: Divulgação Transnístria

Ele gostaria que o país recebesse investimentos estrangeiros. Ressalta que há muitos monopólios estatais e acredita que a concorrência levaria a serviços melhores. Só que não tem esperanças de mudança econômica. “Os investidores não têm pressa em colocar dinheiro na Transnístria por causa do status incerto do país”.

Turismo de saudosistas soviéticos

Com uma fama e uma economia tão ruim, a Transnístria não consta nos roteiros de viagem das agências mundo afora. Mas a indústria do turismo do país tem um público bem específico: as pessoas que, até hoje, apoiam o comunismo. Como pouco foi mudado, as características do tempo da Guerra Fria atraem saudosistas. As pessoas querem ver como era a vida que gostariam de ter para si mesmas.

O governo não pensou duas vezes e embarcou na onda. Montou um “roteiro comunista” e colocou a opção de visita no site do Ministério de Turismo da Transnístria. O texto publicitário descreve que 25 euros permitem a seguinte experiência:

“Mergulhar em monumentos de Lenin e Gagarin. Encontrar no tour soviético a genuína atmosfera de duas cidades da antiga União Soviética, Tiraspol (capital da Transnístria) e Bendery. E poder testemunhar 70 anos de história soviética na Transnístria”.

Rungroj Yongrit/EFE
Imagem: Rungroj Yongrit/EFE

Esta é a parte que o governo conta, mas existe uma história que o povo e o governo da Transnístria não se orgulham. Viktor de Bout é um ex-oficial da Força Aérea e considerado o maior traficante de armas do mundo. Ele é russo e servia justamente no 14º Batalhão, que expulsou as forças da Moldávia.

O militar inspirou o filme Senhor das Armas, estrelado por Nicolas Cage. Enquanto era oficial da Força Aérea soviética, Viktor não teria se preocupado em derrotar o exército da Moldávia. Concentrou seus esforços em desviar armas do Exército Vermelho e vender para qualquer nação, milícia ou grupo terrorista que pudesse pagar.

O traficante de armas, que teria acumulado fortuna de US$ 6 bilhões, foi condenado a 25 anos de prisão num tribunal dos Estados Unidos em abril de 2012. O povo da Transnístria está numa prisão diferente. São quase 500 mil pessoas presas ao passado, nutrindo desavenças políticas de uma Guerra Fria que nem existe mais.

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