Copa 2018

Legado ou marco da corrupção? O dilema de Sochi, casa do Brasil na Copa

Ricardo Perrone/UOL
Ponte construída como parte da estrutura dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2014, em Sochi, cidade que recebe a seleção brasileira Imagem: Ricardo Perrone/UOL

Danilo Lavieri, Dassler Marques, João Henrique Marques, Pedro Ivo Almeida e Ricardo Perrone

Do UOL, em Sochi (Rússia)

20/06/2018 04h00

“A Olimpíada foi boa para Sochi. A cidade cresceu muito. Teve corrupção? E daí, tem no mundo todo”. Quem diz isso é Sacha Andreeve, que trabalha há cinco anos nos teleféricos da montanha de Gorki  Gorod, em Estosadok, a cerca de duas horas de carro de Sochi (pronuncia-se Sótchi).

A declaração a aproximadamente 2.300 metros de altitude resume o dilema que marca a cidade escolhida como base da seleção brasileira durante a Copa da Rússia. Ter sido sede dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2014 foi bom para a comunidade local ou serviu mais para encher o bolso de corruptos?

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Regina Burkina tem a resposta na ponta da língua. “O senhor Putin deu muito dinheiro para construir as coisas aqui para os Jogos. A cidade avançou mais de 40 anos. As pessoas falam de corrupção, falam muita coisa que não é verdade”, diz a moradora de Sochi.

Regina conta que um dos principais legados deixados pela Olimpíada é uma estrada de 45 km ligando Sochi a cidades vizinhas, e que a obra ajudou na locomoção rápida das pessoas da região. Só que esse grande símbolo do desenvolvimento, na opinião dela, é considerado uma espécie de cartão-postal da corrupção, na avaliação de parte da imprensa internacional. Relatos de jornalistas estrangeiros são de que a obra da estrada custou US$ 8,6 bilhões (cerca de R$ 32,2 bilhões) e foi construída por empresas de amigos do presidente russo, Vladimir Putin.

A acusação é familiar para os brasileiros. O Ministério Público acusa Sérgio Cabral, ex-governador do Rio, de montar um esquema com amigos para lucrar com as obras dos Jogos Olímpicos de Verão de 2016 no Rio. O político está preso, embora negue as acusações.

“Olha, aqui ninguém foi preso”, diz Romeo Sergeev, motorista de Uber em Sochi. Ele usa a informação como argumento para contestar que a Olimpíada tenha servido de pano de fundo para Putin e seus amigos ganharem dinheiro de forma ilícita. Romeo cita a construção de um grande hospital e de vários hotéis de luxo para defender o legado dos Jogos.

Tanto o motorista como Regina afirmam que antes das Olimpíadas os moradores de Sochi só conseguiam emprego no verão, quando turistas desembarcam no balneário para se esbaldar nos resorts e nas praias do Mar Negro, que têm pedras em vez de areia. “A cidade cresceu, mais turistas passaram a vir para cá mesmo no inverno. Putin disse: 'a Olimpíada vai ser em Sochi'. Agora estão todos felizes”, declarou Romeo.

“Veja essa estrada, ela não existia. As pessoas sofriam em congestionamentos. Isso não acontece mais”, afirmou ele segundos antes de, ironicamente, ver o carro parar num demorado engarrafamento.

Romeo também cita o desejo do presidente para explicar um cassino à beira de uma estrada num cenário que parece obra de milionário extravagante. “Putin disse: 'Sochi vai ser a única cidade da Rússia que poderá ter cassinos'. Então, esse foi construído”, explicou ele, que diz não ser eleitor do presidente. A casa existe há cinco anos e não tinha nenhum frequentador quando foi visitada por volta das 11h pela reportagem. Em Las Vegas, a capital mundial da jogatina, não há horário em que os cassinos estejam às moscas.

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Cassino fica na vizinhança de Sochi Imagem: Ricardo Perrone/UOL

A existência do suntuoso local para jogos ajuda a explicar os planos de Putin para a cidade que recebe a seleção brasileira. O governo russo quis aumentar o potencial turístico do local e, além da Olimpíada e da liberação dos cassinos, foi buscar uma vaga para Sochi no calendário do Mundial de Fórmula 1, além de uma sede na Copa do Mundo.

Os locais aproveitam a oportunidade de conviver com estrangeiros atraídos pelo Mundial para tentar apagar alguns rótulos que acreditam marcar os russos. “Pode olhar o meu passaporte para ver que eu não sou mafiosa”, disse Regina ao receber a reportagem para um tour pela cidade. Ela se ofereceu como guia para o passeio, acompanhada por sua filha de dez meses, para mostrar “a verdadeira Sochi”.

“Não sabemos por que as pessoas de outros países não gostam da gente, principalmente os americanos. Nós somos legais. Só deixamos de ser quando mexem com a gente”, afirma Romeo.

Além dos passeios de teleférico pelas montanhas que têm neve apenas no topo durante o verão, muitas praias, algumas de nudismo. Sochi tem entre suas atrações o parque olímpico com obras futuristas, a casa de veraneio que era usada pelo ex-líder soviético Josef Stalin e o Dolphinarium Riviera, lar de golfinhos amestrados.

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À direita, a moderna estação de trem de Sochi; à esquerda, a antiga estação local Imagem: Ricardo Perrone/UOL

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